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Em cima da mesa da sala um cubo com areia no fundo, na bolsa dois guizos coloridos juntos por um fio de prata, e depois de alguma pesquisa exaustiva onde derramei café duas vezes em meu pijama e derrubei finalmente a caixa com o lanche que pendia perigosamente na ponta da mesa, ainda estava insatisfeita com meus resultados, talvez tivesse de ir mesmo a biblioteca na universidade conferir melhor o que significa esses sonhos. Não que uma universidade desse a atenção a minhas loucuras, mas talvez em alguma seção de psicologia houvesse livros sobre sonhos ou algo assim, melhor procurar eu mesma do que pagar para alguém me falar algo que eu sei mas não consigo entender. Arrumei um pouco a casa, fiz uma xícara de café, que agora sorvi com calma e olhando alguns desenhos estranhos que passavam pela manha. Terminando de me arrumar, com uma saia simples de pregas, sapatilhas azuis e uma blusa de lã, não sabia mais como me arrumar sem usa o espelho, ou qualquer coisa que refletisse, preciso procurar também o nome da fobia de reflexos e ver se há cura, ou vou ter que pedir para a filha da vizinha começar a opinar sobre como eu estou, o que parecia valido, crianças de 10 anos são bem criativas. Agora evitando o elevador, desci alguns degraus da escada, e percebi que deixei o celular em cima da cama, longe de cafés e de desmaios involuntários, eu estava me alimentando bem, ia à academia, mas eu insistia em desistir da realidade nos piores momentos, na ultima vez fiquei encharcada da chuva. Subi os mesmos degraus que havia descido, e ouvi o barulho de algo quebrando, olhei para o chão, sentindo estar pisando em algo leve, mas não era ali, uma fisgada de dor me subia pelos dedos, e olhei para o corrimão e vi um fio de sangue escorrer para cima, não…não de novo não…

Assim que voltei minha atenção para o corredor onde era meu apartamento tudo estava escuro, só conseguia ver as paredes e pouca coisa do teto, uma fraca luz piscava como em ondas vermelhas e ia descendo pelas escadas. Segurei o corte na mão esquerda e comecei a correr pela escada para baixo, cada passo mais forte fazia o vidro que agora refletia meu horror e minhas sapatilhas, conseguia ver ao menos a uns dois metros pela fraca luminosidade, as paredes pareciam estar pulsando, e havia ranhuras e outras coisas de aparência viscosa. Por medo de quebrar os vidros, e talvez toda a escada, comecei a andar com mais vagar, olhando para baixo conseguia ver o próximo bloco de degraus, o que não me animava nem um pouco. Depois de alguns minutos descendo, a luz antes intermitente e hipnótica de tom avermelhado foi ficando cada vez mais escassa, até que se apagou completamente e sobramos somente eu e os ecos de meus passos no vidro.

Estar sozinha nunca foi meu forte, quando pequena dormia muito com meus pais, e na escola sempre andava com um grande grupo de amigos, claro, tentava ter a atenção que eu desejava, mas era só por medo, só para não ficar sozinha. Caixas de livros e roupas espalhadas era uma visão normal de meu quarto, não ligava muito para a internet na época, e, aliás, hoje só uso por causa do emprego, mas também achei maneiras de não ficar sozinha mesmo morando há cinco anos assim. A idade não me ajudou tanto quanto as pessoas que eu me cercava, e as situações em que me meti, mas ainda assim…

As luzes ficaram apagadas por minutos, ou horas? Perdi-me incessantemente em pensamentos e memórias para evitar que o medo tomasse conta e me fizesse coisas ainda piores, mas foi tarde demais, quando imaginando os piores desfechos possíveis, algo caiu pesadamente em cima da escada de vidro fazendo a estrutura toda tremer. Fechei a mão com o medo e me lembrei do corte latejando ainda, e o sangue subia pelo meu braço ao invés de descer. Alguma coisa havia se partido alguns lances acima, o barulho do vidro se estilhaçando fez meu coração disparar. A luz voltou aos poucos, agora ela ia um pouco mais longe, e ao olhar para cima petrifiquei de medo. Enquanto a luz ia ou vinha em ondas, um sibilante aviso veio logo acima, e era uma cobra, algo parecido com uma ao menos, o corpo volumoso e vermelho com tons estranhos e irregulares cobrindo a pele, sem olhos e com uma boca praticamente humana, mas de um tamanho aberrante. No lugar dos olhos a mesma pela que cobria o resto de seu estranho ser, e varias patas, como se fossem as mãos de milhares de pessoas se arrastando lentamente em redor da escada. Não havia nada a fazer senão correr para baixo, e arriscar alguns cortes, do que esperar o enorme verme serpentear ao meu lado, pois ele descia cada vez mais rápido, e enquanto se enrolava na espiral da escada, trincava e quebrava os vidros, e hora aparecia entre as ondas da luz, hora sumia na escuridão, sibilando e se arrastando para baixo. A intensidade da luz foi aumentando, e conforme olhava para baixo os lances de escadas não pareciam acabar, e para meu desespero quando olhava para cima tampouco o verme parecia diminuir de tamanho, era como se ele estivesse crescendo para baixo, ou não tivesse algum começo ou fim. Já muito próximo de onde eu estava um odor desagradável acompanhava a criatura e entrava como uma nevoa densa pelas frestas trincadas da escada. Comecei a me sentir mal e lenta, não havia comido nada que me lembra-se, mas o que quer que fosse estava perto de eu botar para fora. A luz finalmente se manteve, sem se alternar entre as sombras, e a coloração dela também estava mudando, de um carmesim sangue, para um lilás forte, e por ultimo um azul muito claro.

Por nada melhorei do enjoo que o meu perseguidor me causara, e me animei a correr mais, a impressão de ver alguma coisa diferente dos mesmos lances me fez correr mais.

Não havia percebido que o verme já estava emparelhado no mesmo degrau do que eu, e me esforcei ao máximo, mas em vão, a criatura agora estava a minha frente e serpenteado a estrutura, agora que estava mais perto do fim percebi que logo abaixo havia uma porta grande, seus ferrolhos e maçaneta eram de algo azul que brilhava muito, e o verme se apressou em direção a porta, não sei se foi o certo a se fazer, mas em poucos segundos a criatura iria alcançar a porta, ou me sufocar com seu corpanzil que agora esmagava a parte de cima da estrutura, sentindo os cacos caírem nos meus cabelos, não pensei muito no que fazer, a não ser pular no lance de escadas abaixo quebrando assim os vidros. Parece que a queda durou por uma eternidade, os estilhaços no ar passavam por mim e acertavam o chão, fazendo grandes pedaços espelhados virarem pequenas constelações, todas refletindo o azul forte que a porta emanava. Toda essa leveza que meus olhos presenciaram foi interrompida pelo barulho de minha queda em cima da doce constelação espelhada, que agora ao invés de refletir a bela emanação da porta, refletia em alguns pontos as gotas de meu sangue, acho que talvez tenha torcido o pé, ou as costas, talvez eu tenha torcido tudo, todo o brilho e luz se apagou, e somente a dor e o escuro permaneciam, até que no fundo da escuridão uma porta se abriu, e o sibilar horrendo se encontrou com um grito estridente que me fez sentir um leve frio e um conforto, me senti sendo arrastada e levada para algum lugar macio, penas talvez, e fechando finalmente os olhos ouvi ao longe o barulho de um trovão, e gotas mornas começaram a cair na minha testa.

Sopa de Sol

Um pouco de fel, com o calor da caldeira a requentar novamente em brasa ardente, antes ouvi o porque da receita falhar, sem amor ou ardor foi descaso com o tempo a refogar, a medida errada de lembranças confundidas com as andanças de outra vida a recusar, a dose errada das ervas de sonhos que na noite sem pomos me fez refestelar em lento onirico e fatidico mundo de gorjeias e alem do mar, fiz naus e velas da terra bruta e fui em um atol encalhar, mas acordado com o odor da celebração me fiz de ninguem e vesti a mascara de cetim, olhos furados e costuras erradas logo assim, viram que era o rei da sopa de alecrim, e o primeiro prato me foi feito de fato logo que me sentei no trono carmesim, aonde balidos e chamados urravam pela mascara que toda noite tinha um dono prepotente, que não resisita ao clamor de tais gentes, e logo descobriu o veneno da emoçao, amaldiçoou em brados a sua corrupaçao, e não livrou-se mais de seu rosto, revelou por ele estranha afeição, nobre entre os pobres, nunca mais quis sorver da amarga decepção, da sopa do rei ser apenas uma simples distração, pois o gosto era o ego, e os gritos eram cegos, o que importava era a sua não feição, voltei aos sonhos e ainda estava preso no atol, mas agora haviam feito um farol, coruscava como o sol que nada via, e finalmente o descanço abaixo do seu calor me dei no fim do dia.

Manobras

Desviado do acaso esbarrando em belo vaso triste memorias

Regadas ao acaso simples comoção da morte do atraso, não é

Raso o descaso do belo sarcasmo, vitória da memória simples

E sem glória, vide de seixos coloridos em alaridos de balidos

O purpúreo som da ameixa sem tom deixa a vida sem brecha aonde

Possa passar as frestas dos clarins e oboés da festa, esta que

Atina na rotina e atesta o fim do jardim triste sem mim.

O sol estava errado, muito longe, e o amarelo parecia fosco e não machucava olhar para a distante bola amarela no céu, que cá entre nós também estava estranho, parecia mais um pano mal esticado e borrado. A areia incomodava, pois entrava na sapatilha o tempo todo, e olhando para o horizonte, eu conseguia ver o reflexo forte do astro falso, estava com um vestido rosa claro, e com uma meia calça de uma cor um pouco mais escura, as sapatilhas eram pretas, e havia um “H” bordado na direita em dourado, e um “N” bordado em vermelho na esquerda, estava lembrando-se de algo, quando o horizonte começou a despencar, e como em uma ampulheta, a areia correu rápido por entre meus pés enquanto o mundo ia inclinado. E duas coisas me fizeram duvidar que realmente eu voltasse a fazer algum sentido, a primeira foi o quebra nozes de Tchaikovsky vir do nada, e a segunda foram as linhas em forma de sapatilha que ficara visíveis assim que a areia escorreu um pouco para a esquerda, e com isso tudo ficou muito fácil. No começo não, claro, conforme eu me movia, o horizonte se deslocava para trás de onde eu acompanhava as linhas dos passos, então além de perfeita eu deveria balancear essa loucura de areia com um pano no lugar do céu e dançar conforme os clarinetes e violinos dentro de uma caixa de areia. Tudo começou a ficar mais rápido, a musica, os passos, nenhuma erro, a areia começou a gastar o fundo do calcanhar de uma das sapatilhas, e uma sombra serpenteou no canto do meu olho, mas a musica e os passos não me permitiram olhar para trás, ou para os lados, somente girar e pular e saltar em todas as direções da melodia entre os grãos. Outra sombra, esta cobria um pouco o sol fosco as vezes, e os clarinetes pareciam seguir sempre os volteios da mancha escura. Vendo ela as vezes parecia ter a forma de um pássaro, e as vezes quando ela passava bem por cima dos traços dos passos e no compasso do clarinete, um calafrio me tomava e  uma sensação de descanso, mas enquanto a sombra que serpenteava o canto dos meus olhos, nunca totalmente a vista, as vezes borrava os meus próximos passos ou ia muito perto , eu sentia sua presença atrás de mim, um fedor tumular e até venenoso me atingiu como uma parede, fiquei meio tonto, talvez fossem os rodopios perto do fim da melodia, e enquanto ela ia acabando, e o sol foi se afastando cada vez mais, até a luz ser como um reflexo tênue da luz do corredor por uma porta entreaberta, e as sombras se encontraram e se enrolaram, o horizonte foi rachando assim como o chão, a areia escorrendo rápida para o centro de tudo, e o pano do céu começou a cair e a me enrolar. O ar começou a faltar e me vi esticando a mão para poder me segurar em alguma coisa, o pano se dissolveu e virou uma torrente incontrolável que escorria como num ralo, de relance no céu a sombra de uma ave enorme passou muito perto, e muito rápido, assim como a sensação boa que ela trazia. Sentia um movimento ainda mais forte que a corrente serpenteando em meu redor, e algo começou a se enrolar na minha cintura e me puxar para baixo, antes de entrar completamente na água um grito estridente quase fez meus ouvidos sangrarem, e a torrente inteira parou e congelou por completo. Um barulho como o de vidro quebrado veio do fundo da água congelada, e uma centelha coruscante e vermelha subiu e acertou alguma coisa que finalmente fez o balé parar de tocar, pedaços de algo que foi incinerado caíram no canto do horizonte e do céu que agora era um infinito  muito próximo, nebulosas e cometas pairavam em um balé muito maior e mais lento, planetas estranhos passando rápido, novamente um calor intenso vindo de baixo, agora a queda foi abrupta, e olhando para baixo só consegui ver uma fileira de dentes em um abismo rubro e pulsante. Um som de farfalhar de asas acompanhou meus gritos, e algo se chocou com muita força com o abismo pontiagudo, deixando no caminho da queda somente o resto do chão rachado com um pouco de areia no caminho, passei como um raio por ele e afundei lentamente em um liquido escuro e morno, as forças saíram completamente do meu corpo, e me deixei afundar lentamente até desmaiar.

Acordei suada e derrubei uma cadeira e metade de um lanche em cima do meu pijama, havia desmaiado em frente ao monitor, a imagem que estava em anexo era distorcida e havia algo escrito, muito sono ainda, e eu estava segurando algo. Olhei para a minha mão e vi um pequeno cubo transparente, com diminutos grãos amarelos espalhados, e uma bailarina parada naquela posição com as mãos para cima juntas e a perna dobrada com o pé apoiado na ponta dos dedos. Havia uma manivela e eu comecei a dar corda, assim que o balé começou e a pequena figura ia fazendo voltas e limpando o caminho com areia, e quando a musica terminou e a areia estava marcada pelo compasso da pequena, a figura de um pássaro enrolado em uma cobra surgiu, e um arrepio de medo e um frio confortável confundiram meus pensamentos.

Batendo a ponta do lápis na mesa, sem querer Celine pontilhou algo parecido com um raio, meio torto para a esquerda, mas um raio definitivamente. Ela se lembrou de que tinha de lavar a louça quando chegasse em casa, alimentar o gato, e talvez se alimentar também se tivesse estomago. As escadas eram agora a sua melhor opção, e os espelhos da casa estavam virados para as paredes, ou com algum pano grosso em cima. As colegas de Celine notaram que sua maquiagem estava meio borrada, mas não ousavam falar nada, afinal era ela quem fazia o café todos os dias no escritório. Alias um confortável conjunto de cubículos dispostos em um tedioso quadrado no terceiro andar de um prédio que já poderia ser considerado patrimônio histórico, assim como seus outros habitantes noturnos. Mas só daqui a um dia o escritório teria alguma relevância, agora ela estava indo para a casa, numa velocidade normal, em uma vespa normal, amarela atualmente. A garagem era meio fria por culpa de algumas infiltrações, mas a capa em cima da moto a protegia contra qualquer efeito indesejado, e afinal, Celine não dormia na garagem mesmo. A subida penosa foi aliviada pelo sofá confortável e os chinelos gastos que ela ganhara havia três natais de algum parente que não sabia o que lhe comprar, tinham a forma de uma serpente no pé esquerdo, e de um belo pássaro o direito, nunca se perguntou o que um tinha a ver com o outro, não agora. Em sua pagina em uma rede social bem intempestiva às vezes, ela havia recebido algumas solicitações de amizade, uma delas era do homem que ela reconheceu do bar a algumas noites, depois ela decidiria o seu destino na vida virtual dela. Agora ela tinha de terminar alguns relatórios sobre a rotina de outras pessoas, e tentar estudar um pouco para as provas de fim de semestre, dormir era facultativo.

As marcas de café na mesa formavam vários círculos, uma embalagem com um lanche pela metade estava pendurada no canto da mesa, perigosamente até, o tédio tomou conta de Celine depois de uma hora de estudos e meia hora de trabalho, decidiu ficar as próximas três horas fazendo nada sentada, passeou por sites de horóscopos e procurou sonhos com espelhos, achou a mesma coisa em todos eles, casamento, sorte se a superfície brilhar, morte se o reflexo for distorcido e outras coisas que impediram meu sono de chegar tranquilamente, alguns números para jogos de azar e uma pedra de nome estranho que supostamente protegeria meus sonhos se eu a botasse em cima do monitor.

Valeria a pena passar o meu dia de folga procurando algo mais palpável talvez na biblioteca da faculdade antes do almoço, amanha era o dia que eu passava mais tempo longe de casa, as vezes nem chegava a voltar, ia direto para o escritório. No meio das minhas divagações e do tempo gasto na frente do monitor, o aviso da minha caixa de e-mail começou a piscar no canto da tela, não reconheci o remetente lendo o endereço, e também a hora havia avançado bastante, a lua no topo da abóboda celeste pendurada por uma fina camada de estrelas e nuvens, virei a cadeira para frente da mesa, estava com o pé dormente já, duas horas sentada em cima de uma meia preta com os dedos rosas me fizeram parecer uma gárgula de alguma dessas catedrais góticas ou o que quer que seja. O remetente realmente estava embaçado, não acho que minha visão tenha piorado tanto, estava realmente borrado o endereço, havia dois anexos na mensagem, um com extensão de um tipo de imagem, e o outro era um arquivo de texto. A fonte da minha caixa de entrada também parecia diferente, ao menos nessa mensagem abri outras duas para me certificar, e realmente, só esta sem remetente e com dois anexos é que estava com uma fonte mais rebuscada, algo muito pessoal, parecia a caligrafia de algum cartografo de centenas de anos atrás. Uma chuva fina começou a tamborilar na janela atrás de mim, algumas gotas acertaram a caveira estampada na meia e minha nuca, produzindo um arrepio desnecessário para quem esta com sono, fechando a folha que estava aberta, notei que havia um par de olhos refletidos nela, havia dias que eu não encarava nada que pudesse me refletir, mas agora houve um descuido, e eu pude ler o endereço da mensagem corretamente olhando para fora no reflexo das gotas, as luzes da cozinha e do monitor piscaram e apagaram, o mundo escureceu e perdi a força nas pernas, o que fez o chão do apartamento derreter e me engolir em uma bolha que me sufocou até eu perder os sentidos, e eu só conseguia lembrar o nome de coisas tolas.

Purpúreo ou róseo, o rubro do fim do dia queimava o horizonte e faiscava por entre as arvores, lanças apontando para o celeste manchado de estrelas. Jaziam a dois dias sentados e imóveis, olhando o espetáculo grotesco de partes expostas de maneira indecente e incoerente, assim como uma vida do avesso e posto a prova pelos dias, os minutos eram os anos dos olhares, mas não saiam dali por um simples motivo, as correntes vieram de trás das paredes, quebrando tijolos antigos e arrancando parte do papel que ilustrava com monogramas copiados e semelhantes os corredores de ponta a ponta, e elas eram enferrujadas e rangiam como uma ferrolho velho. Cansados os olhos vinha o pior, pois nos sonhos o alcance dele era ilimitado, imortal. Sangravam de proposito os olhos para vermos que ele simplesmente sabia, não precisava das orbitas no lugar, se conseguia já ver no fundo das memorias as transgressões de uma vida sem premissa ou omissa, depende se você olha para mim ou para ele, e por hora, e se meus temores se fizerem reais talvez ainda por mais três dias, aqui estamos, de costas para uma porta semiaberta, com um vento frio vindo do chão, e olhando todos os dias o sol se pondo, a lua crescendo e mostrando sua foice, até que não aguentamos mais, e ele vem no sono, e ele vem nos sonhos…

Peçonha apaixonada

Quando os dias passam e você não os percebe, você esta afogado em nada ou realmente o tempo lhe traiu? Eu a vejo agora em sonhos e nos meus desejos, usa uma única túnica branca que lhe cobre até os calcanhares, mas que deixa seus ombros nus, o cabelo solto em cachos perfeitos até um pouco abaixo da base do pescoço, nem as musas se vestem assim.

Olha pra mim, seu reflexo me julga de cima abaixo, vê o que as ondas bateram e quebraram tempos atrás, o sorriso frágil e não fugaz, é fugitivo de tempos altivos, ainda acha que não luta.

Ele escolheu-a a tempos, para ambos caminharem juntos numa carruagem de nuvens que troveja, os sons fortes e abafados das centelhas espiraladas descem do céu até dedilhar um cordel, a música dos dois foi feita em algum pedaço esquecido do céu.

A melodia pode ser curta, mas muda e cura, não aperta ou é discreta, se vem lagrimas ela as limpa, se lhe vem pensamentos ela os lê, assim se faz, tudo lhe apraz, e dele ela não se desfaz, vontade voraz e sem paz, de ter o par de lábios enrolados como uma mensagem em uma garrafa, que diz que por você nunca é demais, nunca satisfaz, os cortes foram trocados por carinhos no caminho que levou até a pequena.

Sem pena, não tente, sente o que é quente, ela não é aparente, é vertente da minha mente sem mais gente, espero e creio nada mais que um devaneio, a canção é louca e a melodia é pouca mas eu faço, eu caço, aperto a caixa com um laço e lhe entrego, todos os dias um pulsante renovado, não de mal grado, é o fardo, ganhar um rubro assim logo a tarde, sem alarde, fecha teus olhos e aperta esse meu coração, que arde na paixão, passei da emoção e encontrei ao meu lado a rainha da minha razão, ora pois quem diria que amaria o escorpião.

Dor de cores

Não se sabe o nome dos ventos que batem no rosto e levam os momentos do outono para outro sem dono, o que valeu não foi uma flor cheia de espinhos, mas sim o caminho que a daninha tapava, muda muda de favores o que não sabe mais até onde chegam as dores, quem mais leva para longe os passos e os ecos do átrio das memórias, lustroso chão polido com pensar e recordar, fez de alguém um mais além, vinde a mim todos os que estão soltos e estranhos, e seremos juntos um como vários, não outros, nem fora das mentes, mas os que falam e os que criam o coração, não é vida batendo mas batalha sem noção, entre ferro, fogo e sangue é aonde se faz valer a minha tentação, encarnada no lábio dos símplices que em poucos invernos tornam o marejar um inferno, mas uma fenda entre eles separa para o seu bom fim a minha ira em sufocamento carmesim, as cores das dores devem começar assim.

Uma balança mede dois pesos, sem duas medidas, tem alecrim, galhos secos de algumas folhagens do jardim, e mais algumas coisas que uma amadora faria para tentar chamar alguém para brincar. Nada de mais, algo pequeno e com pelos, provavelmente domestico, e com olhos bonitos, claro. O olhar fala mais para ela, muito mais, ela sabia como os olhos dos outros sorriam, e ela ficava horas fitando o espelho do banheiro, e às vezes os joelhos doíam de ficar em cima do banco de madeira para alcançar sua gêmea do outro lado do mundo. E ela ferveu tudo, e juntou com a vontade e com o desejo de algo simples, mas único, e despejou o conteúdo do pequeno caldeirão em um circulo de pedras coloridas no fundo do bosque, era perto de sua casa, e tinha o barulho de gorjear e de ronronar, mas eram só curiosos, nem de perto pareciam o que a poça de sementes e ramos atrairia. E passou a quarta, a quinta, e finalmente a sexta, e depois da meia noite, ela foi ate o circulo e viu uma pequena folha, dobrada em sementes rechonchudas e brilhosas, o cheiro era inebriante, dava sono e sonhos bons, e ela esperou outra semana, e as primeiras flores roxas saíram dos galhos em forma de setas.

Ai o veio, com vagar, serpenteando entre os galhos e as folhas, e achando a sua vitima, um par de canelas finas, com meias brancas de algodão, e atacou com toda a voracidade que conseguia, se esfregando e ronronando até derrubar a menina aos seus pés, e ter ela sobre seu total controle, era fácil ser assim, dono do mundo, leve como uma lufada, e esperto como um, bem, como eu. E todo dia olhava a plantinha roxa, que a menina cuidava, e todo dia ele se enrolava entre as pernas dela, e ronronava, e se espichava atrás do vestido azul, até o dia em que ela veio com uma tigela. Era vermelha e funda, e estava cheia de leite, ela havia me alimentado, e agora eu estava em débito, a infeliz não sabe da maldição. O carinho começou na planta, mordiscava todo dia um pouco, e ficava com o hálito dos sonhos, e fui falando perto do rosto dela a cada dia, e ela dormia rindo, com a janela aberta esperando me encontrar cuidando do sono dela, e esse era meu dever. A planta cresceu, e ficou do tamanho dela, estranhamente ela tinha o formato de um trono, mais estranho ainda, havia um buraco em baixo do trono aonde caberia um gato, com grandes olhos profundos e bigodes espetados. Acordei dentro do quarto, e a cama dela estava vazia, não pensei em outro lugar, e corri até o trono purpura o mais rápido que o sono deixava. E lá estava ela, bela, parada, com o pijama de cetim até as canelas, e abraçava o trono, sonolenta, e mordiscava as flores até cair em exaustão, e eu fiquei deitado do lado dela, porque eu era o guardião do seu sono, mas a planta trono ficava me olhando com uma cara feia, e começou a conversar comigo, dizendo que era o ultimo dia deles, o trono ia ter uma rainha, e a rainha ia ter um cavaleiro, e os três seriam eternos. As flores pararam de crescer no outro dia, e a menina não sentava mais na arvore só a olhava de longe, e chegou à noite da tempestade.

O vento forte arranhava as paredes da casa, e levou com garras invernais o trono e as folhas, o medo de perder os sonhos entrou no coração da pobre menina, e a melancolia venceu minha guarda, não adiantou miar até perder a voz, ela não respondia, nem a áspera língua entre os dedos, nem as patas no rosto movendo carinhosamente os bigodes, e ela ficou dias imóvel, com a mão estendida para fora da cama, e a tigela de leite secou, até o dia em que achei novamente a rainha e o trono, e do lado do trono um castelo purpura com um rio branco o circundando, e eu tinha uma armadura de caixinhas e uma espada de garras, e ela um vestido de algodão e doces de varias cores, e o trono cuidava do nosso sono todas as noites.

Dois copos

Até a borda era como uma torre marejada de gotas douradas começou

Ele desamarrou os sapatos e atirou as meias longe, mergulhou e caiu de cabeça no meio do vento.

A segunda era mais densa, as gotas agora eram rubras e escorriam como as lagrimas das viúvas.

Dançando nervosamente, as mãos dela tremiam, mas o agarram na cintura e a segurança dos giros a fizeram delirar como um grande salão de sonhos.

Depois veio algo mais achatado e largo, e era como mel, e o gosto era fel, desceu pela garganta fazendo um escarcéu.

Pulou, e correu, correu e correu até perder o equilíbrio e saltar o mais alto que pode. Agarrou-se nos ramos que sobejavam da murada com a ponta dos dedos, mas falhou, e um deles escorregou, e caiu, caiu, caiu…

O ultimo era como uma frondosa arvore na primavera, o verde brilhava como um par de asas que batiam nas botas, e desceu como um caçador abrindo a barriga de um lobo.

Vazando pelo cheiro, a visão turva e o enjoo não ajudaram em nada, mas tinha que sair dali, já havia acabado com ela, era só sair da espelunca e me aprumar em um motel sujo no fim da rua, nada mais…

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