O arco e a maçã

 

Todo o dia era o mesmo, a garota corria no pátio cheio de fitas

E laços, passava entre mesas e caixas e subia apressadamente as escadarias

Do torreão mais alto, ia escurecendo a medida que ela chegava ao topo, e

No fim dos degraus as tochas já estavam acesas e crepitando. No piso mais

Alto da torre, ela andava pelo semicírculo até o parapeito gradeado e

Corroído pela ferrugem, era o único lugar onde ela sabia que podia ver

A apresentação que ocorria a éons antes de ela saber da torre, do arco e

Da maçã. Digo maçãs, pois da torre mais alta se podia ver todas as terras ao

Norte, as cordilheiras do oeste, e, o que mais agradava a garota, a floresta

Que se perdia do sul do fortim até o fim do mundo. As bordas queimadas

E cheias de círculos de pedras e pequenos restos de fogueiras, e pouco acima

Deles um círculo de macieiras ficava num outeiro na frente dos ciprestes e

Pinheiros, como uma ilha de maçãs entre o negrume das arvores e o cinza

Duro das pedras. E ali, onde Sirius incide suas luzes primevas da noite em

Feixes azuis e verdes, uma figura evanescia das sombras da macieira mais

Antiga, uma arvore respeitosa, mas com um ar pesado e sombrio, o arco de prata

Refletia as luzes do lago que semi cercava o fortim, e seu manto rajado de verde

Quase o deixava invisível no meio das arvores, mas os cabelos longos e negros

E o olhar afiado o denunciava a quem estava vigiando de cima. Toda a noite o

Desafio era o mesmo, esperar uma maçã cair, e a pregar no tronco da arvore com

Uma seta, mas o tiro deveria só ferir a arvore, e não o fruto, assim o arqueiro esperava

As maçãs caírem ainda com as folhas, e sempre tentava acertá-las, mas sem êxito.

Ela não era um mau atirador, mas estava amaldiçoado, pois antes mesmo da floresta cercar as macieiras, ele já havia caçado cada criatura viva de cada recanto claro ou

Escuro do mundo, sempre as abatendo com uma única seta. Mesmo errando o alvo

Do desafio impossível, o amor dele pelo seu premio era tão grande que ele continuava,

E ele não desistia de ganhar a mão de sua linda amada que vivia nesse mesmo fortim

De onde o observo todas as noites. Olhei para o lado, e vi um vestido branco como a

Face da lua nova enredado pelo vento a tremeluzir contra as grades do beiral, duas

Mãos apertavam um colar do que parecia ser folhas de macieira contra o peito da Donzela, ela chorava copiosamente, mas olhava com ternura para o arqueiro e todas

As noites ele errava e acertava a maçã, pois ele estava fadado a errar, o pai da donzela

O enganou, era impossível não machucar o fruto com o arco, pois a folha sempre se desprendia dele com a seta, não importava a precisão dele. O rei envenenou a árvore

E ela adoeceu, e as maçãs ficaram frágeis e quebradiças, e era a única arvore permitida Para o desafio. O tempo passou, e outras macieiras foram crescendo, e o arqueiro fez Um colar com as folhas que ele arrancava nas tentativas sem êxito, e o deu de Presente ao seu amor, e prometeu que quando a seta ferisse só a arvore, e não o fruto,

O colar se arrebentaria, e ela saberia que o desafio foi cumprido. Os anos passaram e a Donzela do fortim adoeceu no outono, e no outono ela ficou para sempre, o arqueiro

Continuo a tentar acerar a maçã, mas seu arco perdeu o brilho, e seus olhos o fio, e ele

Foi sepultado em baixo da macieira doente, que se curou, e sempre florescia e dava Frutos no outono após a partida do arqueiro. Era um espetáculo triste e repetitivo, e as Vezes eu me perguntava se um dos dois notava a presença do vestido azul e curioso Que os observara todas as noites de agosto, até que na penúltima noite do outono fui

Respondida pela donzela de branco, respondeu aos meus pensamentos me encarando Com aquela expressão de comiseração e tristeza. Ela apontou para o chão, e mostrou Uma maçã feita de laços de fita e lã, estava escura e com um cheiro horrível, me Surpreendeu que eu nunca a houvesse notado ali antes, mas tive uma idéia, uma Compreensão quase infantil do que fazer agora. Uma fruta pode ser despedaçada por Uma seta, mas uma réplica de lã não pode ser partida, pois mesmo se a flecha a Acertasse, não se veria o menor furo nela, então eu entendi que a princesa de branco Do fortim já havia pensado em enganar o seu ardiloso pai, mas o destino foi mais cruel Com ela, e a levou antes de concluir seu plano, talvez até tenha sido seu pai, louco de ciúmes e ódio que a levou ao triste fim, mas eu não saberia. Agora eu estava pronta Para mudar de rumo no ultimo dia do espetáculo etéreo, e minha marcha se apressou Em direção contraria ao salão de laços e fitas, me precipitando para os outeiros depois Do lago bem antes de escurecer para preparar o fim da tragédia da noite, e me escondi Entre os galhos da macieira amaldiçoada, marcada por setas em todo o seu tronco. Subi e segurei a pequena réplica, com uma certeza que me assustava de que iria dar Certo. Meu coração estava acelerado, eu tremia e temia cair do galho, eu devia ser Muito precisa, talvez até mais que o arqueiro, para dar um fim a esse sofrimento Secular. A lua refletia nos cabelos negros do homem, seus olhos pareciam as pontas Das flechas, e ele se posicionou no lugar de sempre para esperar o primeiro fruto cair, E mais uma vez dar o tiro que conquistaria o desafio e o seu amor. O que aconteceu a Seguir foi muito lento, como se o tempo tivesse que parar para saber o que devia Fazer, soltei a fruta de lã embolorada, e ouvi um farfalhar de folhas acima de mim, e vi Uma sombra negra com uma coroa fosca de ferro ranger os dentes e dar um grito de Raiva, ele segurava uma maçã na mão esquerda.Agora eu sabia o motivo do arqueiro Errar todos os tiros após a cura da arvore, pois o senhor do fortim ainda nutria raiva Dele, mesmo após a morte, e assombrou a macieira, e envenenava as maçãs e as Largava para o arqueiro errar os tiros pela eternidade do pobre maldito.A maçã de Laços caia suavemente, quase flutuando, o espectro em cólera se precipitou na minha Direção e me sufocava com as mãos, frias como aço, o arqueiro desferiu a flecha na Maçã, e o colar de folhas se soltou do pescoço da princesa do fortim, e voou torre Abaixo na noite outonal, se desfazendo em fogo de fada ao tocar o lago, a estrela Branca e triste que iluminava a meia lua do torreão piscou, e como em um sonho, Apareceu ao lado do arqueiro, afagando seus cabelos e o beijando para sempre. O Espectro urrou de ódio, mas foi puxado pela própria macieira para o seu interior, e um Nó apareceu no tronco na arvore, em forma de um rosto com uma coroa disforme e Retorcida de raiva, e a arvore ficou conhecida como prisão do senhor, mas ainda dava Frutos no outono, alguns vermelhos e apetitosos, e outros cinzentos como ferro, e Mortais a quem os provasse menos aos arqueiros mais habilidosos. Uma chuva de Tranqüilidade lavou os dois amantes do outeiro das macieiras e das memórias de Todos, só quem se lembra dessa história é a garota de vestido azul e arco prateado.

 

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Desvaneceu

 

As mãos da garota apertavam uma a outra no seu colo

Ele olhava apreensivo para ela, com certa raiva, e falou

Duas palavras. Ela levantou, estendeu as mãos o

Mais alto que pode e as espalmou contra o céu

Parecia que o mundo era leve e sem significado, sem ela,

Ou o céu, as mãos desceram e se encontraram nas costas,

Pouco abaixo dos quadris, enlaçando os dedos e fechando

O sorriso que usou para segurar o firmamento. Dois passos

Sem vontade e tristes tentaram se voltar na direção dela

Mas estavam pregados pelo olhar curioso, mas resoluto.

A boca se abriu e ia dizer algo simples e sem sentido,

Mas parou e deu de costas, as mãos ainda com os dedos

Entrelaçados. Um suspiro que lembrou um gemido saiu de

Um peito como que vazio, mas cheio de tristeza e pesar,

Ele não se lembrava de nada para não doer, mas queria tudo,

Só que a certeza era de que não era ele, não agora, talvez

Nunca. O foco dela mudava do chão para o horizonte, e do

Horizonte para os meus olhos, estes últimos, instigados

A se emocionarem por uma curiosidade enojada, uma falsa

Pena, a tentativa de explicar a negativa, a falta de vontade

Ou compreensão é como cortar a garganta lentamente, pedindo

Silêncio e entendimento. Quando os olhos notam isso,

O sentimento fala, e sabe que depende o tempo todo dela,

E não foi forte, nem resoluto ou valente, mas fraco,

Desprezível e sem vontade, ela virou para o outro lado

e começou a andar e a desaparecer, e depois disso

Nunca mais senti o pulsante bater.

Alice de botões

Desabotoei um pedaço do céu e olhei dentro dele, e

Como em um daqueles globos de neve, um festival que

Não precisava de um chacoalhar, acontecia. Fadas, sátiros

E ninfas dançando e bebendo e cantando, instrumentos tocados,

Soprados e batidos por musas, era a alegria mítica na

Janela etérea, mas como um botão fora da casa, havia

Algo errado, e assim que olhei pra trás, vi uma rua

De terra que cortava um vale verde e vívido, e as

Nuvens subiam por trás dele como se fossem as folhas de

Uma maçã, e vi uma carruagem puxada por dois fortes bodes que

Vinha trovejando rua abaixo, me assustei ao ver uma garota

De vestido azul correndo atrás de uma lebre, ela era vermelha

E pulava mais rápido que a corrida cega da menina, pois ela tinha

Olhos de botão, um azul e o outro verde, o seu sorriso era

Costurado, mas seus cachos morenos brilhavam e voavam com a brisa

Do fim da tarde. A lebre passou pelos bodes, mas a garota não, e a

Carruagem não parou, mas os botões dos olhos dela pararam para

Sempre. O céu ainda estava aberto e eu nunca mais queria olhar

Aquela festa sem sentido, que ficava em escárnio da fatalidade

Com a garota, notei que faltavam dois botões na janela celeste,

Então eu decidi que a morte seria vingada e os botões seriam colocados.

Juntei-os da beira da estrada, e costurei-os nos pontos que

Sobejavam da janela, e a fechei, e amaldiçoei. Ouvi uma tempestade

Do lado de dentro dos botões, mas não interessava mais, fui até o

Corpo da garota e descosturei seu sorriso, a lebre agora me observava,

E mudou para um azul pálido, mostrava a sobriedade de seu arrependimento.

Ela trouxe dois botões de rosas brancas, que pareciam moedas, e logo

Entendi o que ela queria, desci a estrada do vale e me vi a beira do mar,

Com o céu róseo do fim de tarde, a estrela do firmamento estava para se

Apagar, me apressei e encontrei um pequeno barco que veio das brumas

Marítimas sacolejando até a praia estava ornado com conchinhas e desenhos

Infantis, coloquei os botões de moeda onde ficavam os olhos da garota,

E empurrei o barco para o crepúsculo. Eu acenei para o barco, e segui a lebre

Até a sua toca, agradecendo a ajuda, e observando agora as duas novas

Estrelas do céu, que brilhavam como botões, uma verde, e a outra azul, e eu

Guardei a linha que costurava o sorriso dela para sempre, amarrei no indicador

E sempre que apontava para as estrelas, ouvia o som da tempestade, e via o

Sorriso da boneca, correndo atrás da lebre.

Verbos de naus sem Rumo

O que um mar de livros sem capas ou espadas
Pode fazer de mal para alguém que espera olhando
Um navio sem asas a cortar verbo e letra, a dor
É o conjugar da sentença, agonia, lenta e sôfrega
O que pode por um fim aos passos incertos, do que
Tem veneno nos lábios, a sede do resfolegar dos certos
O que sente no vento, a pele se torcer em suspiros
O que sai do peito e quebra as vagas, que batiam
Antes em consciência, mas agora sem veemência, se
Espalham aos dez versos e deixam de ser uma nau
Para agora longe de tudo entrar no vau e deitar
Com as costas nas velas e os olhos estacados,
Sem rumo, vagueados por luzes foscas de adjetivos
Toscos, o mar aquietou, a brisa parou, e até a
Lua piscou, confusa em nuvens de sonhos e retesou
O arco de luz para findar e fazer jus ao seu que
Não escolhe o capuz, mas o veste para verter a
Vergonha que supus, em fiel sem dono, a mim
Reduz a cor sem tom, chega de som, que saiam
Daqui os que chegam de ontem e querem o hoje
Acabam deixam pra trás a mordaz comédia, do
Que não tem mais vida, só adorna as tragédias.