Uma hora entre o Sete e o Oito [Oitava parte]

Não estava escuro, não no circulo bem no meio da torre do farol. Ao menos eu devia estar no farol, mas o lugar iluminado fracamente parecia um pequeno jardim com uma grama baixa e algumas rosas, e uma arvore escura e torcida por algum vento ruim bem no meio. Não sabia disso, não vi em lugar algum, as referencias acabaram no carro ensanguentado, me segurei nas paredes, mas só consegui me apoiar no ar, não era real, não estava mais no farol, não estava mais na pequena cidade portuária, não estava mais acordada. Dei a volta na arvore em passos curtos, minha respiração e a grama sendo amassada eram os únicos sons, até um soluço infantil sair de onde eu não enxergava, atrás da arvore. Com cuidado, fiquei a certa distancia da arvore e levei o spray de pimenta à altura dos olhos de algo infantil, não sabia o que ia encontrar, mas segurar aquela lata de alumínio me fazia sentir ainda ter algum contato com a sanidade e a realidade. Deitada nos braços de uma mulher com um vestido de várias cores, uma criança com olhos de cores diferentes, chorava com um lado do rosto e ria com o outro, era um rosto, mas era uma máscara também, a mulher acariciava cada uma das faces com as duas mãos, e com as outras duas embalava a criança com leveza e pesar. A face alegre me olhava, a triste não tirava o olho da mãe, e a mulher olhou para a arvore como alguém que quer ver algo além do horizonte. Então a arvore curvou-se, e seus galhos, como duas garras seguraram a criança, a pequena e alva túnica da garota ficou com manchas vermelhas aonde os galhos seguravam, e a mulher no chão ficou desesperada e começou a chorar, suas lagrimas brilharam na fraca luz, mas ela não se levantou para tentar recuperar a menina, agora que havia notado, seus pés estavam presos por espinhos de rosas, e havia algumas que brotavam assim que as lagrimas as tocavam, e eram negras e brancas, assim como as duas faces da mascara da garota. O tronco negro e retorcido agora estava sendo envolvido por algo esguio e escorregadio que serpenteava entre seus galhos e o seu tronco, logo toda a arvore estava tomada pela viscosa aparição, o barulho de madeira quebrando encheu o lugar, e algo metálico arranhar o lado de fora de tudo isso, seja o que for. Um arrepio percorreu minha nuca, quando vi os galhos agora verdes serpenteavam em redor de todo o pequeno jardim, e se enrolavam nas correntes de espinhos que prendiam a mulher. Abriu-se ao meio, bem no topo de sua copa de folhar retorcidas, e dentro dela havia um fedor mórbido e três línguas saltaram para fora e dançavam ao redor da garota, agora as duas faces de olhos diferentes tinham a mesma expressão de terror, e nada atenuou isso, até que os galhos que segurava ela como garras foram se afastando um do outro, e uma luz forte demais para ser encarada começou a sair do meio da garota. Um clarão veio quando os galhos separaram as duas partes da mascara, e depois jogaram os dramáticos restos da agora calada criatura na boca da arvore. As línguas serpentearam o ar e depois agarraram a mascara da garota, e levaram para dentro da maldita arvore, ou o que quer que tenha sido. Não sei o que aconteceu com a mulher, mas ela não estava mais lá, só uma mancha monstruosa de sangue onde ela havia estado. Os galhos pararam de serpentear e a arvore estacou, ainda com a camada verde de tentáculos viscosos, mas agora sem se mover. O silencio e a escuridão foi aumentando, e a única luz vinha da minha fraca lanterna. Na grama, ouvi passos na minha frente, apontei a lanterna, mas não havia nada, tudo havia sumido, ou estava muito escuro. Assim que me virei e tentei sentir novamente aonde eram para haver paredes, senti algo batendo forte na minha cabeça, cai bem próximo a arvore, podia ouvir um barulho fraco de choro infantil, a lanterna estava ao alcance de esticar o braço, mas agora na grama ouvi passos pesados, em uma corrida furiosa, e era algo que vinha em minha direção, um grito fantasmagórico e algum tipo de imprecação em uma língua morta celta, e dois braços fortes me agarraram pelas costas, foi quando eu senti outros dois braços alisando meus cabelos e uma respiração ofegante, o suor ou o sangue deviam estar ensopando minha camisa, eu tremia e perdi toda a noção da realidade, e ela continuou a alisar meus cabelos, cada vez mais forte, e a me apertar, cada vez mais forte, e os barulhos de dentro da arvore aumentaram, e a arvore voltou a se abrir.

A mulher me virou para me encarar, talvez ela pense que eu sou a sua garota, ela tinha a minha altura ao menos, mas quando olhei, as orbitas de seus olhos estavam vazias, e suas mãos estavam cobertas de sangue, e não havia mais pernas, só um corpo de espinhos, lembrava algo como uma aranha, mas com um perfume forte de rosas, aquelas que você põe em cima do mármore frio para dizer adeus.

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Asas, Veneno e Sangue [Segunda parte]

O copo ficou cheio metade da tarde, Otto serviu-se de um bom rum mas não conseguiu tomar nem um gole, não pelo fato de ele não querer, vontade vem mesmo depois de tanto tempo, mas olhar as inscrições na chave lhe despertou uma curiosidade como um carrasco que acende uma pira para queimar alguém em Salem. – Dois pensam, cheios e vazios, e aqui, aqui é areia, tem de ser areia…

Alguém bateu na porta três vezes, batidas suaves e ritmadas, perfeitas.- Muito cedo. Grunhiu Otto, arrumando a gravata e virando o copo de rum.

Boa tarde senhor, poderia me dizer se Anne está? Era um homem alto de feições leves, novo, devia ter uns vinte e cinco anos. Usava um terno preto com colete lilás, mais alinhado que Otto, mas ele não admitiria, nem que precisasse viver novamente para isso. O seu consolo era o olho tonto do jovem, mas que deve ter sido visto só na imaginação do meio vivo, pois o jovem parecia perfeitamente normal para a idade, dois braços, duas pernas, todos bem encaixados.

–        Ela saiu, for jantar com um amigo, deve demorar mais umas oito horas para voltar, você deve entender melhor essa juventude não?

–        Para ser sincero senhor?

–        Otto, Otto Dielfov.

–        Eslavo?

–        Canadense com amor, e você?

–        A, desculpe-me a falta de educação, sou Perseus D’Alene

–        Grego?

–        Como o senhor sabe?

–        Gosto de mitologia, e não acredito que um cara possa matar uma mulher com um espelho.

–        Bem, não me importaria em esperar ela, é um assunto urgente sobre Ellene.

A menção do nome fez Otto estremecer, ele conhecia o jovem, e sabia o motivo da visita, só estava torcendo até agora para ele ter outros motivos. Até a chave escondida dentro da garrafa seria um motivo melhor que Ellene, não ela.

–        O que tem Ellene garoto? Disse o homem agora, as faíscas de ódio crepitando das órbitas de seus olhos, o punho cerrado, mas cuidadosamente fora da vista do mensageiro.

–        Só vim para dizer que ela pagou a dívida, a chave é sua Bravo, e a garota também, mas não estranhe se ela não reconhecer Anne, o preço foi bem alto.

–        Como assim alto? Ela já nem tem mais centelhas de vida, a séculos, o que ela prometeu?.

–        Isso é entre ela e o Sr. Penny, nunca me falaram nada, e não me pagam pelas perguntas, mas pelas respostas.

–        E quais as suas respostas para mim mensageiro?

O jovem se aproximou em passos lentos de Otto, e tocou seu ombro levemente, a mão apertou um pouco, e ele abaixou a cabeça olhando para os sapatos brilhantes e bem lustrados do meio morto.

Dois pingos acertaram o chão e formaram dois círculos rubros, os olhos do garoto estavam vermelhos e lagrimas ensanguentadas desciam pela sua face, era como ver uma estatua de bronze chorando. De novo Otto teve a sensação do olho tonto, algo estava mal encaixado.

– A chave vai para Anne, Ellene também, e você vai para o Deus do Deserto.

–        O feiticeiro louco? Prefiro voltar a viver e pagar as contas do que passar um dia ao lado daquele palhaço.

–        As cobras não morrem, mas se morderem a língua perecem, e as peçonhas vão ajudar quando o folego faltar.

–        Adoro adivinhas, mas essas me parecem muito venenosas…

O jovem tirou um lenço vermelho do bolso e secou as lagrimas e o chão.

–        Desculpe a bagunça, mas você me conhece.

–        Sem problema, só desejaria que em vez de sangue fosse vinho tinto.

Ele fez uma breve reverencia e saiu pela porta, depois ela se fechou sozinha e ele ouviu um estalo e areia arrastada contra pavimento.

-Olha, não vá atrás dele, é perda de tempo. Falou Otto para o sofá, e aos poucos a forma feminina e inocente de Anne foi preenchendo o vazio agora ocupado.

–        Eu não iria, você não sabe o quanto eu estou exausta. Ela usava um par de tênis coloridos, shorts e um pijama com luas e nuvenzinhas o estampando.

–        Você parece uma dessas gurias de catálogos de…ah, esquece ,o que você pretende fazer agora? Ellene esta de volta, mas como você ouviu, talvez mudada.

–        Não me interessa isso agora, ela sabe o que faz, e sabe onde me encontrar também.

–        Mas Anne…, ela ficou tanto tempo longe…

–        O que você sabe? Só esta aí para assegurar que eu faça exatamente o que o Sr. Penny quer, mas e agora? Por que você ainda esta aqui?

–        Eu não vou voltar, não preciso. Essa era minha missão, e vai continuar sendo, estar com você, mas não como um cão de guarda agora… Ellene…

–        Como você pode dizer isso? Você não a conhece, não sente o que eu sinto por ela. Desculpe-me Otto, mas não, você não vai ficar do meu lado, você não vai me ajudar, eu só estou aqui para confirmar que você não vai mais me seguir, porque eu vou saber

–        Ela se virou e olhou para a janela, o dia estava morrendo e parecia que ia chover, Otto andou calmamente até o bar, pegou uma taça de vinho e encheu-a com algo entre dois ou até três séculos de idade.

–        Amargo, gosto de como você se expressa Otto, amargo mas ainda assim bom.

–        Escute-me, e saia pela janela, não vai ser fácil você sair pela frente do prédio agora, não é o Penny ao menos, mas logo terei visitas.

–        Eu sei quem é, demônios escamosos, iguais ao idiota que me atacou. Você deveria sair também.

–        Não se preocupe você precisa só levar a chave e as anotações, eu te encontro em um lugar mais frio, agora vá.

Os passos do lado de fora da porta eram pesados e lentos, talvez cinco ou seis, se der sorte é só um com vários sapatos, não será problema, só preciso pensar aonde vou dissecar a coisa, são muitos e vão notar a confusão.

Anne pulou pela janela com a mochila que continha a chave e as notas, logo em seguida alguns barulhos bem distintos, uma moto acelerando e descendo a rua, um sibilar incessante atras da porta de entrada do apartamento, e algo metalico estilhaçando a porta em lascas de madeira e escamas.

Sangue e Óleo

O motor trovejava pela estrada, o frio cortava as partes minuciosamente nuas, dando uma leve dormência ao Sozinho.

Mais de oito milhas, pouco sono, nada para comer, arriscou certa vez beber um pouco do líquido do tanque, foi ai que parou de dormir e de sentir frio, conveniente no mínimo.

Caminhões e carros pareciam parados, de vez em quando via um par de olhos assustados, quem não ficaria.

Uma possante entidade do asfalto, deslizando e rindo do frio, sem camisa, com o barulho das correntes da porta do inferno vindas da própria alma motorizada.

Parou.

Deslizou bons trezentos metros no gelo, a força com que veio revolveu o que era antes um caminho oculto pela espessa camada de neve, deixou a entidade ali mesmo, a neve derretendo ainda perto do vulcânico escapamento, e uma fumaça subia de seus ombros.

Andou.

Logo a frente achou o que procurava. Um frondoso pinheiro, sem um ponto branco de neve, emanando calor.
Abaixo dos nós e das raízes, cavou com as mãos até achar uma abertura retangular, um orifício foi preenchido por uma esfera encortinada em aço, que se desdobrou e revelou um olho inquisidor, que fitou diretamente o peito do Sozinho, abriu-se a passagem.

Entrou.

Escadas espirais e pesados passos, conforme os ecos se perdiam, as luzes se acendiam. E de um passadiço escuro e estreito, se viu num amplo galpão branco, o teto devia ter uns seis metros de altura, mas os cubículos e estufas deviam ter pouco, menos que a metade dessa altura.

Alguns espectros de branco pararam seus rituais científicos, e um se aproximou, e falou algo como:

-“S-1!?Pensamos que você não voltaria, mas que decisão ótima a sua de nos procurar, andamos falando muito de você seu danado!”.

O silêncio e o maxilar imóvel concluíram sua resposta.

-“Bem, não sei por que você saiu, aliás, como você saiu sem levar sua alma de matéria, para outros, isso é inconcebível, mas acho que você tem bons motivos para ser único, mas que bom que voltou!”

Era um pouco menor que o teto do cubículo, mas aquele não era o maior cubículo, por sorte talvez.

Procurou.

Mesmo sabendo onde estava, a novidade nunca ao todo o abandonava, algo mudou, não pouco ficou.

Novas unidades de energia, mais espectros leais, e a alvura da seita científica intacta, o estandarte era somente um par de letras, “D&P”, o que gera varias opções, se não se soubesse o real sentido, que era constantemente alterado para se encaixar nos intuitos de um, de muitos, e de poucos.

Achou.

O cubículo mais ao fundo, numa quina do retângulo, outra vez uma esfera acortinada, só que esta também tinha boca, ou voz ao menos, o timbre metálico logo ressoou:

-“Veio se buscar?Não é difícil para um autômato ser sarcástico, com o programa de retenção de lógica certo, sabe?É só saber o suficiente para se esquivar dos inconvenientes verbais.”

-“Entre logo”.A porta levantou bruscamente, e viu que a cadeira ainda estava lá, que algo se agitava e estalava, quase que sentiu um sussurro:

-“Bem vindo a você, vamos ser nós de novo?”.

Quem era um cientifico sabia exatamente como montar ou desmontar, e quem era lógico, sabia por sua vez falar, ou desconversar.

Era algo que já estava ali a uns cem anos, o que é praticamente um milênio se tratando de tecnologia, ainda mais orgânica.

Tudo se sabia, as surpresas eram planejadas, nada saiu do rumo, até que algo que estava sobre controle sair do controle.

Mas ninguém notou.

Não era prepotência, era simples costume de infalibilidade. Fácil se deixar levar, pois o comportamento se aliena dez vezes mais rápido que a tecnologia e as coisas que podem dar errado juntas.

Sozinho.

Ele esmagou a parte superior da malha que estava na cadeira, um produto normal teria tombado após tal falha.

Riu.

A malha era você, era aquela coisa que observa e faz peso em suas costas, e isso era notório, pois ela se encaixava perfeitamente na espinha dorsal, nas costelas, e ia subindo pelo cerebelo, até cobrir o crânio e a testa.

O julgamento dependia muito da consciência, e Sozinho viu que só ele, assim mesmo como se chama, fazia um bom juízo das coisas.

Seu problema era que, para melhorar seu julgamento, e ser perfeito, ele precisava da parte que lhe tornou diferente, e para isso, julgou e aplicou uma pena pela primeira vez, a pouco custo, já que não estava com o juízo perfeito, e se matou.

Saiba que não se trata de suicídio, pois ainda se manteve perfeitamente em pé após o feito.

Mas de sua dualidade humana, da qual era impregnado todo o elmo da malha.

Foi difícil convencer o que restou da consciência de que isso era para um bem maior, o seu.

Pior ainda foi colocar a malha, que rasgou e furou braços e peito antes de desistir e se render.

Foi algo digno de pai e filho, Sozinho segurando a malha pelas hastes das costelas, transmitindo toda a sua necessidade de juízo e consciência, e a malha, achando estranho que outra essência movesse a criatura alem dela.

Por fim, em um meio que abraço ensangüentado e oleoso a malha mudou de uma luminosidade vermelha, para um azul tranqüilo, e foi se arrastando até as costas do ser sem juízo perfeito, mas com vontade de justiça

Completou.

Agora a malha já não tinha mais vontade, foi traída, mas por boa causa, enquanto sentava na cadeira que parafusava e injetava a mesma no Sozinho, perdeu os sentidos e apagou.

Ele agora sabia tudo, dominava cada memória dos circuitos da antiga malha, sabia nomes, datas e principalmente, a melhor oficina de polimento e engrenagens do estado.

Tudo isso, pela memória, pela cura, e pelo óleo, agora sabia quem era, Sozinho, mais do que antes.

Saiu.

Um longo espectro branco saiu de um cubículo, e se moveu metódica e lentamente para o passadiço e para a espiral.

O vicio na certeza e na normalidade era tanto que passou, como uma brisa que não se vê, subiu e chegou ao orifício.

O olho acortinado em aço se abriu, e mirou novamente o peito do espectro.

Um momento de silêncio, assustado, arregalou e recuou lentamente o olho metálico, e quando ia piscar, sentiu o peso do martelo do agora cônscio em justiça.

O estrondo foi grande, e o retângulo de aço foi jogado a distancia razoável do pinheiro.

Montou.

A neve agora derretera toda ao redor da entidade do asfalto, por medo ou por respeito. Ela roncou como um trovão e causticou a atmosfera invernal.

Da neve para a pista, era tão rápida que só poderia derrapar quando bem entendesse, e seguiu junto ao Justo, agora o perfeito destino.

Ia demorar até os cultistas do “D&P” notarem o homicídio, e o roboticídio, se bem que para o ultimo a justiça ainda não prevê penas que possam ser adequadas, já que é um crime muito comum.

Agora o caminho estava claro, e o destino me mostrou a melhor oficina de polimento do estado, não tarda, e poderei satisfazer o holocausto que eu devo a entidade do asfalto, a Oficina me espera, e eu a espero.

Uma hora entre o Sete e o Oito [Sétima parte]

Acelerei o carro enfrentando sem cuidado algum as curvas e a chuva torrencial, na beira da estrada vultos dançavam e apontavam para o horizonte, milhares de sombras, algumas brancas e outras lilases, todas apontavam para o norte, e as ondas rugiam ao meu lado. Tive algumas vezes a impressão de que o mar iria se levantar e engolir o mundo, mas não tirava os olhos da estrada, eram quase seis horas e eu ainda não estava lá. Fiz uma curva fechada para a rua do farol e vi outra vez o vulto branco de antes, agora consegui distinguir o seu rosto. Devia ter uns dezoito anos, vinte no máximo. Sorria debilmente para mim e apontava para o horizonte, dessa vez não resisti e olhei, e tudo foi muito rápido. As nuvens carregadas de raios esfaqueavam o mar, e cada vez mais uma cortina verde serpenteante se aproximava da costa, não dava de ver certamente o que era, mas dava de saber que era maior do que eu poderia esperar. Voltando os olhos para a estrada o imprevisto, a sombra da garota havia pulado no para-brisa, os olhos saltados e amarelos com a pupila como um rasgo vertical, a boca cheia de presas pingando algo verde e fétido. No pescoço estrias estranhas que pareciam sulcos na pele. Um golpe, dois golpes e o vidro estilhaçou-se, ela segurou meu pulso com uma força desumana e girou o volante, fazendo o carro virar demais e o mundo inteiro ficar de cabeça para baixo. Mesmo de ponta cabeça a chuva que dera pequena trégua parecia estranha, notei agora que os ventos que aumentavam formavam um caminho entre a rua e o farol, alguns arranhões e consegui sair do carro virado. O relógio havia parado faltando dois minutos para as seis, mas ainda devia ter algo de sorte para mim nisso tudo, o utilitário caiu em cima da criatura, esmagando-a nos restos do vidro, e não demorou assim que a chuva voltou com força e lavou o vestido branco de sua carne azul e asquerosa. – Não posso demorar, se todas as sombras e vultos resolverem ficar com apetite de herói vou me dar mal. Corri para o farol como se o próprio demônio estivesse atrás de mim, o que era algo que eu começava a suspeitar. Alcançado a rua e me aproximando do farol, a noite caiu como uma mortalha negra e molhada, as luzes se apagaram e só os círculos de luz do estacado farol eram visíveis, meu coração acelerou com o rugido do mar em meu encalço, isso e mais algo, havia outras coisas ali, me observando, contando meus passos e as batidas do meu desesperado coração. Corri, corri para as escadas, corri para a luz, nada me parou, nem as sombras com cheiro fétido ou os barulhos de algo que parecia afiado sendo arrastado nos pavimentos da calçada. Os degraus do farol me fizeram tropeçar duas vezes, mas a segurança da porta de ferro que alcancei me deu novo fôlego. Fechei a porta atrás de mim, mas não havia chave ou ferrolhos, afinal não estava no século doze e não havia uma espada ou uma armadura, só um celular com a bateria pela metade e sem sinal e uma pequena faca que comprei por medo da violência na juventude. Empunhando a curta lâmina no escuro, olhei para cima e via a dança de semicírculos que a coroa do farol fazia iluminando o que restou do mundo, engrenei a subir devagar as escadas para o topo da estrutura, as ondas arrebentando nas paredes, como aríetes oceânicos e incansáveis. O relógio deu um ultimo estalo de e me apontou que eram cinco e cinquenta e nove.

Noite Vago

A lama subiu pelos calcanhares e respingava até as costas, corri pela estrada malfeita e escura da noite como vagante sem destino.

Logo o crepitar do vento nas folhas secas rangia os galhos que arranhavam como garras, querendo me impelir de volta mas não podiam, estar parado ou olhar para trás dói demais, não sei aonde vou, mas só preciso em afastar. Os trapos molhados e sujos me escondem dos uivos e dos olhares das aves noturnas. Ninguém pode me ver assim, sem correntes que marcam os pulsos e o pescoço, e fitas e laços enfeitados para tentar esconder a dor dos ferrolhos.

Abro os olhos para o céu e vejo cortes alvos no alçapão escuro entre as nuvens, logo o tempo irá clarear e eu ainda não encontrei nenhum lugar. Fico em pé e me arrasto com esforço não sei de onde. Os rastros apagados pela chuva e pelos lamentos sobejavam, esbarrei em teias finas e roseiras espinhosas, escorre meu veneno.

Agora uso ataduras nas mãos já queimadas e agora cortadas e perfuradas, dor sobre dor perdi todo o meu calor, a chuva escorre pela testa junto com os pensamentos e com a luz, o sol não chega mais desse lado do mundo e mesmo assim pouco me seduz.

Prefiro as sombras e o bronze tilintando dos tornozelos até o pescoço, por mais pesadas que sejam as mágoas ainda faço um esforço, ultimo é todo dia que me faz falta alguma alegria, não paro agora, mas não vejo mais fim nessa demora.

Um outeiro para uns, para o desagrado uma montanha belicosa, as correntes agora sujas de lama se prendem nas pontas traiçoeiras e prodigiosas, que como mãos me puxam para baixo e tentam me jogar para trás, nunca mais, nunca mais.

Escalo com os trapos pendurados na fronte e nas mãos, a chuva lava a altivez que um dia tive na dura tez, mas nem largo caminho ou alto monte pode desfazer a nobreza do caminhante, as correntes se partem no martelo do ferreiro que é o tempo, e a cor volta aos olhos do que se arrastava por todo o caminho.

Levanto-me no alto e desafio o futuro, tiro os trapos e fico nu em armadura e espada, faíscam no horizonte as conquistas, reteso o corpo ferido e me preparo para saltar, agora só me resta saber até onde minhas asas de vontade enferrujadas podem me levar.