Panos de brincar

Um ou outro brincam ou troçam dos personagens que fazem na vida, mas dois ou três dão a vez para ver quem esta por cima, mando e desmando, monto e desmonto, as vestes curtas e elegantes se desdobram em cores estranhas, o vermelho não combina com o purpura, tão pouco o azul e o verde, mas o amarelo e o  preto me fazem zunir e zombar. Antes eram engraçados os versos e fados, contando sentado de casos desastrados, hoje sem pressa me força a destra a tocar a ponta mais baixa da foice da lua. Se espetar os dedos sairá nanquim, e com traços fazendo piruetas desenharei mil fitas no céu para a brincadeira sem fim.

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Feita de cera

A cera pingava dos lábios escuros e retorcidos dela, que triste foi, quando soube que ela tinha se afogado dentro de sua casa. Mesmo assim os acidentes que acontecem de perto são os mais fatais, como um papel que corta ou um pé que tropeça na escada, ela não sabia de mais nada, mas ficaria linda assim, com as vestes curtas de cetim, uma musa sem poeta, assim ninguém se afeta. Tanto faz agora, não tenho pressa me apetece a demora, cortar e costurar os olhos que não esperam mais, longe de ser o que um sonho um dia se faz. Ela não caiu de uma proa com os braços abertos atoa, só afundou para sempre nas linhas que suturou, agora espero um par de moedas estranhas ou riscadas para não fazer a doce que fosse vagar em um rio sem fio refletindo o vazio, aonde foi à cor dos dourados cabelos que moldavam a face justa e tranquila daquela que parece moldada em argila, hábeis mãos não teriam tal precisão, mas assim se fez o fim dos riscos raivosos em sua tez, a cera fechando na melhor das artes a sua melhor parte, agora para sempre de mãos atadas, sentada e estaca no topo de uma escada, esperando algum calor mostrar o que foi a face da dor, mas o frio vai proteger aquela a qual o olhar sumiu, e se acordar e um dia enxergar, triste é aquele que um dia o lacre de cera quebrar.

As costas dos vidros polidos

Estava correndo na esteira, tentando botar as ideias no lugar, o cheiro da grama ainda me vinha forte a memória, quando eu a senti novamente aos meus pés, macia e molhada, e o barulho de guizos seguiu os passos encharcados. Rítmicos e incômodos, a cada passo da corrida dois suaves clings seguiam cada metro que avançava. E a floresta estava clareando, achei uma trilha por entre um par de arvores torcidas que saiam quase do mesmo tronco, e se distanciavam uma da outra. Peguei a garrafa d’água e a toalha, enxuguei o suor da testa e diminui em dois a velocidade da esteira. Na televisão um programa desses que falam besteiras passava uma matéria de como os famosos evitavam ser vistos por fotógrafos indesejados. Andando agora na trilha escura, um calafrio já conhecido percorreu minha espinha, e senti como se mil olhos me observassem, e lá estavam alguns deles, pontos vermelhos e amarelos no meio das arvores, azuis e verdes, uns mais separados dos outros, as vezes mais altos que o anterior. Comecei a correr para o fim da trilha, onde a luz voltava e até aumentava, o aroma de folhas secas já estava enjoativo quando algo agarrou forte meu ombro e me puxou, não vi nada, apensa senti os guizos se enroscarem e os clings pararem, começava a escurecer novamente. Voltei a corrida aumentando em dois pontos a velocidade da esteira, o ator careca e com um sorriso canastrão disse que nem sempre é bom ser visto, não que ele fazia coisas que não deveriam ser vistas, mas que não tinham nada de interessante para o publico faminto que os fotógrafos alimentavam. Corri como algum tipo de fera correria atrás de um almoço depois de três dias sem comer, quatro talvez, e as arvores do lado esquerdo deram espaço a um lago de águas negras e pesadas. Não falo como se eu soubesse o quanto de água cabia ali, mas o clima era horrível, era como saber que você faltou uma aula importante porque dormiu demais. Meu lindo vestido foi rasgado repentinamente logo acima da cintura, e pedaços de tecido rubro agora esvoaçavam como os restos de alguma capa heroica, mas a minha corrida foi ficando mais pesada, o barulho incessante dos clings, e os passos rápidos e grosseiros que começaram a me seguir transformou um doce pensamento em uma alucinada tentativa de diminuir a velocidade da esteira e terminar de tomar minha garrafa d’água. Não havia percebido que sempre que olhava para trás, não havia nada, só o som dos passos, foi quando virei rápido mais uma vez a cabeça para ver meu perseguidor, e parei por uns segundos o olhar na margem do lago. Vários olhos de cores e tamanhos diferentes, separados por tecidos costurados em carne, alguns olhos tinham agulhas espetadas, mas ainda estavam abertos, lacrimejando sangue e alguma outra coisa asquerosa, o cheiro doce do bosque foi coberto pela repugnância de algo morto ou bem perto disso. Podia sentir a baforada pestilenta na minha nuca, foi quando na televisão, o ator careca no fim da entrevista, disse que as vezes ele só precisava andar de cabeça baixa, sem fazer muito barulho, que ninguém o percebia, e ele fazia isso as vezes nas noitadas, e no dia seguinte ninguém teria fotos de onde ele estava se divertindo com a sua mais nova namorada. Celine diminuiu a velocidade da esteira para o nível mais lento, algumas senhoras corriam mais rápido que elas no momento. E ela diminuiu o passo até não ouvir mais nenhum maldito cling, e os olhares morreram, e ela sentiu a coisa farejando forte atrás dela, na beira do lago, nas arvores, em seus calcanhares, mas nunca vendo ela, mesmo com mil olhos, a calma e a leveza de seus passos a levaram até o fim da trilha, mais iluminada por uma luz que vinha de lugar nenhum, mas ficava acima dela, isso era uma certeza. E houve um forte barulho de algo pesado, como se algo que farejava o bosque inteiro tivesse pulado no meio do lago de desespero ou vergonha, e ela desligou a esteira, pegou sua toalha e sua garrafa vazia e foi até o seu armário. E não foi para sua surpresa, que em cima de sua bolsa colorida e grande, ela viu um par de guizos amarrados por um fino fio de prata, que brilhava com as cores de vários olhos.

O reflexo dos seus olhos

A cama era extremamente confortável, dai pra frente eu já sabia que era um sonho, não existem camas confortáveis, com conjuntos de seda purpura que deslizam acariciando sua pele. O cetim verde deslizou pelos meus ombros, e vi que estava com uma roupa de cama estranha, pomposa. Não era dia, as janelas estavam abertas, e a noite era densa e nebulosa, e as velas acesas no quarto me assustaram revelando um homem que estava lendo em uma mesinha perto do pé da cama. Ele sorriu para mim e marcou a pagina que estava lendo com uma fita azul. “Você esta bem? Tome isso.” Ele estendeu a mão para uma jarra na frente dele, encheu um copo com agua e trouxe até mim. “Beba, você vai se sentir melhor.” Ele era algo a se notar, um colete sobre uma blusa bem alinhada, passos firmes e um sorriso cuidadoso, os cabelos lhe caíram sobre os lados dos olhos me estendendo o copo. “Onde estou?” “Na sua cama, exausta de uma noite agitada Senhorita, agora beba e se arrume, seus convidados estão esperando lá em baixo.” Não sei por que concordei com um aceno de cabeça, e vi o homem sair pela pesada porta de madeira, e deixar o livro. Ele parou, e me perguntou se eu precisaria de ajuda para me trocar. Outro aceno confuso o fez fechar a porta e seus passos morrerem alguns segundos depois. Puxei os cobertores e fechei os olhos, esperei eu sentir minha respiração, mas estava nervosa demais, é um sonho, e eu vou acordar, e vou estar com a cara suja de molho mexicano e apoiada entre a privada e o box. Nada, um nojo pelo conforto me fez saltar da cama, e olhar sua estranheza ela era, em vez de madeira, mármore negro fazia esculturas estranhas de animais e pessoas nas colunas da cama. Comecei a sentir um frescor de grama molhada, as janelas estavam abertas, e o vento noturno me abraçou como se fossem garras arranhando minha pele, fechei a janela e não conseguia ver muito além de arvores e talvez um morro próximo, a nevoa era bem espessa. A única coisa sensata que me veio em mente foi procurar algum vestido, que com certeza seria estranho e me lembraria de algo saído das novelas de Jane Austen. Não foi muito diferente do que pensei babados e varias camadas de tecido sobre mais babados. Não sei quanto tempo demorei me trocando, mas quando me senti pronta, fui com passos firmes até a porta, e puxei os pesados ferrolhos irregulares, e vi meu reflexo pomposo ser multiplicado varias vezes, era o elevador do meu prédio. Ele estava no andar, e que mal tinha entrar no sonho? Ou talvez alguma amiga minha ganhou na loteria e esta pregando a maior peça do mundo em mim. Que seja, mas não era, assim que entre no elevador, o quarto se estilhaçou em mil pedaços, portas e janelas irregulares batendo em arvores e em cetim purpura, e só sobrou uma escuridão silenciosa e repentina, me aproximei do fundo do elevador, e me encostei-me ao espelho, as portas fecharam pesadamente com um som de madeira podre rangendo a passos pesados, e o elevador começou a subir muito rápido, me vi encostada em um canto no chão olhando para o reflexo em cima de mim, parecia tão assustada e indefesa, que nem notei o estranho liquido que se aproximava de mim, um fino fio de água turva, como uma cobra serpenteando devagar, olhei para frente e não vi anda, olhei novamente para o reflexo no teto e vi que a coisa já estava se enroscando no meu tornozelo, senti uma pontada forte e uma dormência. A coisa foi se enrolando até chegar ao meu pescoço, e um frio foi me dominando, as luzes piscavam, rítmicas, até o elevador parar e fazer o som que havia chego ao andar chamado, A porta abriu e uma senhora com um carrinho desses de feira sorriu pra mim e disse gentilmente. “Bom dia Celine”. Eu estava de pé, estática, a senhora passou por mim e continuou falando. “Indo para a academia tão cedo? Cada dia que vou à feira parece que cuidam menos se eu vou sobreviver ao atravessar a rua, eu lhe digo hoje em dia ninguém te espera”. Ela entrou no elevador e apertou o botão para subir, olhando para o reflexo atrás dela, vi que estava com a roupa da academia, e com minha garrafa d’água, até os fones de ouvido e minhas musicas tocavam baixinho penduradas na gola do top. O dia estava frio, mas a corrida até a academia iria me esquentar, e possivelmente me livrar do pensamento de que a momentos atrás eu estava sendo estrangulada pelo reflexo do teto do elevador.

Caminhando como um Garoto

O claro do dia fez os olhos do garoto marejarem, era um frio estranho de maio, a gola da jaqueta atrapalhava a respiração, e uma das luvas que usava tinha uma costura que fazia os dedos coçarem. Não parecia confortável ficar deitado em uma mesa de madeira, mas era o que ele tinha a mesa, a mochila surrada e pequena, e algumas folhas em branco com nomes e números. O que fazia a noite diferente era o dia de amanhã, esperar que alguma luz saísse de trás das estrelas e tocasse o chão com os pés míticos, que fosse Hermes ou Goibnu, que um mar cobrisse a terra e que um fim esperasse um herói, como ele. Claro, heróis são feitos de matéria fraca não? Verdade seja dita, passou o fim da noite, com sonhos estranhos entre um calafrio e outro, e o dia morreu com as luzes e algumas pessoas. A mochila não pesava, mas dava segurança de ninguém olhar para as minhas costas, medo de olharem para trás e perguntarem quem é ele, ou aonde vai. Desceu da mesa, arrumou a sala e correu para sair e ver o brilho fraco do monitor apagar seus problemas. Correu por um lance de escadas e subiu uma rampa. Faltava pouco, tirou o cadeado da bicicleta e encarou alguém vindo começar a monotonia com um rosto torcido. A noite ainda respirava um pouco, e a jaqueta roçava o queixo de uma maneira desconfortável, até eu terminar de pedalar os trechos de ruelas e curvas que me levaram para casa. A noite agora começou para mim, carregada dos pensamentos de ontem, palavras duras e memórias traiçoeiras, que usam sua fraqueza sem dó, e que se apegam a você, e o deixam destemido no conforto. Parei para abrir o portão e a porta, deixei a mochila do lado da porta e subi as escadas para meu quarto, santuário estranho, que não me deixa descansar, que corrói meus pensamentos, o que eu vi antes de chegar não me vem mais a memória, um carro com algum conhecido passando o sinal vermelho, os buracos que me fizeram perder um pouco o equilíbrio, ou o céu refletindo nos vidros azuis escuros dos escritórios antes de casa. Acabou mais uma vez, espero passar o sono ou a vontade de dormir, espero tudo para chegar a nada, espero o garoto crescer e querer ter a vontade de ser homem, forte e decidido, assim como os heróis das estrelas.