Dor de cores

Não se sabe o nome dos ventos que batem no rosto e levam os momentos do outono para outro sem dono, o que valeu não foi uma flor cheia de espinhos, mas sim o caminho que a daninha tapava, muda muda de favores o que não sabe mais até onde chegam as dores, quem mais leva para longe os passos e os ecos do átrio das memórias, lustroso chão polido com pensar e recordar, fez de alguém um mais além, vinde a mim todos os que estão soltos e estranhos, e seremos juntos um como vários, não outros, nem fora das mentes, mas os que falam e os que criam o coração, não é vida batendo mas batalha sem noção, entre ferro, fogo e sangue é aonde se faz valer a minha tentação, encarnada no lábio dos símplices que em poucos invernos tornam o marejar um inferno, mas uma fenda entre eles separa para o seu bom fim a minha ira em sufocamento carmesim, as cores das dores devem começar assim.

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À noite em que o gato sorriu

Uma balança mede dois pesos, sem duas medidas, tem alecrim, galhos secos de algumas folhagens do jardim, e mais algumas coisas que uma amadora faria para tentar chamar alguém para brincar. Nada de mais, algo pequeno e com pelos, provavelmente domestico, e com olhos bonitos, claro. O olhar fala mais para ela, muito mais, ela sabia como os olhos dos outros sorriam, e ela ficava horas fitando o espelho do banheiro, e às vezes os joelhos doíam de ficar em cima do banco de madeira para alcançar sua gêmea do outro lado do mundo. E ela ferveu tudo, e juntou com a vontade e com o desejo de algo simples, mas único, e despejou o conteúdo do pequeno caldeirão em um circulo de pedras coloridas no fundo do bosque, era perto de sua casa, e tinha o barulho de gorjear e de ronronar, mas eram só curiosos, nem de perto pareciam o que a poça de sementes e ramos atrairia. E passou a quarta, a quinta, e finalmente a sexta, e depois da meia noite, ela foi ate o circulo e viu uma pequena folha, dobrada em sementes rechonchudas e brilhosas, o cheiro era inebriante, dava sono e sonhos bons, e ela esperou outra semana, e as primeiras flores roxas saíram dos galhos em forma de setas.

Ai o veio, com vagar, serpenteando entre os galhos e as folhas, e achando a sua vitima, um par de canelas finas, com meias brancas de algodão, e atacou com toda a voracidade que conseguia, se esfregando e ronronando até derrubar a menina aos seus pés, e ter ela sobre seu total controle, era fácil ser assim, dono do mundo, leve como uma lufada, e esperto como um, bem, como eu. E todo dia olhava a plantinha roxa, que a menina cuidava, e todo dia ele se enrolava entre as pernas dela, e ronronava, e se espichava atrás do vestido azul, até o dia em que ela veio com uma tigela. Era vermelha e funda, e estava cheia de leite, ela havia me alimentado, e agora eu estava em débito, a infeliz não sabe da maldição. O carinho começou na planta, mordiscava todo dia um pouco, e ficava com o hálito dos sonhos, e fui falando perto do rosto dela a cada dia, e ela dormia rindo, com a janela aberta esperando me encontrar cuidando do sono dela, e esse era meu dever. A planta cresceu, e ficou do tamanho dela, estranhamente ela tinha o formato de um trono, mais estranho ainda, havia um buraco em baixo do trono aonde caberia um gato, com grandes olhos profundos e bigodes espetados. Acordei dentro do quarto, e a cama dela estava vazia, não pensei em outro lugar, e corri até o trono purpura o mais rápido que o sono deixava. E lá estava ela, bela, parada, com o pijama de cetim até as canelas, e abraçava o trono, sonolenta, e mordiscava as flores até cair em exaustão, e eu fiquei deitado do lado dela, porque eu era o guardião do seu sono, mas a planta trono ficava me olhando com uma cara feia, e começou a conversar comigo, dizendo que era o ultimo dia deles, o trono ia ter uma rainha, e a rainha ia ter um cavaleiro, e os três seriam eternos. As flores pararam de crescer no outro dia, e a menina não sentava mais na arvore só a olhava de longe, e chegou à noite da tempestade.

O vento forte arranhava as paredes da casa, e levou com garras invernais o trono e as folhas, o medo de perder os sonhos entrou no coração da pobre menina, e a melancolia venceu minha guarda, não adiantou miar até perder a voz, ela não respondia, nem a áspera língua entre os dedos, nem as patas no rosto movendo carinhosamente os bigodes, e ela ficou dias imóvel, com a mão estendida para fora da cama, e a tigela de leite secou, até o dia em que achei novamente a rainha e o trono, e do lado do trono um castelo purpura com um rio branco o circundando, e eu tinha uma armadura de caixinhas e uma espada de garras, e ela um vestido de algodão e doces de varias cores, e o trono cuidava do nosso sono todas as noites.

Dois copos

Até a borda era como uma torre marejada de gotas douradas começou

Ele desamarrou os sapatos e atirou as meias longe, mergulhou e caiu de cabeça no meio do vento.

A segunda era mais densa, as gotas agora eram rubras e escorriam como as lagrimas das viúvas.

Dançando nervosamente, as mãos dela tremiam, mas o agarram na cintura e a segurança dos giros a fizeram delirar como um grande salão de sonhos.

Depois veio algo mais achatado e largo, e era como mel, e o gosto era fel, desceu pela garganta fazendo um escarcéu.

Pulou, e correu, correu e correu até perder o equilíbrio e saltar o mais alto que pode. Agarrou-se nos ramos que sobejavam da murada com a ponta dos dedos, mas falhou, e um deles escorregou, e caiu, caiu, caiu…

O ultimo era como uma frondosa arvore na primavera, o verde brilhava como um par de asas que batiam nas botas, e desceu como um caçador abrindo a barriga de um lobo.

Vazando pelo cheiro, a visão turva e o enjoo não ajudaram em nada, mas tinha que sair dali, já havia acabado com ela, era só sair da espelunca e me aprumar em um motel sujo no fim da rua, nada mais…

O fio

Solto ele correu a linha dos contornos que esculpiram o concordar, leve bater de asas a voar e nebular a distancia dos sonhos ou dos momentos que cabem dentro de uma sacola. Uma pastilha dois laços de cabelos e três anéis, um de plástico, um de borracha e outro de ouro, mas era apenas lata polida, sem vida. Cortou assim que tocou, o dedo se partiu em dois momentos, o alento de saber o leve contento, e a evasão da pura ilusão. Ela sabia dele, e fez mesmo assim, fechou com botões e fitas azuis e verdes, fez um pequeno carnaval dentro do batedor, mas era falho. Não o que ela pensava, bateu, e aconteceu, sobraram os pedaços caídos na calçada, algumas lentes que jorravam um líquido rubro e coruscante, brilhavam como um sol sem céu no meio da noite.