Lovecraft Anthology

H.P Lovecraft é um de meus pilares na escrita, e suas obras fantásticas inspiraram varias outras mídias conhecidas nesse mundo seleto de gostos estranhos, falamos agora de comics. A prosa gráfica de Lovecraft é agora traduzida para as hq’s me uma nova graphic novel intitulada The Lovecraft Anthology ( A Antologia de Lovecraft), publicada pelo impresso londrino SelfMadeHero.  Em nota para a mídia, o escritor diz: “é parte de sua habilidade gerar essa atmosfera, algo que ele pegou de Edgar Allan Poe. Mas ao contrario de Poe, ele dá uma recompensa visual, algum monstro ou criatura estranha, e é claro que comics prosperam disso”.

A obra é uma adaptação desenhada pelo artista de comics D’Israeli e pelo escritor Ian Edginton. D’Israeli descreve o universo de Cthulhu Mythos, a parte do universo de Lovecraft de onde é baseada a obra, como “a ligação do mundo sobrenatural com a teoria de dimensões mais elevadas propostas pela teoria Quântica”.

A “The Lovecraft Anthology Vol 1” já esta disponível em inglês, e o Vol 2 sai em outubro deste ano.

Direto do http://www.newsarama.com/

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Azul refletido na água

Caindo num mar de lascas de reflexos e muros enormes de reflexões, o avermelhado agoniante deu lugar a um azul calmo e gelado, não desconfortável, mas algo que aliviava e me fazia pensar em algum momento melhor, algo que eu não havia vivido ainda, ou talvez nunca fosse viver, um jardim em tons variados da cor do céu. No horizonte o astro brilhava na linha do fim do mundo, maior do que eu poderia imaginar, muito perto, e sua luz e tudo mais se mesclava e era uma coisa só, mas havia algo que chama a atenção ainda mais que o astro descomunal, era uma pequena casa de vidros espelhados, com seu reflexo voltado para dentro varias vezes, as portas altas e esguias com ferrolhos delicados, as janelas fechadas e a cerca na altura da cintura, estava a alguns metros de distancia, mas ainda assim dava de sentir que havia algo dentro dela, algo para mim. Andando pelo jardim, pois não havia outra maneira de chamar um descampado tão grande e padronizado com arvores e canteiros e fontes e estatuas todas de tons variando entre o claro e o escuro, mas nunca tão escuro que chegasse perto do preto, ia chegando perto da casa e vislumbrando toda a beleza secular desse paraíso atrás da porta azul. Mais perto, percebi finalmente algo que não estava na mesma cor de tudo que eu podia ver, tirando meu vestido e meus sapatos, um homem no beiral da varanda da casa espelhada, sentado em uma cadeira com um livro aberto e as pernas bem esticadas. Ele se concentrava na leitura, até eu pisar nas lajotas dentro do cercado da casa, imediatamente ele virou os olhos azuis profundos como as centelhas divinas em minha direção, e acenou me chamando para sentar ao lado dele. Receosa, mas cheia de um sentimento de confiança, sentei do lado do senhor, parecia bem velho, usando óculos com largas hastes e lentes bifocais, sobrancelhas grossas como um par de asas, e um cabelo rapino, com as suíças lhe dando uma aparência única e respeitável. Era esguio, mas robusto para a idade, me cumprimentou com palavras calmas vindas de uma voz forte. “Fique a vontade Celine, enquanto eu puder estar aqui eu lhe responderei suas duvidas”. Duvidas era um gracejo do senhor, obviamente, ser arrastada por espelhos e perseguida por criaturas medonhas eram o de menos, e trazer objetos das ditas alucinações, porque não quero acreditar ainda que isso tudo acontece enquanto eu estou sóbria, eram coisas irrelevantes. Talvez a pergunta seja… “Porque eu? Não há mais ninguém que queira ter fobia de espelhos e escadas? O que eu tenho haver com isso?”. Eu disse em um tom meio choroso até, você ficaria com pena só de ouvir. “Você precisa estar nisso até os ossos, porque o que eu acredito que você chama de conforto depende e muito de suas atitudes, e mesmo sem querer, você é inata nisso, até agora não errou em nada quando julgada pelas trapaças e artimanhas do outro.” O outro… Vamos ver se meu palpite esta certo… “O de boca grande que não queria me ver aqui?” “Ele não sabia que eu iria interferir, pensou que eu só observaria enquanto ele movia seus sentimentos e sua percepção até onde ele quer que eles estejam.” “Eu sou a cobaia de um verme psicótico?”. “Por ai Celine, mais o verme psicótico é algo que você não pode entender, nem se vivesse mil vidas.” “E você pode resumir essa compreensão talvez? Eu tenho uma hora até o almoço.” “Há uma batalha eterna, em uma árvore mística que é a realidade das realidades entre uma ave e um verme que ocorre desde o princípio de tudo, talvez até antes.” “Rápido demais, aceito alguns detalhes.” “O que você sente e o que você viu é o que vai mostrar quem há de vencer, se a lépida cobra ou a honrosa ave, tudo depende de como você se sente e se vê garota.”. “Certo, você quer dizer que, no meio dessa loucura que provavelmente é um sonho, o que significa que devo estar dormindo a umas duas semanas ao menos, eu tenho de me sentir bem para tudo acabar bem?”. “Não é tão simples, venha e veja.” O senhor levantou da cadeira e largou o livro em suas costas com certo descaso, o livro caindo com as paginas abertas tinha a capa coberta com runas estranhas que estavam meio que acesas, mas nada importou depois. Assim que ele deu alguns passos para fora da casa, um vento fortíssimo e gelado passou pelos meus ossos, senti até algumas lembranças voltarem, e tudo piscou rapidamente e se borrou, e depois rachaduras apareceram no canto de tudo que eu via, e por fim depois de limpar o borrado e suturar o rachado tentando não entender, mas sim sentir, me vi em frente a uma arvore com vários espelhos pendurados por cordas, todas amarrando os espelhos com nós de forca, e os espelhos giravam preguiçosamente no sentido da brisa que agora me arrastava até um deles, onde o senhor estava de pé, parado e olhando para algo no fundo dele, fez um gesto curto com a mão para eu me aproximar, e aos poucos tudo era o reflexo. Nove espelhos enforcados por grossas cordas giravam e mostravam coisas diferentes, e em cada um que eu me perdia em olhares eu me via mais jovem, mais velha, formada em uma faculdade que eu nunca fiz, morta por um amigo, matando alguém amado, tudo estava ali, e era real para mim, eu sentia o gosto de sangue e a alegria da contemplação, uma vida cheia e uma vazia, sem importância, logo a brisa se tornou um vento forte demais para eu ficar parada, e o homem me segurou pelo pulso com uma mão forte, e o vento balançou os galhos, até os espelhos baterem uns contra os outros, ou contra o tronco da imensa arvore que os segurava, e se estilhaçaram sonhos e vidas que nunca vivi, e os pedaços dos cacos de vidro polido e refletido eram jogados no ar como cinzas, e assim se espalhavam por todo o lugar como uma nuvem azul coruscante. O vento agora soprava as carcaças vazias das molduras douradas e prateadas, de madeira e de bronze dos espelhos das vontades, das verdades, e do que foi e do que vai e pode ser e aos poucos, parando a ventania, a madeira escura que sobejara dos cacos espelhados começou a verter um líquido purpúreo que caia lentamente, e depois subia em bolhas e fios disformes arredondados, que ao tocar novamente o oval amadeirado formavam um novo espelho, mais escuro do que o que agora pairava em círculos lentamente ao redor da imensa arvore. “Isso irá acontecer ainda mais oito vezes menina, agora que você conseguiu entrar no topo de suas memórias, você tem de descer novamente para ver o outro lado, as nove faces que podem libertar-lhe ou assombrar o resto de seus dias.” “Como assim subir? Você sabe que aquela porta – Disse Celine apontando para um vazio onde ela deveria estar – Estava no ultimo patamar dos lances daquela escada transparente, e, aliás, qual é a daquela escada? Eu poderia ter…” “Morrido? – Disse o homem rapidamente – Seus cortes sararam, sua mão e suas roupas estão intactas… Não, se você morrer o resto também perece você não poderia ter morrido.” Não foi uma resposta muito satisfatória, mas acho que era tudo o que eu conseguiria dele. As cenas nos espelhos mudaram, agora não era somente eu neles, mas várias pessoas, tudo estava acontecendo ali, menos em um dos espelhos, que não girava com o vento, e estava com a corda esticada até a sua base tocar a grama em redor da arvore, ele a queimava com seu toque, e a imagem era o meu reflexo, e eu fiquei algum tempo olhando ele, e ele estava com um tapa-olho no lado direito do rosto, e dele escorria um fino fio vermelho, que quando chegou no meu queixo eu vi subir lentamente como uma bolha, uma dor horrível dominou minha visão, e eu tive que fechar e esfregar os olhos até passar, e o reflexo não estava mais no espelho, cheguei perto para ver se havia alguma outra visão como nos outros, mas nada. Assim que virei de costas para o espelho, só pude ver o rosto horrorizado do senhor apontando para trás de mim, e uma mão me puxou pelo ombro com força na direção do espelho e algo se enrolou na minha cintura, me puxando para dentro e para cima do vidro polido, e tudo que era azul e calmo ficou vermelho e agoniante, e eu subia e subia e subia…

Espiral Translúcida

Em cima da mesa da sala um cubo com areia no fundo, na bolsa dois guizos coloridos juntos por um fio de prata, e depois de alguma pesquisa exaustiva onde derramei café duas vezes em meu pijama e derrubei finalmente a caixa com o lanche que pendia perigosamente na ponta da mesa, ainda estava insatisfeita com meus resultados, talvez tivesse de ir mesmo a biblioteca na universidade conferir melhor o que significa esses sonhos. Não que uma universidade desse a atenção a minhas loucuras, mas talvez em alguma seção de psicologia houvesse livros sobre sonhos ou algo assim, melhor procurar eu mesma do que pagar para alguém me falar algo que eu sei mas não consigo entender. Arrumei um pouco a casa, fiz uma xícara de café, que agora sorvi com calma e olhando alguns desenhos estranhos que passavam pela manha. Terminando de me arrumar, com uma saia simples de pregas, sapatilhas azuis e uma blusa de lã, não sabia mais como me arrumar sem usa o espelho, ou qualquer coisa que refletisse, preciso procurar também o nome da fobia de reflexos e ver se há cura, ou vou ter que pedir para a filha da vizinha começar a opinar sobre como eu estou, o que parecia valido, crianças de 10 anos são bem criativas. Agora evitando o elevador, desci alguns degraus da escada, e percebi que deixei o celular em cima da cama, longe de cafés e de desmaios involuntários, eu estava me alimentando bem, ia à academia, mas eu insistia em desistir da realidade nos piores momentos, na ultima vez fiquei encharcada da chuva. Subi os mesmos degraus que havia descido, e ouvi o barulho de algo quebrando, olhei para o chão, sentindo estar pisando em algo leve, mas não era ali, uma fisgada de dor me subia pelos dedos, e olhei para o corrimão e vi um fio de sangue escorrer para cima, não…não de novo não…

Assim que voltei minha atenção para o corredor onde era meu apartamento tudo estava escuro, só conseguia ver as paredes e pouca coisa do teto, uma fraca luz piscava como em ondas vermelhas e ia descendo pelas escadas. Segurei o corte na mão esquerda e comecei a correr pela escada para baixo, cada passo mais forte fazia o vidro que agora refletia meu horror e minhas sapatilhas, conseguia ver ao menos a uns dois metros pela fraca luminosidade, as paredes pareciam estar pulsando, e havia ranhuras e outras coisas de aparência viscosa. Por medo de quebrar os vidros, e talvez toda a escada, comecei a andar com mais vagar, olhando para baixo conseguia ver o próximo bloco de degraus, o que não me animava nem um pouco. Depois de alguns minutos descendo, a luz antes intermitente e hipnótica de tom avermelhado foi ficando cada vez mais escassa, até que se apagou completamente e sobramos somente eu e os ecos de meus passos no vidro.

Estar sozinha nunca foi meu forte, quando pequena dormia muito com meus pais, e na escola sempre andava com um grande grupo de amigos, claro, tentava ter a atenção que eu desejava, mas era só por medo, só para não ficar sozinha. Caixas de livros e roupas espalhadas era uma visão normal de meu quarto, não ligava muito para a internet na época, e, aliás, hoje só uso por causa do emprego, mas também achei maneiras de não ficar sozinha mesmo morando há cinco anos assim. A idade não me ajudou tanto quanto as pessoas que eu me cercava, e as situações em que me meti, mas ainda assim…

As luzes ficaram apagadas por minutos, ou horas? Perdi-me incessantemente em pensamentos e memórias para evitar que o medo tomasse conta e me fizesse coisas ainda piores, mas foi tarde demais, quando imaginando os piores desfechos possíveis, algo caiu pesadamente em cima da escada de vidro fazendo a estrutura toda tremer. Fechei a mão com o medo e me lembrei do corte latejando ainda, e o sangue subia pelo meu braço ao invés de descer. Alguma coisa havia se partido alguns lances acima, o barulho do vidro se estilhaçando fez meu coração disparar. A luz voltou aos poucos, agora ela ia um pouco mais longe, e ao olhar para cima petrifiquei de medo. Enquanto a luz ia ou vinha em ondas, um sibilante aviso veio logo acima, e era uma cobra, algo parecido com uma ao menos, o corpo volumoso e vermelho com tons estranhos e irregulares cobrindo a pele, sem olhos e com uma boca praticamente humana, mas de um tamanho aberrante. No lugar dos olhos a mesma pela que cobria o resto de seu estranho ser, e varias patas, como se fossem as mãos de milhares de pessoas se arrastando lentamente em redor da escada. Não havia nada a fazer senão correr para baixo, e arriscar alguns cortes, do que esperar o enorme verme serpentear ao meu lado, pois ele descia cada vez mais rápido, e enquanto se enrolava na espiral da escada, trincava e quebrava os vidros, e hora aparecia entre as ondas da luz, hora sumia na escuridão, sibilando e se arrastando para baixo. A intensidade da luz foi aumentando, e conforme olhava para baixo os lances de escadas não pareciam acabar, e para meu desespero quando olhava para cima tampouco o verme parecia diminuir de tamanho, era como se ele estivesse crescendo para baixo, ou não tivesse algum começo ou fim. Já muito próximo de onde eu estava um odor desagradável acompanhava a criatura e entrava como uma nevoa densa pelas frestas trincadas da escada. Comecei a me sentir mal e lenta, não havia comido nada que me lembra-se, mas o que quer que fosse estava perto de eu botar para fora. A luz finalmente se manteve, sem se alternar entre as sombras, e a coloração dela também estava mudando, de um carmesim sangue, para um lilás forte, e por ultimo um azul muito claro.

Por nada melhorei do enjoo que o meu perseguidor me causara, e me animei a correr mais, a impressão de ver alguma coisa diferente dos mesmos lances me fez correr mais.

Não havia percebido que o verme já estava emparelhado no mesmo degrau do que eu, e me esforcei ao máximo, mas em vão, a criatura agora estava a minha frente e serpenteado a estrutura, agora que estava mais perto do fim percebi que logo abaixo havia uma porta grande, seus ferrolhos e maçaneta eram de algo azul que brilhava muito, e o verme se apressou em direção a porta, não sei se foi o certo a se fazer, mas em poucos segundos a criatura iria alcançar a porta, ou me sufocar com seu corpanzil que agora esmagava a parte de cima da estrutura, sentindo os cacos caírem nos meus cabelos, não pensei muito no que fazer, a não ser pular no lance de escadas abaixo quebrando assim os vidros. Parece que a queda durou por uma eternidade, os estilhaços no ar passavam por mim e acertavam o chão, fazendo grandes pedaços espelhados virarem pequenas constelações, todas refletindo o azul forte que a porta emanava. Toda essa leveza que meus olhos presenciaram foi interrompida pelo barulho de minha queda em cima da doce constelação espelhada, que agora ao invés de refletir a bela emanação da porta, refletia em alguns pontos as gotas de meu sangue, acho que talvez tenha torcido o pé, ou as costas, talvez eu tenha torcido tudo, todo o brilho e luz se apagou, e somente a dor e o escuro permaneciam, até que no fundo da escuridão uma porta se abriu, e o sibilar horrendo se encontrou com um grito estridente que me fez sentir um leve frio e um conforto, me senti sendo arrastada e levada para algum lugar macio, penas talvez, e fechando finalmente os olhos ouvi ao longe o barulho de um trovão, e gotas mornas começaram a cair na minha testa.

Sopa de Sol

Um pouco de fel, com o calor da caldeira a requentar novamente em brasa ardente, antes ouvi o porque da receita falhar, sem amor ou ardor foi descaso com o tempo a refogar, a medida errada de lembranças confundidas com as andanças de outra vida a recusar, a dose errada das ervas de sonhos que na noite sem pomos me fez refestelar em lento onirico e fatidico mundo de gorjeias e alem do mar, fiz naus e velas da terra bruta e fui em um atol encalhar, mas acordado com o odor da celebração me fiz de ninguem e vesti a mascara de cetim, olhos furados e costuras erradas logo assim, viram que era o rei da sopa de alecrim, e o primeiro prato me foi feito de fato logo que me sentei no trono carmesim, aonde balidos e chamados urravam pela mascara que toda noite tinha um dono prepotente, que não resisita ao clamor de tais gentes, e logo descobriu o veneno da emoçao, amaldiçoou em brados a sua corrupaçao, e não livrou-se mais de seu rosto, revelou por ele estranha afeição, nobre entre os pobres, nunca mais quis sorver da amarga decepção, da sopa do rei ser apenas uma simples distração, pois o gosto era o ego, e os gritos eram cegos, o que importava era a sua não feição, voltei aos sonhos e ainda estava preso no atol, mas agora haviam feito um farol, coruscava como o sol que nada via, e finalmente o descanço abaixo do seu calor me dei no fim do dia.

Manobras

Desviado do acaso esbarrando em belo vaso triste memorias

Regadas ao acaso simples comoção da morte do atraso, não é

Raso o descaso do belo sarcasmo, vitória da memória simples

E sem glória, vide de seixos coloridos em alaridos de balidos

O purpúreo som da ameixa sem tom deixa a vida sem brecha aonde

Possa passar as frestas dos clarins e oboés da festa, esta que

Atina na rotina e atesta o fim do jardim triste sem mim.