O pensamento da paixão

Às vezes parto sem razão, esperando de um brando sopro a nova ocasião, feito de trapos e farrapos a espera de alguém para quebrar o grilhão, e em meio as gotas de momentos penso no sorriso que fez as nuvens se desmancharem como que batidas por vagalhão, o doce e crispado trago de um bocado é o que leva o calor novamente ao sangue gelado, o calor das pétalas e o toque dos caracóis, e os dois poços de âmbar que escondem a alegria de coisas passadas que agora são. Não vejo mais um sentido se não perto do que me faz sentir o calor confortável do verão, aquele inverno que me tirou do inferno e me fez o que agora pode ser o melhor entre a escolha e a decisão, os olhos foram abertos e secos eram azuis e pareciam o mármore, frios, mas duros, e não se tem medo do apoio de tal atenção, crendo assim que as vezes desejo somente pensar nas vestes e nos quereres que dizes em um íntimo que agora me é conhecido, não faço cerimônia ou tenho parcimônia para ponderar se era ou é, o conselho mais sábio é viver o presente e saber que fico calmo e melhor quando sei que esta perto, na distância de um abraço e no quente do mormaço, me apego ao que é precioso e pequeno de momento, mas que para atentos olhos é um pilar de certeza, balaústre de inigualável dureza, nem o tempo ou o vento podem abalar ou tentar arranhar a edificação que esta no coração, assim sendo o pouco que me restam de palavras usa para refletir a ocasião, e somente o que me importa é o seu doce arome a sua cúmplice visão…

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Contos mal contados

A fonte jorrava em uníssono a sua apresentação diária, mas melancólica de esguichos e borrifos de água, mesmo nos dias sem sol onde era possível ver todas as sete cores dançando ao redor de gárgulas e criaturas santas ela continuava sua função, e é assim por anos, mesmo depois de suas águas terem sido tingidas com o sangue de amantes e comuns por motivos escuros. E agora ela estava deitada ali, no beiral da fonte de três andares, a mão esquerda pendurada para fora com gotas de água escorrendo entre os dedos, a outra brincava de fazer círculos na fonte, com o ar preguiçoso de um felino. Seu vestido estava gasto de andar, rasgado e roto, não parecia mais um brilho régio no meio de um amontoado de coisas fúteis, mas ainda assim os olhos voltados para as nuvens espiraladas como colunas de mármore pensavam em como foi bom um banho e uma bebida depois de caminhar dois dias com apenas porções de carne seca e vinho. Talvez quem a salvara fora o próprio fermentado, impedindo a já ébria de se assustar com qualquer miragem entre desejos vividos, mas alucinados. E agora o odre estava cheio de água, mas o gosto do vinho não lhe sai, por mais que houvesse passado toda a manhã bebericando e mergulhando entre estatuas que eram sua única companhia, guerreiros fortes e com armas pesadas na base da fonte, no meio, pessoas comuns e artistas, escribas e toda sorte de gente estranha, mas ela não conseguia ver o topo, havia algo lá em cima, mais estatuas certamente, mas estavam no meio do prato côncavo que era o terceiro andar da fonte, e nem ao longe ela pode ter um pequeno vislumbre que fosse, pois não havia nenhuma estrutura mais alta do que ela nesse árido, apenas casas pequenas e espremidas com apenas uma altura. Se não fosse agora talvez amanhã ela subisse em uma das casas já descansada, e tentaria ver o que havia ali em cima, mas agora ficar esticada ao lado da fonte parecia o mais proveitoso a se fazer…

Vermelho espelhado nas raízes

Como uma janela no meio do nada, o azul apagou-se e a calma se foi, um calor desconfortável fez o suor escorrer pela minha testa e costas, e cai pesadamente em um tronco de madeira, perdi totalmente o folego com a queda, e talvez algumas costelas. Um bosque rubro dentro de uma caverna pareceria com algo assim, as poucas fontes de luz eram vermelhas e vinham de lugares estranhos como fendas no chão e nas paredes,  e mesmo assim a escuridão parecia emanar com vida das mesmas rachaduras e principalmente do teto, ou do vazio, não sei bem se era um lugar aberto muito escuro ou um lugar fechado sem muita luz, mas era certo que um leve odor de madeira morta que sentia foi logo sobrepujado pela pestilência cadavérica que infestou meus pensamento, cenas de batalhas sangrentas com finais ruins e homens e mulheres agonizando aos retalhos, o sangue gotejava ao longe, não sabia da onde vinha ou par aonde ia, mas era certo que era sangue, um espirro com gosto ferroso de uma das visões borrou meus lábios e o salgado do sangue era inconfundível, afinal que criança nunca cortou o dedo e chupou o corte para sarar? Cadáveres aos pedaços andavam para lá e para cá, sem nem prestar a atenção em mim, não deve ser algo bom, ou devem ser só cegos, mas o que são esses conceitos para quem já esta morto? Numa turba de podridão, se esbarravam e caiam em um rio que cortava em dois o horizonte. Não sabia bem mais o que olhar, tudo era confuso e vermelho, os reflexos do chão cortavam quem passava por cima deles e os engolia, fazendo depois uma chuva rubra e pesada do sangue dos andarilhos, jorrava até o mais alto que eu não podia ver, e caia em gotas grossas e pesadas, junto a lascas de madeira e um constante e irritante ranger de vários dentes.

Tropecei em um amontoado de ossos e raízes, mas não cai estranhamente, em vez disso algo apertou meu pescoço e sufoquei por um momento, tentando me segurar no ar acabei esbarrando em uma corrente que não havia visto antes, levei as mãos ao pescoço e senti uma leve, mas resistente argola de metal, um pouco apertado para o meu gosto. Agora que vi em um reflexo pouco iluminado que estava com um vestido pálido e poído branco, com respingos rubros. O anel metálico estava preso bem na altura da nuca. A corrente era bem comprida, mas não dava de ver até aonde ela ia, não que eu estivesse com vontade de ir para algum outro lugar, não queria me embrenhar nas sombras que cortavam e refletiam coisas horrendas sempre que eu encarava os espelhos que estavam ou inteiros ou em lascas junto a arvores e no chão. Um leve barulho metálico foi crescendo até chegar a minha direção, e a corrente começou a ser arrastada rapidamente por entre as raízes quebradas, corpos  e espelhos despedaçados pelo chão. Comecei a correr para acompanhar a corrente e não ser arrastada para uma queda cortante e infeliz, acompanhando o tilintar das correntes que ia aumentando. E a cada eco metálico que a corrente fazia, parecia que os habitantes desta poça nefasta de morte finalmente prestavam a atenção em mim, corpos pela metade, com vestimentas de batalha e armas partidas se amontoavam para tentar me agarrar com dedos quebrados. A luz que já era pouca foi diminuindo nos reflexos, e somente a corrente irradiava um tênue brilho branco que parecia formar runas por toda a corrente, mas que não passava de dois ou três metros no máximo a minha frente. As runas pararam de brilhar e sobraram só os urros estranhos e hediondos atrás de mim, talvez até os meus reflexos e as sombras dos mortos tivessem criado vontade para me perseguir, talvez eu acordasse no fundo da minha cama segurando uma coruja de pelúcia, só que a cada leve esperança de acordar, eu era puxada com mais força pela corrente agora fosca com apenas um leve brilho para o meio da escuridão. Senti o vestido e um pouco do meu braço rasgarem em alguma coisa afiada na parede, provavelmente algum dos malditos espelhos, meus pés também estavam cortados, e até juro que passei por algo muito quente, mas por pouco tempo, pois já mal andava, era mais a corrente que me puxava por pouco por cima do chão. O odor infausto me dava ânsias, mas ainda pior foi ser puxada para cima mais rápido ainda, segurei a corrente pelo elo que estava mais perto do pescoço, se essa subia demorar muito talvez eu não chegue com ele inteiro. De súbito  a corrente parou de me puxar e de subir, e logo estava suspensa pelo pescoço, usando o que sobrara de minhas forças para não sufocar, tentei gritar por ajuda mas só um arfar engasgado escapou junto com o último fôlego. “Claro” – Disse uma voz doce e sibilante. E com um clique metálico, o elo se partiu e cai no chão. Assim que tomei folego pensei que iria ser novamente aquela baforada pestilenta, mas não, onde estava, aqui em cima talvez, o ar era suave e cheirava a rosas e a madeiras diferentes, nunca soube o nome de alguma arvore pelo seu cheiro, somente meu vestido ainda fedia a pestilência de lugares inferiores. Conseguia ver melhor aqui em cima, archotes em forma de palmas estendidas brilhavam com uma chama branca e bruxuleante, até onde eu percebia, estava em um imenso circulo de pedra, e bem no centro uma elevação em caracol serpenteava certa altura para em seu topo exibir um trono branco como a aurora. As colunas do círculo iam muito alto, além do alcance da luz, mas todas tinham um padrão reptiliano, com grades escamas de um verde vivo em algumas e um dourado fosco em outras, e mais algumas brancas. O trono tinha a forma de um dragão enrolado em uma serpente, não dava de saber se os dois estavam em um embate ou se apenas eram para ostentar algo. Os apoios laterais eram como duas grandes peçonhas, o grande circulo estava cheio de runas e outros desenhos no chão, cenas de batalhas e mortes, com varias criaturas e homens, não consegui distinguir direito com a pouca iluminação, mas eram feitos com pedras cortadas de maneira perfeita, todas as cenas pereciam estar em folhas ou em um tronco de arvore, minha apreciação acabou quando novamente a voz sussurrou. “Ainda bem que você não recusou o meu convite, desculpe a insistência, mas se você não viesse acabaria sendo algo indigesto para você.” A voz feminina sibilava e seduzia de forma estranha, como algo macio que rasteja pelas suas costas e se enrosco nos seus cabelos. Esforcei-me para ficar de pé, estava ensanguentada e com o vestido em trapos, me arrastando pela parede ameacei cair novamente, mas duas mãos fortes me seguraram pelos ombros e me mantinham de pé com facilidade, eram rugosas, ou escamosas, não conseguia ver quem me segurava, somente estava ali forçada a ficar em pé.  Ela desceu pela espiral do trono segurando algo em sua mão esquerda, não consegui saber logo o que era, mas assim que vi a boca dela ensanguentada com gotas escorrendo pelo rosto, olhei novamente e reparei os anéis no toco da mão, com metade das falanges já só com os ossos e alguns fiapos de carne pendurados que ela saboreava, e brincou acenando com a mão para mim refestelando-se com os dedos mortos. O contraste da cena era aberrante, uma mulher jovem, de cabelos brancos ensanguentada com os restos do cadáver devorado. O vestido era dos mais atrevidos com poucos cortes de tecido que faziam senão exibir as curvas serpenteantes de seu corpo trajava também um único e comprido manto verde escuro e escamoso.

“Não há muitas coisas belas a se fazer em um buraco não acha? Eu mesma fui obrigada a achar algum passatempo, e de vez em quando para não morrer tédio brincar com os espelhos que você viu.” – Ela se aproximava e me olhava com o âmbar ofídio que parecia ter luz própria, e me encarava de cima a baixo, dando a volta em meu redor, estava muito fraca para retrucar algo, e tentei em vão um arfar de “Por quê?”. Vendo o meu estado deplorável, ela continuou a andar e a falar em uma língua estranha, forte e pesada, mas ainda com o tom ofídio. A sombra que ela fazia na elevação do trono era estranha, maior e mais disforme do que a da mulher em minha frente, e se movia de maneira estranha. As mãos que me seguravam agora me forçaram a olhar para aqueles olhos grandes e reptilianos que trouxeram uma calma estranha, fascinante. A luz inundou meus olhos e fui tragada para cima, e estava em uma bolha amarga que foi ficando vermelha e quente enquanto subia, assim que emergi a luz ficou fosca, e vi corpos caindo de uma arvore, e depois, outra maior ainda partida em vários pedaços, e cada pedaço era parte de um espelho, ouvi barulhos de metal se chocando contra metal, elmos partidos e adagas perfurando costelas. Os pelos de minha nuca se eriçaram, eu conseguia sentir o ar pestilento ainda no meu rosto, eu estava na visão e ainda estava na frente dela, ela dividiu minha percepção em dois e eu senti que minha mente ia rasgar a qualquer momento. Um guincho alto de algo sendo arrastado e depois o trincar de madeira me fizeram olhar para cima, um emaranhado sem fim de raízes de arvores cobria toda a minha visão de cima, e um rosnar profundo encheu meus ouvidos, algo veio rápido pelas minhas costas e começou a me envolver e a me levantar muito alto, era algo viscoso e quase tirava meu ar. A criatura tinha um corpo enorme, não saberia dizer ao certo seu tamanho, e possuía vários braços da metade do corpanzil para cima, todos se arrastavam e tentavam segurar algo, passei bem perto deles ao ser levantada pela criatura, e ela me segurou bem em frente a sua boca. Milhares de dentes em uma mandíbula humana em um rosto monstruoso e sem olhos refletiam a saliva escorrendo e o cheiro de morte, e a criatura grunhiu em direção as raízes, mordeu e mastigou um grande naco delas, e me colocou em uma elevação próxima as raízes. Tentei olhar para baixo, mas a criatura estava se enroscando na borda e impedindo minha visão, sua boca escancarada salivando algo que fazia uma leve fumaça verde subir de onde encostava, e ia corroendo aos poucos as beiradas da encosta. Comecei a andar para trás para ameaçar uma corrida, mas bati com as costas em algo que fez um barulho metálico, e a coisa se afastou e bateu devagar em mim novamente, e novamente. Assim que me virei o horror novamente tomou conta da minha visão, corpos enforcados, pendurados por correntes em uma arvore muito bela, mas estranha, contando eles vi nove ao todo, mais nenhum ao andar em redor dela. A serpente estava parada me observando, se enroscando na elevação com todo seu volumoso corpo, devia fazer algo para sair dali, qualquer coisa para acordar, mas a serpente não dizia nada, só olhava para os corpos, alguns podres, outros ainda frescos, mas definitivamente mortos. Enquanto giravam lentamente em suas correntes, notei que todos tinham o olho esquerdo faltando, e que algo estava iluminado no fundo de suas órbitas vazias. A corrente do corpo maios próximo afrouxou e ele parou bem em minha frente, me fazendo gritar e a serpente sibilar com algo de apreciação. O corpo estava entre os menos afortunados, sem uma perna e com roupas muito estranhas, um terno verde escuro e um cabelo muito bem arrumado, no que restava da cabeça, pois metade estava aberta por algum ferimento cheio de vermes agora. Sua órbita esquerda incidia uma luz forte, mas concentrada, algo que estranhamente eu precisava ver, e assim que me aproximei para olhar o fundo de sua órbita, suas mãos podres seguraram meu rosto agora rente ao seu, e eu não conseguia me soltar, só gritava por ajuda até que comecei a ver no fundo de seus olhos mortos, algo se formando, um lago calmo com um casal passeando em sua beirada de mãos dadas, ela olhava para o reflexo do lago, e ele para o pescoço dela, quando ela soltou sua mão para procurar algo na margem, ele a atacou por suas costas e a estrangulou, meu pescoço doía e eu consegui ver um pingente na margem, na forma de dois círculos, e caí completamente desfalecida nas aguas escuras, tocando o fundo do lago momentos depois, e as visões começaram a ficar mais rápidas e fortes, e eu sentia tudo, me queimava e me cortava, morria e nascia varias vezes, e vi pessoas me traindo e morrendo, e eu matava e ensinava, colhia uma maçã e orava sozinha em uma casa escura na luz de uma única vela, e as raízes se quebravam e eu sentia chover lascas de madeira, ouvi correntes quebrando e um sibilar ruidoso, parecia que algo estava morrendo na minha mente, como quando você quer se lembrar de algo que se esquece para sempre, e veio o trovão…