O Galo de Berith

Antes de tudo, peço desculpas, desculpas a mim mesmo, por ter omitido aquilo que eu mais prezo aquilo que é parte de mim e eu deixei de lado por besteiras e bobagens, o pouco no muito.

Cada linha é uma alegria diferente, é um mundo estranho e meigo, cheio de caveiras e arvores, por quê?

Pois sou assim, dentro de mim habitam vários monstros, converso com alguns as vezes, mas estão trancados, talvez eu os solte por precisar da ajuda deles, afinal, eles me moldaram por anos, me fizeram forte e decidido, frio e brincalhão, a antítese de mim mesmo.

Agora o que eu penso é numa bateria de carro partida, no meio de uma rua infestada por criaturas, as minhas, se bem me lembro, tinham uma membrana rosada cobrindo seu corpo, e algum tipo de gosma nojenta e fedida, o tipo que gruda como o que fazemos depois do clímax, o tipo que fede como agua parada na rua.

Ela tinha duas pernas grandes e compridas, as coxas poderosas e os três dedos das patas impulsionavam elas para frente, atrás de uma presa ou somente correndo e talvez se comunicando, o que interessava é que antes não tinham olhos, talvez algumas coisas não devam ter olhos, mas elas devem.

Por quê? Porque assim é mais cruel, assim elas te veem, te veem no escuro, embaixo d’agua, te veem até cegas.

Andar é um apelido carinhoso, para o bambolear de joelhos e passadas desconexas que elas chamam de movimento, se esfregando e caindo toda hora.

Babando uma quantidade incrível de saliva, seus dentes formam duas fileiras de luas pontiagudas, em contraste com os olhos, os dentes são enormes e tortos.

Os braços são curtos demais para agarrar ou arranhar, mas estão mudando, muita coisa esta mudando.

Uma película membranosa agora se estende das costas arqueadas até as pequenas garras, e esporões saem de seus cotovelos e calcanhares.

Seria algo como um galo do inferno, talvez esse seja um bom nome, e ele não é uma invocação.

Ele é uma alma torturada, alguém que trabalhava muito, acordava cedo, fazia a sua vida de maneira normal e agradável, tinha esposa e filhos, até um cão. Mas ai ele foi moldado, o cachorro adoeceu, ficou louco. Mordeu a filha mais nova que contraiu raiva e passou por um tratamento caríssimo, mas sem recuperação, não durou 6 meses na clinica, forçada a entrar em coma para se recuperar, nunca mais despertou. A mulher em desespero tomou uma dose maior do que devia de antidepressivos, mas a quem culpar? Ele claro, o marido. Ele deu o cão de presente a filha no aniversario de 9 anos, ela havia pedido, a mãe não achava boa ideia, mas mesmo assim, um cachorrinho sempre alegra a vida de uma criança não? Não?

E aconteceu, ele se perdeu nos pensamentos, a gordura acumulando nos lados da barriga. Caindo pelas calças. A casa desarrumada e cheia de lixo, sem visitas algumas, ele não sabia mais o que era um amigo ou um parente.  Nunca teve uma crença forte, foi a algumas missas, alguns cultos, mas nada que ele pudesse pedir ajuda, pois nada ia o ouvir, a não ser um pequeno chiado.

Como sempre andava bêbado, não estranhou uma névoa avermelhada descer rolando por baixo de sua cama e envolve-la. Era morna e agradável, como as caricias da ex-mulher,  a covarde que desistiu e o havia deixado sozinho.

Então ele ouviu.

– Pai? Pai você ta ai? Eu to com frio pai, me abraça.

A voz era da única coisa que ele ainda se lembrava com amor, a filha, Lidia. Estava na porta do quarto, apoiada no umbral da porta, as mãos se cruzando na frente com a delicadeza que só uma garotinha consegue tirar de qualquer situação.

– Pai, ele ta preso agora né? Ele não vai vir de novo né?

Desesperado, ele apertou a colcha da cama, o suor escorrendo da testa e fazendo uma linha desconfortável nas costas.

-Ele quem docinho? Ninguém vai fazer nada com você. Dessa vez eu juro que vou dar a vida por você…

A voz morreu tentando se levantar da cama, mas estava preso. A névoa era como um carpete fino, mas presente, o quarto havia escurecido demais, e as lâmpadas eram borrões amarelos muito longínquos.

– Então você aceita dar a sua vida por mim papai? Aceita?

A voz era certo como o dia, ou a noite, o apelo era algo mais claro agora, ela queria pra sempre estar livre, de onde quer que esteja.

– Sim querida, tudo o que você quiser. TUDO!

Berrou o homem já se soltando o transe e fechando os punhos, decidido, iria salvar a sua filhinha se tivesse a oportunidade, mesmo que lhe custasse tudo, já que não havia mais nada a perder.

– Venha, me de a sua mão!

Agora o cenário estava pronto, a cena perfeita para um desaparecimento, uma família falida, e um fantasma com uma oferta.

Assim que Moore se levantou e foi com passos pesados em direção ao que ele achava ser sua filha, notou que não tinha mais controle sobre seus pés, iria aonde quer que ela quisesse, mesmo que fosse  o inferno.

Ela estendeu a pequena mão e o olhou com aqueles olhos, aqueles grandes olhos castanhos, o sorriso cheio de dentes, estava alegre.

Ele olhava fixamente para a mão dele, como que hipnotizado pelo momento, os segundo que ele se demorou pensando o quanto seria feliz ter sua filha novamente, foram o suficiente para o seguinte ocorrer.

A sombra da garota projetou-se para toda a sala, as luzes se apagaram, e agora a mão estendida era grosseira e oleosa.

O único brilho na sala eram os dos olhos dela, mas estavam mais altos, muito mais altos, um bons dois metros e meio talvez., e eles se curvaram até a mão gorducha de Moore e a espetaram varias vezes. Não foi uma mordida, foi um beijo, uma sentença. A mão de Moore começou a inchar mais ainda, e os ossos se torceram dentro do seu corpo, os cabelos caíram todos, e a pele se dissolveu em uma crosta oleosa, algo como uma membrana rósea.

A boca se escancarou e os dentes caíram todos, dando espaço para o novo par de mandíbulas, maior e mais pesado.

As coxas rasgaram a calça de brim como se fossem de papel, garras brotaram de onde seus dedos haviam encolhido ,seu hálito estava pior do que antes, não muito, mas agora havia algo mal nele.

Uma coisa digna de nota, é que os galos de Berith adoram cachorros, tanto que brincam com eles normalmente, até lhes dão de comer uma vez ou outra.

O selo estampado na testa do galo é prova de que é posse de Berith, Lorde da Goetia, Chave Inferior de Salomão, Senhor de 26 legiões de condenados.

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