I’m Back

É difícil voltar a escrever depois de um tempo parado, parece que tudo escapa e fica mais alto ou mais longe, mas estou voltando.

Não tiro o mérito de mim, mas não ouso esquecer daquela que me fez ter forças e persistência, da minha querida e pequena Stéfani.

As palavras são poucas, mas o que vale é começar, rápido ou devagar, o importante é começar.

Obumbrata

A quem um dia se deve temer, dar o poder de ser ou talvez querer um escolher sem mais um

esclarecer, não é assim que fere a mim o amargo saber, de tanto antes quanto constante, a visão deslumbrante de raios de sol esquecidos no âmago de algum entardecer, escondido por folhas acobreadas de um tronco a desfalecer, sem entender o pois do depois que esta a aquecer, o medo de tudo querer é alias o que se faz a mais aprazer, a maquiagem de um rosto é o riso do entristecer, do esquecido mas não abatido bufão que habita o amanhecer.

Aos velhos hábitos sem sorte, o desejo é apenas mais profundo corte, acontece assim sem o caminhar em carmesim aonde a trilha aparece e escorre, os tijolos amarelos já viraram pó…

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A lança da Rainha da Noite

Havia no meio de um profundo bosque, um templo dedicado aos prazeres e aos pecados da noite, cintilava como uma joia perdida no deserto, e sacrificavam-se animais e faziam-se orgias em nome da rainha da noite, mas agora o mármore negro não refletia sequer um fecho da crescente, e há muito metade de sua fachada fora destruída por mãos vingativas. O templo de Naamah. Fazia séculos desde que alguém trouxera algo do agrado da Rainha da noite, toda sorte de presentes lhe era jogada em tempos mais áureos, mas agora nem os maldosos profanadores pisam nas terras sagradas para saquear algo, pois não há mais o que se levar.
Os cabelos de Celine ondulavam na brisa, como que se acariciados e tratados por um amante delicado, mas aí é onde findam as doces metáforas, e onde começam os dias de guerra, a lança pendendo leve em sua mão, segurada quase pelo final de sua haste poderia mostrar imprudência ou até mesmo cansaço, mas o fôlego nunca lhe falhou, tampouco ela mesma ofegou, e desceu por entre um outeiro e um pequeno bosque para não chamar a atenção. Cansada de ouvir seus passos na pedra ela desceu mais ainda para dentro do bosque, e viu que não era tão pequeno assim, apenas estava escondido por uma depressão do que ela pensara ser um vale. O barulho de agua lhe trouxe um alivio, sabendo que deveria agora estar bem perto do templo da Noite, dias atrás em uma pequena estalagem quase na saída do reino Celine ouviu de um velho que se divertia assustando jovens guerreiros com uma história sobre uma deusa em um poço que estava presa por um descuido do acaso, e que recompensaria fartamente aquele ou aquela que lhe cedesse a luz da lua e a brisa noturna junto com um jarro de vagalumes e mel. Parecia uma empreitada fácil até ai, mas o velho sisudo que juntava trocados para continuar falando da deusa e conseguir suas bebidas havia entrado na parte mórbida de seu conto, onde todos os que tentaram salvar a deusa agora estavam plantando petúnias pela raiz. O motivo das falhas dos mais nobres cavaleiros até o mais reles dos salteadores é a maldição de Naamah, o guardião de seu templo, e cárcere da deusa diz-se que era um antigo sumo sacerdote da luz da aurora, um homem forte e bravo que caiu nos encantos da rainha da noite e perdeu as bênçãos da dama da manhã. Como vingança, ele vigia toda a noite o templo da deusa cativa para que a lua não apareça sobre ele, nem vagalumes e tampouco abelhas. O guardião da luz, agora amaldiçoado, havia jogado a deusa em um fosso feito com seu rancor e remorso, e proibido a entidade de desfrutar de quaisquer luzes. Naamah era tida como apreciadora da arte, da dança e de tudo que se relacionava a boemia e a criatividade, e para isso na noite, é preciso haver mesmo que uma fraca luz para se deleitar com as obras dos poetas, mas no fundo do poço, nem luz nem som penetravam a sólida escuridão que a cada dia levavam a deusa as beiras da sanidade. Não demorou muito para Celine conseguir mais do que os contos do velho, nada que algumas boas doses de caridade não facilitassem. E em pouco tempo Celine partira com um vidro de mel, um pote vazio no alforje, a sua pedra de amolar e a lança. Lutar com uma lança não é fácil, à distância e a habilidade em usar o corpo de contrapeso como se fosse um pendulo em uma dança constante com a haste de metal. Celine conhecia bem esse ritmo e sempre mantinha a longa e chapada ponta da lança tão afiada que facilmente cravaria um vinco em uma pedra. Agora muito perto do templo de Naamah, Celine sentia um arrepio lhe percorrer a espinha, a noite ainda estava por vir, mas quanto mais ela ia adentrando o bosque, mais escuro ficava o dia. O frio seguiu-a o tempo todo, e esperando o dia morrer para começar a sua caçada, preparou duas fogueiras, uma para se esquentar a noite, e outra apenas a alguns metros de distancia para desencorajar curiosos ou animais, ela havia visto alguns movimentos por entre as arvores mas não achara trilha alguma. Voltando aos afazeres, Celine destampou o jarro e pegou um pouco de grama molhada perto do rio, botando no fundo dele junto com uma pedra que emitia uma fraca luz azul.
Em pouco tempo o jarro parecia uma pequena constelação, com vagalumes pousados levemente nas folhas brilhando na noite como um fogo fátuo. Preparada para a ultima tarefa, entrar no templo e achar alguma maneira de fazer o luar entrar nele, Celine não havia notado o quão escuro estava agora, a noite supostamente devia ser estrelada pela época do ano, e a cheia deveria estar agora cintilando prateada no véu estelar. O frio a fez apertar a haste da lança com força, e mais decidida, preparou os presentes para a deusa e apagou as fogueiras com terra, levando algumas brasas para espalhar pelo caminho, assim ela poderia saber por onde voltar caso se perdesse. O clima da noite pareceu fugir cada vez que ela se embrenhava mais no bosque, e todas as luzes em volta morreram, até que sobrou apenas o jarro com os vagalumes e a pequena pedra cintilando em azul, mais alguns metros e ela finalmente achou algo que deveria ser um pavimento muito antigo, a terra e a tempo cobriram e gastaram quase todo o caminho, mas mesmo apenas com a tênue luz ela conseguia ver bem aonde deveria ir.
Quase todo o som em seu redor havia morrido, apenas um barulho de agua e algo distante que talvez lembrasse um soluçar, mas antes que Celine conseguisse pensar em qualquer suposição um clarão de luz afogou seus olhos e a cegou por uns instantes.
Por entre os dedos que ela usara para se proteger da luz, os contornos de uma figura altiva cintilavam em uma armadura dourada, empunhando larga espada e com um escudo quebrado a seus pés, agora o efeito do brilho já passara, e ela podia ver o rosto belo e forte do cavaleiro, seus olhos faiscavam em rubro, e sua mão apertava o punho da espada com a mesmo ferocidade com que rangia os dentes.” Mais uma alma fadada ao fim pela minha espada, não podes fugir pois entraste no meio de minha vingança, mas podes baixar a arma e ter uma morte rápida”. Celine não respondeu nada, somente apertou o nó do alforje e botou o jarro com os vagalumes no chão.
“Sofrerás com a cegueira da luz e com a opressão da escuridão, assim seja tola”. E o luminoso guerreiro brandiu a espada, e por um breve momento em que a luz refletia na lamina, o reflexo dele parecia com outra coisa, gasta, velha e purulenta, ela não havia prestado a atenção, mas agora sentia um forte odor que parecia ser o sumo de sepulcros.
A luz retraiu-se até contornar apenas a armadura do guerreiro, mas continuava forte em sua espada. Com um movimento súbito o guerreiro avançou em sua direção com uma estocada agressiva, urrando em nomes há muito não usados, em uma língua gutural e grotesca. Assustada com tamanha violência, Celine desviou a estocada para o chão e usou o contrapeso da lança para acertar o guerreiro no lado de sua cabeça. Ele parecia ter saído de toda a sua pompa e civilidade e se voltado para algo mais animalesco, tentou chutar o jarro mas foi impedido novamente pela haste de ferro que o acertou na canela. Logo a dança começou em redor ao jarro, enquanto a fina luz azul piscava e era inundada pelo brilho da armadura do guerreiro, Celine girava os golpes procurando levar o guerreiro para trás. Não com intuito de vencer, ela sabia pela força da primeira estocada que se fosse desatenta seria seu fim, mas queria aproveitar toda a luz do guerreiro contra ele, e assim circundou entre lança e espada a dança que durou vários minutos, e ela já havia visto o suficiente do que queria, até achar algo parecido com um templo atrás do guerreiro. E aconteceu um descuido, a lança não conseguiu aparar a força dos golpes de espada, que não pareciam diminuir nem se cansar, enquanto ela estava perto do seu limite, sentiu o sabor do próprio sangue que salpicou seu rosto, um golpe mal bloqueado de baixo para cima acertou seu quadril, fazendo a lanceira recuar vários passos.
“Sem luz, sem salvação, sozinha e morta por culpa da própria corrupção.” Segurando o sangramento com a mão, Celine correu para trás, em direção a fraca luz do jarro, o guerreiro rosnando e blasfemando em seu encalço. “Volte aqui vadia!”. Alcançando os vagalumes, ela segurou o pote que quase escorregara em sua mão ensanguentada, e mergulhou nas sombras do bosque. O guerreiro sem paciência alguma brandia a espada luminosa como fogo cortando arvores e praguejando, até que viu em um canto perto de uma pilastra uma pequena luminosidade azul. “Chegou teu fim invasora, morra.” E ele avançou violentamente com uma estocada que atravessou a coluna e ouviu o barulho de algo se partindo, seriam os ossos da lanceira? O guerreiro tirou a espada da coluna, mas não havia sinal de sangue.
Dando a volta ele viu uma pequena pedra azul cintilando no chão, e se arrependeu de sua prepotência assim que sentiu a lança lhe perfurar o torso e o pregar na coluna. Ela já havia sofrido com o tempo e com a espada luminosa, a estocada de lança foi o coup de grasse para a coluna, que caiu pesadamente sobre o templo, derrubando boa parte da fachada que agora era irreconhecível. O Guerreiro ficou preso na viga de pedra, os olhos voltados pra o céu que parecia ter sido despido de um manto de negrume e agora era um altar de estrelas com a lua ornando a abóboda celeste. Celine improvisou uma atadura com um pedaço de sua camisa rasgada, pegou o jarro e o mel e caminhou até entrar no templo. Círculos escavados na pedra estavam espalhados pelo chão, todos com alguns metros de diâmetro, altares com vasos vazios e estantes com pilhas de papéis mofados, em nada o templo lembrava o esplendor que foi detalhado vivamente pelo velho da estalagem.
Um soluço e um choro baixinho vieram de algum lugar no escuro do templo, ao dar os primeiros passos para dentro, uma luz forte azulada iluminou o archote na parede, e aos poucos as luzes foram iluminando um caminho que serpenteava os círculos e as estantes até um poço, este iluminado propositalmente pelo buraco aberto a pouco, os raios lunares embebedando as bordas do poço aos poucos, até que chegaram exatamente em seu centro, e o choro e os soluços pararam. Algo se arrastava lentamente poço acima, Celine abriu o pote e deixou os vagalumes saírem, e um a um, como que em transe, eles voavam delicadamente para dentro do poço. Depois ela tomou metade do mel, que desceu com vagar por sua garganta, era denso, mas morno, e a fez se sentir bem do cansaço da luta. Uma nuvem cinza pareceu borrar a visão dela, saia do poço e tinha um aroma doce e inebriante, uma calma sem igual inundou Celine e ela afundou de joelhos no chão, passando a mão no quadril notara que não doía mais, e somente sua mão ensanguentada lhe mostrara que não estava participando do mundo onírico, mas sim ainda acordada. Uma melodia de harpa se fez atrás dela, e quando Celine se virou, lá estava ela, em todo seu esplendor.
O vestido negro com os ombros a mostra, seios fartos e olhos negros como o abismo, seus dedos ágeis laceavam a harpa como se ela fosse feita do mesmo material que o desejo e a perdição, e entoou uma melodia em uma língua também a muito esquecida, mas leve e agradável aos ouvidos.
“Libertadora da Rainha da noite, é um bom titulo não acha?” Disse a mulher na língua comum, cada palavra que saia de sua boca parecia depravada, não esperaria menos da deusa da noite e de seus sortilégios.
“Peça, peça e será concedido, deseje e de pronto será atendido, se quiser a lua peço para o artífice do céu lhe fazer um pingente mais brilhante que a aurora, se quiser amores darei a você rios de luxuria e de prazer, se a vida acha curta tornar-te-ei imortal para compor comigo as melodias do anoitecer, peça e será teu. “Celine levantou-se d seu estado inebriado, e caminhou lentamente na direção da deusa, se aproximou de seu ouvido e sussurrou a sua vontade. “Apenas isso? Não, terás mais, muito mais, por agora farei a tua vontade, mas me espere em teus sonhos e em suas noites.”
E o templo logo ficou para trás, assim como a garota que andou pelos perigos do bosque e enfrentou o cárcere da deusa sozinha, agora seguia adiante uma lanceira de armadura negra, sua lança agora era o trovão, e vingança era o hino estampado em sua feição, assim seguiu Celine, rumo à perdição.

 

Asa de Fada

Enquanto uma folha girava e pendia solta embriagada nos passos do vento, o som dos galhos rangendo e um crocitar ao longe moldava o escuro da noite, mais escura que o costumeiro, sem lua ou estrelas, apenas com as pesadas nuvens de chumbo marchando lentamente pelo véu noturno.

Sentia as gotas pesadas batendo no casaco e nas abas do chapéu, meio desconfortável com a lama prendendo os sapatos toda hora, andar no descampado na frente de uma tempestade e com algo oprimindo minha vontade era meu último desejo para esta noite, eu não precisava ter de caminhar tanto, mas o carro ia ser muito barulhento e as luzes iam chamar a atenção, precisava ser calmo e esperar a chuva e uma chance de entrar no galpão.

Três sombras caminhavam calmamente pela sacada de madeira contornando os lados e os fundos da estrutura, uma porta pesada de ferro estava trancada com uma corrente envolvendo  duas grandes alças como um enorme cadeado enferrujado. As sombras paravam e conversavam umas com as outras, pediam fogo e acendiam cigarros, tomava algo de uma garrafa de vidro escuro, com metade sua escondida por um saco de papel. Depois de dar a volta no galpão e quase perder os sapatos atolados da lama, a chuva deu uma trégua e resolveu só acariciar de leve meu casaco e lembrar que meu chapéu estava pesado.

Uma das sombras decidiu sumir atrás de uma porta na lateral onde as luzes eram mais fracas e se podia ver o cintilar de toda a cidade, como um sonho perdido no meio da madrugada, talvez como os meus que me empurravam a entrar no meio do nada para procurar algo tão estupido.

Aqui as coisas começam a ficar estranhas.

Assim que os garfos celestes pararam de iluminar o céu, um barulho bem menos imponente quebrou a canção da chuva nas telhas e nas poças, uma porta rangendo devagar e abrindo com cautela, as botas batendo encharcadas nas tabuas e deixando marcas escuras de água e lama, e depois de algum tempo desaparecendo e se mesclando com a quietude escura do armazém.

O que aconteceu foi um momento para se acostumar com as pequenas fontes de luz espalhadas, monitores, cigarros e uma luz amarela que piscava apontando em um fecho sem nada para iluminar. Andando por entre as colunas de madeira um cheiro forte de algo doce e suave impregnou meu casaco e deu a sensação de calor, segui o aroma com cautela até chegar a um poço de pedra, e uma luz forte brilhava no fundo dele.

O barulho de algo brusco se movendo e a ponta escura que atravessou meu casaco e meu peito foi quase uma das ultimas coisas de que me lembro, levantado dois palmos do chão, fui atirado como um boneco de pano no poço e comecei a cair em direção a luz, se não morre-se pelo ferimento a queda faria um bom trabalho ainda, mas senti um leve puxão no rasgo nas costas do casaco e minha queda se suavizou, mas só consegui ver a copa de uma arvore e uma sensação de mergulhar em uma banheira de água morna, e tudo se apagou com um barulho que de longe lembrava um leve bater de asas.

Vermelho espelhado nas raízes

Como uma janela no meio do nada, o azul apagou-se e a calma se foi, um calor desconfortável fez o suor escorrer pela minha testa e costas, e cai pesadamente em um tronco de madeira, perdi totalmente o folego com a queda, e talvez algumas costelas. Um bosque rubro dentro de uma caverna pareceria com algo assim, as poucas fontes de luz eram vermelhas e vinham de lugares estranhos como fendas no chão e nas paredes,  e mesmo assim a escuridão parecia emanar com vida das mesmas rachaduras e principalmente do teto, ou do vazio, não sei bem se era um lugar aberto muito escuro ou um lugar fechado sem muita luz, mas era certo que um leve odor de madeira morta que sentia foi logo sobrepujado pela pestilência cadavérica que infestou meus pensamento, cenas de batalhas sangrentas com finais ruins e homens e mulheres agonizando aos retalhos, o sangue gotejava ao longe, não sabia da onde vinha ou par aonde ia, mas era certo que era sangue, um espirro com gosto ferroso de uma das visões borrou meus lábios e o salgado do sangue era inconfundível, afinal que criança nunca cortou o dedo e chupou o corte para sarar? Cadáveres aos pedaços andavam para lá e para cá, sem nem prestar a atenção em mim, não deve ser algo bom, ou devem ser só cegos, mas o que são esses conceitos para quem já esta morto? Numa turba de podridão, se esbarravam e caiam em um rio que cortava em dois o horizonte. Não sabia bem mais o que olhar, tudo era confuso e vermelho, os reflexos do chão cortavam quem passava por cima deles e os engolia, fazendo depois uma chuva rubra e pesada do sangue dos andarilhos, jorrava até o mais alto que eu não podia ver, e caia em gotas grossas e pesadas, junto a lascas de madeira e um constante e irritante ranger de vários dentes.

Tropecei em um amontoado de ossos e raízes, mas não cai estranhamente, em vez disso algo apertou meu pescoço e sufoquei por um momento, tentando me segurar no ar acabei esbarrando em uma corrente que não havia visto antes, levei as mãos ao pescoço e senti uma leve, mas resistente argola de metal, um pouco apertado para o meu gosto. Agora que vi em um reflexo pouco iluminado que estava com um vestido pálido e poído branco, com respingos rubros. O anel metálico estava preso bem na altura da nuca. A corrente era bem comprida, mas não dava de ver até aonde ela ia, não que eu estivesse com vontade de ir para algum outro lugar, não queria me embrenhar nas sombras que cortavam e refletiam coisas horrendas sempre que eu encarava os espelhos que estavam ou inteiros ou em lascas junto a arvores e no chão. Um leve barulho metálico foi crescendo até chegar a minha direção, e a corrente começou a ser arrastada rapidamente por entre as raízes quebradas, corpos  e espelhos despedaçados pelo chão. Comecei a correr para acompanhar a corrente e não ser arrastada para uma queda cortante e infeliz, acompanhando o tilintar das correntes que ia aumentando. E a cada eco metálico que a corrente fazia, parecia que os habitantes desta poça nefasta de morte finalmente prestavam a atenção em mim, corpos pela metade, com vestimentas de batalha e armas partidas se amontoavam para tentar me agarrar com dedos quebrados. A luz que já era pouca foi diminuindo nos reflexos, e somente a corrente irradiava um tênue brilho branco que parecia formar runas por toda a corrente, mas que não passava de dois ou três metros no máximo a minha frente. As runas pararam de brilhar e sobraram só os urros estranhos e hediondos atrás de mim, talvez até os meus reflexos e as sombras dos mortos tivessem criado vontade para me perseguir, talvez eu acordasse no fundo da minha cama segurando uma coruja de pelúcia, só que a cada leve esperança de acordar, eu era puxada com mais força pela corrente agora fosca com apenas um leve brilho para o meio da escuridão. Senti o vestido e um pouco do meu braço rasgarem em alguma coisa afiada na parede, provavelmente algum dos malditos espelhos, meus pés também estavam cortados, e até juro que passei por algo muito quente, mas por pouco tempo, pois já mal andava, era mais a corrente que me puxava por pouco por cima do chão. O odor infausto me dava ânsias, mas ainda pior foi ser puxada para cima mais rápido ainda, segurei a corrente pelo elo que estava mais perto do pescoço, se essa subia demorar muito talvez eu não chegue com ele inteiro. De súbito  a corrente parou de me puxar e de subir, e logo estava suspensa pelo pescoço, usando o que sobrara de minhas forças para não sufocar, tentei gritar por ajuda mas só um arfar engasgado escapou junto com o último fôlego. “Claro” – Disse uma voz doce e sibilante. E com um clique metálico, o elo se partiu e cai no chão. Assim que tomei folego pensei que iria ser novamente aquela baforada pestilenta, mas não, onde estava, aqui em cima talvez, o ar era suave e cheirava a rosas e a madeiras diferentes, nunca soube o nome de alguma arvore pelo seu cheiro, somente meu vestido ainda fedia a pestilência de lugares inferiores. Conseguia ver melhor aqui em cima, archotes em forma de palmas estendidas brilhavam com uma chama branca e bruxuleante, até onde eu percebia, estava em um imenso circulo de pedra, e bem no centro uma elevação em caracol serpenteava certa altura para em seu topo exibir um trono branco como a aurora. As colunas do círculo iam muito alto, além do alcance da luz, mas todas tinham um padrão reptiliano, com grades escamas de um verde vivo em algumas e um dourado fosco em outras, e mais algumas brancas. O trono tinha a forma de um dragão enrolado em uma serpente, não dava de saber se os dois estavam em um embate ou se apenas eram para ostentar algo. Os apoios laterais eram como duas grandes peçonhas, o grande circulo estava cheio de runas e outros desenhos no chão, cenas de batalhas e mortes, com varias criaturas e homens, não consegui distinguir direito com a pouca iluminação, mas eram feitos com pedras cortadas de maneira perfeita, todas as cenas pereciam estar em folhas ou em um tronco de arvore, minha apreciação acabou quando novamente a voz sussurrou. “Ainda bem que você não recusou o meu convite, desculpe a insistência, mas se você não viesse acabaria sendo algo indigesto para você.” A voz feminina sibilava e seduzia de forma estranha, como algo macio que rasteja pelas suas costas e se enrosco nos seus cabelos. Esforcei-me para ficar de pé, estava ensanguentada e com o vestido em trapos, me arrastando pela parede ameacei cair novamente, mas duas mãos fortes me seguraram pelos ombros e me mantinham de pé com facilidade, eram rugosas, ou escamosas, não conseguia ver quem me segurava, somente estava ali forçada a ficar em pé.  Ela desceu pela espiral do trono segurando algo em sua mão esquerda, não consegui saber logo o que era, mas assim que vi a boca dela ensanguentada com gotas escorrendo pelo rosto, olhei novamente e reparei os anéis no toco da mão, com metade das falanges já só com os ossos e alguns fiapos de carne pendurados que ela saboreava, e brincou acenando com a mão para mim refestelando-se com os dedos mortos. O contraste da cena era aberrante, uma mulher jovem, de cabelos brancos ensanguentada com os restos do cadáver devorado. O vestido era dos mais atrevidos com poucos cortes de tecido que faziam senão exibir as curvas serpenteantes de seu corpo trajava também um único e comprido manto verde escuro e escamoso.

“Não há muitas coisas belas a se fazer em um buraco não acha? Eu mesma fui obrigada a achar algum passatempo, e de vez em quando para não morrer tédio brincar com os espelhos que você viu.” – Ela se aproximava e me olhava com o âmbar ofídio que parecia ter luz própria, e me encarava de cima a baixo, dando a volta em meu redor, estava muito fraca para retrucar algo, e tentei em vão um arfar de “Por quê?”. Vendo o meu estado deplorável, ela continuou a andar e a falar em uma língua estranha, forte e pesada, mas ainda com o tom ofídio. A sombra que ela fazia na elevação do trono era estranha, maior e mais disforme do que a da mulher em minha frente, e se movia de maneira estranha. As mãos que me seguravam agora me forçaram a olhar para aqueles olhos grandes e reptilianos que trouxeram uma calma estranha, fascinante. A luz inundou meus olhos e fui tragada para cima, e estava em uma bolha amarga que foi ficando vermelha e quente enquanto subia, assim que emergi a luz ficou fosca, e vi corpos caindo de uma arvore, e depois, outra maior ainda partida em vários pedaços, e cada pedaço era parte de um espelho, ouvi barulhos de metal se chocando contra metal, elmos partidos e adagas perfurando costelas. Os pelos de minha nuca se eriçaram, eu conseguia sentir o ar pestilento ainda no meu rosto, eu estava na visão e ainda estava na frente dela, ela dividiu minha percepção em dois e eu senti que minha mente ia rasgar a qualquer momento. Um guincho alto de algo sendo arrastado e depois o trincar de madeira me fizeram olhar para cima, um emaranhado sem fim de raízes de arvores cobria toda a minha visão de cima, e um rosnar profundo encheu meus ouvidos, algo veio rápido pelas minhas costas e começou a me envolver e a me levantar muito alto, era algo viscoso e quase tirava meu ar. A criatura tinha um corpo enorme, não saberia dizer ao certo seu tamanho, e possuía vários braços da metade do corpanzil para cima, todos se arrastavam e tentavam segurar algo, passei bem perto deles ao ser levantada pela criatura, e ela me segurou bem em frente a sua boca. Milhares de dentes em uma mandíbula humana em um rosto monstruoso e sem olhos refletiam a saliva escorrendo e o cheiro de morte, e a criatura grunhiu em direção as raízes, mordeu e mastigou um grande naco delas, e me colocou em uma elevação próxima as raízes. Tentei olhar para baixo, mas a criatura estava se enroscando na borda e impedindo minha visão, sua boca escancarada salivando algo que fazia uma leve fumaça verde subir de onde encostava, e ia corroendo aos poucos as beiradas da encosta. Comecei a andar para trás para ameaçar uma corrida, mas bati com as costas em algo que fez um barulho metálico, e a coisa se afastou e bateu devagar em mim novamente, e novamente. Assim que me virei o horror novamente tomou conta da minha visão, corpos enforcados, pendurados por correntes em uma arvore muito bela, mas estranha, contando eles vi nove ao todo, mais nenhum ao andar em redor dela. A serpente estava parada me observando, se enroscando na elevação com todo seu volumoso corpo, devia fazer algo para sair dali, qualquer coisa para acordar, mas a serpente não dizia nada, só olhava para os corpos, alguns podres, outros ainda frescos, mas definitivamente mortos. Enquanto giravam lentamente em suas correntes, notei que todos tinham o olho esquerdo faltando, e que algo estava iluminado no fundo de suas órbitas vazias. A corrente do corpo maios próximo afrouxou e ele parou bem em minha frente, me fazendo gritar e a serpente sibilar com algo de apreciação. O corpo estava entre os menos afortunados, sem uma perna e com roupas muito estranhas, um terno verde escuro e um cabelo muito bem arrumado, no que restava da cabeça, pois metade estava aberta por algum ferimento cheio de vermes agora. Sua órbita esquerda incidia uma luz forte, mas concentrada, algo que estranhamente eu precisava ver, e assim que me aproximei para olhar o fundo de sua órbita, suas mãos podres seguraram meu rosto agora rente ao seu, e eu não conseguia me soltar, só gritava por ajuda até que comecei a ver no fundo de seus olhos mortos, algo se formando, um lago calmo com um casal passeando em sua beirada de mãos dadas, ela olhava para o reflexo do lago, e ele para o pescoço dela, quando ela soltou sua mão para procurar algo na margem, ele a atacou por suas costas e a estrangulou, meu pescoço doía e eu consegui ver um pingente na margem, na forma de dois círculos, e caí completamente desfalecida nas aguas escuras, tocando o fundo do lago momentos depois, e as visões começaram a ficar mais rápidas e fortes, e eu sentia tudo, me queimava e me cortava, morria e nascia varias vezes, e vi pessoas me traindo e morrendo, e eu matava e ensinava, colhia uma maçã e orava sozinha em uma casa escura na luz de uma única vela, e as raízes se quebravam e eu sentia chover lascas de madeira, ouvi correntes quebrando e um sibilar ruidoso, parecia que algo estava morrendo na minha mente, como quando você quer se lembrar de algo que se esquece para sempre, e veio o trovão…

Azul refletido na água

Caindo num mar de lascas de reflexos e muros enormes de reflexões, o avermelhado agoniante deu lugar a um azul calmo e gelado, não desconfortável, mas algo que aliviava e me fazia pensar em algum momento melhor, algo que eu não havia vivido ainda, ou talvez nunca fosse viver, um jardim em tons variados da cor do céu. No horizonte o astro brilhava na linha do fim do mundo, maior do que eu poderia imaginar, muito perto, e sua luz e tudo mais se mesclava e era uma coisa só, mas havia algo que chama a atenção ainda mais que o astro descomunal, era uma pequena casa de vidros espelhados, com seu reflexo voltado para dentro varias vezes, as portas altas e esguias com ferrolhos delicados, as janelas fechadas e a cerca na altura da cintura, estava a alguns metros de distancia, mas ainda assim dava de sentir que havia algo dentro dela, algo para mim. Andando pelo jardim, pois não havia outra maneira de chamar um descampado tão grande e padronizado com arvores e canteiros e fontes e estatuas todas de tons variando entre o claro e o escuro, mas nunca tão escuro que chegasse perto do preto, ia chegando perto da casa e vislumbrando toda a beleza secular desse paraíso atrás da porta azul. Mais perto, percebi finalmente algo que não estava na mesma cor de tudo que eu podia ver, tirando meu vestido e meus sapatos, um homem no beiral da varanda da casa espelhada, sentado em uma cadeira com um livro aberto e as pernas bem esticadas. Ele se concentrava na leitura, até eu pisar nas lajotas dentro do cercado da casa, imediatamente ele virou os olhos azuis profundos como as centelhas divinas em minha direção, e acenou me chamando para sentar ao lado dele. Receosa, mas cheia de um sentimento de confiança, sentei do lado do senhor, parecia bem velho, usando óculos com largas hastes e lentes bifocais, sobrancelhas grossas como um par de asas, e um cabelo rapino, com as suíças lhe dando uma aparência única e respeitável. Era esguio, mas robusto para a idade, me cumprimentou com palavras calmas vindas de uma voz forte. “Fique a vontade Celine, enquanto eu puder estar aqui eu lhe responderei suas duvidas”. Duvidas era um gracejo do senhor, obviamente, ser arrastada por espelhos e perseguida por criaturas medonhas eram o de menos, e trazer objetos das ditas alucinações, porque não quero acreditar ainda que isso tudo acontece enquanto eu estou sóbria, eram coisas irrelevantes. Talvez a pergunta seja… “Porque eu? Não há mais ninguém que queira ter fobia de espelhos e escadas? O que eu tenho haver com isso?”. Eu disse em um tom meio choroso até, você ficaria com pena só de ouvir. “Você precisa estar nisso até os ossos, porque o que eu acredito que você chama de conforto depende e muito de suas atitudes, e mesmo sem querer, você é inata nisso, até agora não errou em nada quando julgada pelas trapaças e artimanhas do outro.” O outro… Vamos ver se meu palpite esta certo… “O de boca grande que não queria me ver aqui?” “Ele não sabia que eu iria interferir, pensou que eu só observaria enquanto ele movia seus sentimentos e sua percepção até onde ele quer que eles estejam.” “Eu sou a cobaia de um verme psicótico?”. “Por ai Celine, mais o verme psicótico é algo que você não pode entender, nem se vivesse mil vidas.” “E você pode resumir essa compreensão talvez? Eu tenho uma hora até o almoço.” “Há uma batalha eterna, em uma árvore mística que é a realidade das realidades entre uma ave e um verme que ocorre desde o princípio de tudo, talvez até antes.” “Rápido demais, aceito alguns detalhes.” “O que você sente e o que você viu é o que vai mostrar quem há de vencer, se a lépida cobra ou a honrosa ave, tudo depende de como você se sente e se vê garota.”. “Certo, você quer dizer que, no meio dessa loucura que provavelmente é um sonho, o que significa que devo estar dormindo a umas duas semanas ao menos, eu tenho de me sentir bem para tudo acabar bem?”. “Não é tão simples, venha e veja.” O senhor levantou da cadeira e largou o livro em suas costas com certo descaso, o livro caindo com as paginas abertas tinha a capa coberta com runas estranhas que estavam meio que acesas, mas nada importou depois. Assim que ele deu alguns passos para fora da casa, um vento fortíssimo e gelado passou pelos meus ossos, senti até algumas lembranças voltarem, e tudo piscou rapidamente e se borrou, e depois rachaduras apareceram no canto de tudo que eu via, e por fim depois de limpar o borrado e suturar o rachado tentando não entender, mas sim sentir, me vi em frente a uma arvore com vários espelhos pendurados por cordas, todas amarrando os espelhos com nós de forca, e os espelhos giravam preguiçosamente no sentido da brisa que agora me arrastava até um deles, onde o senhor estava de pé, parado e olhando para algo no fundo dele, fez um gesto curto com a mão para eu me aproximar, e aos poucos tudo era o reflexo. Nove espelhos enforcados por grossas cordas giravam e mostravam coisas diferentes, e em cada um que eu me perdia em olhares eu me via mais jovem, mais velha, formada em uma faculdade que eu nunca fiz, morta por um amigo, matando alguém amado, tudo estava ali, e era real para mim, eu sentia o gosto de sangue e a alegria da contemplação, uma vida cheia e uma vazia, sem importância, logo a brisa se tornou um vento forte demais para eu ficar parada, e o homem me segurou pelo pulso com uma mão forte, e o vento balançou os galhos, até os espelhos baterem uns contra os outros, ou contra o tronco da imensa arvore que os segurava, e se estilhaçaram sonhos e vidas que nunca vivi, e os pedaços dos cacos de vidro polido e refletido eram jogados no ar como cinzas, e assim se espalhavam por todo o lugar como uma nuvem azul coruscante. O vento agora soprava as carcaças vazias das molduras douradas e prateadas, de madeira e de bronze dos espelhos das vontades, das verdades, e do que foi e do que vai e pode ser e aos poucos, parando a ventania, a madeira escura que sobejara dos cacos espelhados começou a verter um líquido purpúreo que caia lentamente, e depois subia em bolhas e fios disformes arredondados, que ao tocar novamente o oval amadeirado formavam um novo espelho, mais escuro do que o que agora pairava em círculos lentamente ao redor da imensa arvore. “Isso irá acontecer ainda mais oito vezes menina, agora que você conseguiu entrar no topo de suas memórias, você tem de descer novamente para ver o outro lado, as nove faces que podem libertar-lhe ou assombrar o resto de seus dias.” “Como assim subir? Você sabe que aquela porta – Disse Celine apontando para um vazio onde ela deveria estar – Estava no ultimo patamar dos lances daquela escada transparente, e, aliás, qual é a daquela escada? Eu poderia ter…” “Morrido? – Disse o homem rapidamente – Seus cortes sararam, sua mão e suas roupas estão intactas… Não, se você morrer o resto também perece você não poderia ter morrido.” Não foi uma resposta muito satisfatória, mas acho que era tudo o que eu conseguiria dele. As cenas nos espelhos mudaram, agora não era somente eu neles, mas várias pessoas, tudo estava acontecendo ali, menos em um dos espelhos, que não girava com o vento, e estava com a corda esticada até a sua base tocar a grama em redor da arvore, ele a queimava com seu toque, e a imagem era o meu reflexo, e eu fiquei algum tempo olhando ele, e ele estava com um tapa-olho no lado direito do rosto, e dele escorria um fino fio vermelho, que quando chegou no meu queixo eu vi subir lentamente como uma bolha, uma dor horrível dominou minha visão, e eu tive que fechar e esfregar os olhos até passar, e o reflexo não estava mais no espelho, cheguei perto para ver se havia alguma outra visão como nos outros, mas nada. Assim que virei de costas para o espelho, só pude ver o rosto horrorizado do senhor apontando para trás de mim, e uma mão me puxou pelo ombro com força na direção do espelho e algo se enrolou na minha cintura, me puxando para dentro e para cima do vidro polido, e tudo que era azul e calmo ficou vermelho e agoniante, e eu subia e subia e subia…