Poço sem Asas

 

Nas asas embaladas pelos ares quentes e pesados de um árido campo agora devastado jazem faces voltadas para a grama vermelha e com os dedos trincados em espadas e dentes envoltos em línguas estranhas.

Os sons de harpas ficaram presos nas gargantas e nos olhos que buscavam um coração ou uma cabeça, agora estão envoltos somente pelos címbalos do holocausto, o sacrifício foi ofertado sem um só homem ser consultado, fardos de arpões agora carregam o peso putrefato do monstro que derrotou as hostes dos homens. Duas quedas desastradas por uma mente pérfida orquestradas para um novo rumo dar, a uma história sem gosto ou vitória de uma raça aquebrantada e a muito estupefata com a queda de tão gloriosa empreitada.

Os papéis se desfizeram como nó de aprendiz, perdidos agora para sempre, do destino um chamariz, levem-nos para os poços ardentes e os julguem com tridentes, não era assim que se diz?

Não, o pior vai ser a exortação e a eternidade como uma torção que não liberta mas demora, os cravos na testa cegam mas não imploram, ainda choram como que cientes de que um dia até a eternidade acaba, mas até lá não são cascos que batem rindo em espasmos, mas asas que se ajeitam em um trono parco e sem nenhum marco, simples cadeira debaixo de um arco, com cruzes e espadas postas lado a lado, quem sabe a diferença entre uma inspiração e um bom agrado?

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Calígula

Não, errado não, impaciente, não venha me dizer que você consegue ouvir por mais de alguns segundos o que a lascívia fala e o que a mascara carrega.

É fétido, podre, o odor infausto fica impregnado no colarinho e você ainda se pergunta: “Por quê?”.

Pois bem, não se começa dessa maneira, é a mais vulgar, mas combina com a situação e com ela.

Sabe quem é? A língua desalmada que percorre vários lugares e, diga-se de passagem, de trapo não tem nada.

É couro, é veludo que acaricia a primeira vez, mas da segunda vez é áspera, felina, você sente o carinho mas sabe que a sensação não esta certa. Vou dizer por que o fogo não se mistura com o veneno. Não, não fui eu que me inflamei e difamei o que se achava menos favorecido, não fui eu que plastifiquei meu semblante para me tornar a nova constante. Apenas empurrei aquela pequena vontade infeliz para o melhor lugar que encontrei.

Não, não há tapetes ou armários, só a sobriedade.

E daí que minhas armas têm perjuras? Se com o veneno minha coroa é ungida e a cerco de setas?

Quem poderia dizer que o efeito seria não letal, mas lento, uma ampulheta feita de óleo e água, aonde esta o tempo?

Você se pergunta se é a pessoa certa para fazer o papel, se é o seu ato, a sua hora.

Não desvie de ser pisado, ao contrário, mude a cena, diga sua fala e segure as lágrimas, não há mais de quatro que merecem vê-las mesmo.

caligula

Manobras

Desviado do acaso esbarrando em belo vaso triste memorias

Regadas ao acaso simples comoção da morte do atraso, não é

Raso o descaso do belo sarcasmo, vitória da memória simples

E sem glória, vide de seixos coloridos em alaridos de balidos

O purpúreo som da ameixa sem tom deixa a vida sem brecha aonde

Possa passar as frestas dos clarins e oboés da festa, esta que

Atina na rotina e atesta o fim do jardim triste sem mim.

Dor de cores

Não se sabe o nome dos ventos que batem no rosto e levam os momentos do outono para outro sem dono, o que valeu não foi uma flor cheia de espinhos, mas sim o caminho que a daninha tapava, muda muda de favores o que não sabe mais até onde chegam as dores, quem mais leva para longe os passos e os ecos do átrio das memórias, lustroso chão polido com pensar e recordar, fez de alguém um mais além, vinde a mim todos os que estão soltos e estranhos, e seremos juntos um como vários, não outros, nem fora das mentes, mas os que falam e os que criam o coração, não é vida batendo mas batalha sem noção, entre ferro, fogo e sangue é aonde se faz valer a minha tentação, encarnada no lábio dos símplices que em poucos invernos tornam o marejar um inferno, mas uma fenda entre eles separa para o seu bom fim a minha ira em sufocamento carmesim, as cores das dores devem começar assim.

O fio

Solto ele correu a linha dos contornos que esculpiram o concordar, leve bater de asas a voar e nebular a distancia dos sonhos ou dos momentos que cabem dentro de uma sacola. Uma pastilha dois laços de cabelos e três anéis, um de plástico, um de borracha e outro de ouro, mas era apenas lata polida, sem vida. Cortou assim que tocou, o dedo se partiu em dois momentos, o alento de saber o leve contento, e a evasão da pura ilusão. Ela sabia dele, e fez mesmo assim, fechou com botões e fitas azuis e verdes, fez um pequeno carnaval dentro do batedor, mas era falho. Não o que ela pensava, bateu, e aconteceu, sobraram os pedaços caídos na calçada, algumas lentes que jorravam um líquido rubro e coruscante, brilhavam como um sol sem céu no meio da noite.