Calígula

Não, errado não, impaciente, não venha me dizer que você consegue ouvir por mais de alguns segundos o que a lascívia fala e o que a mascara carrega.

É fétido, podre, o odor infausto fica impregnado no colarinho e você ainda se pergunta: “Por quê?”.

Pois bem, não se começa dessa maneira, é a mais vulgar, mas combina com a situação e com ela.

Sabe quem é? A língua desalmada que percorre vários lugares e, diga-se de passagem, de trapo não tem nada.

É couro, é veludo que acaricia a primeira vez, mas da segunda vez é áspera, felina, você sente o carinho mas sabe que a sensação não esta certa. Vou dizer por que o fogo não se mistura com o veneno. Não, não fui eu que me inflamei e difamei o que se achava menos favorecido, não fui eu que plastifiquei meu semblante para me tornar a nova constante. Apenas empurrei aquela pequena vontade infeliz para o melhor lugar que encontrei.

Não, não há tapetes ou armários, só a sobriedade.

E daí que minhas armas têm perjuras? Se com o veneno minha coroa é ungida e a cerco de setas?

Quem poderia dizer que o efeito seria não letal, mas lento, uma ampulheta feita de óleo e água, aonde esta o tempo?

Você se pergunta se é a pessoa certa para fazer o papel, se é o seu ato, a sua hora.

Não desvie de ser pisado, ao contrário, mude a cena, diga sua fala e segure as lágrimas, não há mais de quatro que merecem vê-las mesmo.

caligula

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Buried Eyes

 

Os passos largos e apressados jogavam gotas grossas de agua no caminho de Dirk, as mãos no bolso procuravam pequenas coisas para distrair a tensão de estar no meio da cidade a esta hora da noite, mas era preciso.

Ele mesmo quis estar ali, mas nunca poderia prever o tipo de situação que iria ocorrer, talvez nem mesmo eu ou você conhecêssemos algo assim, talvez nunca iremos, mas Dirk conheceu.

De uma ruela mal iluminada um rosto virou e a tatuagem em forma de meia lua e garfo foi reconhecida, o rosto correu, jogando o cigarro pra trás e empurrando alguém para a entrada da ruela, Dirk correu.

Caixas voavam e pés rápidos e temerosos espalhavam agua das poças negras e fétidas, o homem tatuado corria sem olhar para trás, desviando de portas abrindo e passantes desapressados, ele empurrou outra pessoa, um mendigo que estatelou a testa no chão, Dirk continuava em seu encalço.

Não lembrando mais do que procurava no bolso da calça tentou agora o bolso da jaqueta, mas sabia o que queria, não era permitido portar armas na seção oeste, a muito elas haviam sido banidas do uso pessoal, desnecessárias, mas ele sempre soube contornar esses detalhes legais.

O homem tatuado continuava a corrida frenética para um mercado atulhado de raça e cores, palavras estranhas berradas e placas de neon piscando intermitentes, hipnóticas como a luxúria.

Dirk agora apontava sua .44 tentando um tiro limpo, mas havia muitas pessoas em sua frente, e matar um infeliz qualquer não ajudaria em sua situação atual.

Ele guardou o ferro no coldre e botou a mão em sua têmpora esquerda.

Por um nano segundo o mundo apagou, mas foi lento demais para os seus novos olhos sequer notarem a diferença, as pessoas agora tinham textos com nomes e datas, peso altura e formação, tudo fluindo rapidamente para o córtex paralelo de Dirk, uma maravilha da tecnologia, a emulação da coisa física virtualmente, mas em um ser vivo.

Ele sempre teve medo de acabar como os primeiros testes, mas eles eram passado, os boatos aonde as pessoas adquiriam varias personalidades frias e melancólicas, apenas realizando tarefas simples repetitivamente até alguma falha, e as falhas para os sujeitos de testes normalmente significavam o descarte.

Limpando esses pensamentos que embaralharam por um segundo as leituras dos sensores ópticos de Dirk, ele se concentrou na tatuagem e no rosto e um contorno vermelho se formou no seu campo de visão, batimentos cardíacos acelerados, o cheiro do suor era estranho, oxidado, e Dirk sabia o que estava acontecendo, a fonte não iria aguentar mais essa corrida.

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O Galo de Berith

Antes de tudo, peço desculpas, desculpas a mim mesmo, por ter omitido aquilo que eu mais prezo aquilo que é parte de mim e eu deixei de lado por besteiras e bobagens, o pouco no muito.

Cada linha é uma alegria diferente, é um mundo estranho e meigo, cheio de caveiras e arvores, por quê?

Pois sou assim, dentro de mim habitam vários monstros, converso com alguns as vezes, mas estão trancados, talvez eu os solte por precisar da ajuda deles, afinal, eles me moldaram por anos, me fizeram forte e decidido, frio e brincalhão, a antítese de mim mesmo.

Agora o que eu penso é numa bateria de carro partida, no meio de uma rua infestada por criaturas, as minhas, se bem me lembro, tinham uma membrana rosada cobrindo seu corpo, e algum tipo de gosma nojenta e fedida, o tipo que gruda como o que fazemos depois do clímax, o tipo que fede como agua parada na rua.

Ela tinha duas pernas grandes e compridas, as coxas poderosas e os três dedos das patas impulsionavam elas para frente, atrás de uma presa ou somente correndo e talvez se comunicando, o que interessava é que antes não tinham olhos, talvez algumas coisas não devam ter olhos, mas elas devem.

Por quê? Porque assim é mais cruel, assim elas te veem, te veem no escuro, embaixo d’agua, te veem até cegas.

Andar é um apelido carinhoso, para o bambolear de joelhos e passadas desconexas que elas chamam de movimento, se esfregando e caindo toda hora.

Babando uma quantidade incrível de saliva, seus dentes formam duas fileiras de luas pontiagudas, em contraste com os olhos, os dentes são enormes e tortos.

Os braços são curtos demais para agarrar ou arranhar, mas estão mudando, muita coisa esta mudando.

Uma película membranosa agora se estende das costas arqueadas até as pequenas garras, e esporões saem de seus cotovelos e calcanhares.

Seria algo como um galo do inferno, talvez esse seja um bom nome, e ele não é uma invocação.

Ele é uma alma torturada, alguém que trabalhava muito, acordava cedo, fazia a sua vida de maneira normal e agradável, tinha esposa e filhos, até um cão. Mas ai ele foi moldado, o cachorro adoeceu, ficou louco. Mordeu a filha mais nova que contraiu raiva e passou por um tratamento caríssimo, mas sem recuperação, não durou 6 meses na clinica, forçada a entrar em coma para se recuperar, nunca mais despertou. A mulher em desespero tomou uma dose maior do que devia de antidepressivos, mas a quem culpar? Ele claro, o marido. Ele deu o cão de presente a filha no aniversario de 9 anos, ela havia pedido, a mãe não achava boa ideia, mas mesmo assim, um cachorrinho sempre alegra a vida de uma criança não? Não?

E aconteceu, ele se perdeu nos pensamentos, a gordura acumulando nos lados da barriga. Caindo pelas calças. A casa desarrumada e cheia de lixo, sem visitas algumas, ele não sabia mais o que era um amigo ou um parente.  Nunca teve uma crença forte, foi a algumas missas, alguns cultos, mas nada que ele pudesse pedir ajuda, pois nada ia o ouvir, a não ser um pequeno chiado.

Como sempre andava bêbado, não estranhou uma névoa avermelhada descer rolando por baixo de sua cama e envolve-la. Era morna e agradável, como as caricias da ex-mulher,  a covarde que desistiu e o havia deixado sozinho.

Então ele ouviu.

– Pai? Pai você ta ai? Eu to com frio pai, me abraça.

A voz era da única coisa que ele ainda se lembrava com amor, a filha, Lidia. Estava na porta do quarto, apoiada no umbral da porta, as mãos se cruzando na frente com a delicadeza que só uma garotinha consegue tirar de qualquer situação.

– Pai, ele ta preso agora né? Ele não vai vir de novo né?

Desesperado, ele apertou a colcha da cama, o suor escorrendo da testa e fazendo uma linha desconfortável nas costas.

-Ele quem docinho? Ninguém vai fazer nada com você. Dessa vez eu juro que vou dar a vida por você…

A voz morreu tentando se levantar da cama, mas estava preso. A névoa era como um carpete fino, mas presente, o quarto havia escurecido demais, e as lâmpadas eram borrões amarelos muito longínquos.

– Então você aceita dar a sua vida por mim papai? Aceita?

A voz era certo como o dia, ou a noite, o apelo era algo mais claro agora, ela queria pra sempre estar livre, de onde quer que esteja.

– Sim querida, tudo o que você quiser. TUDO!

Berrou o homem já se soltando o transe e fechando os punhos, decidido, iria salvar a sua filhinha se tivesse a oportunidade, mesmo que lhe custasse tudo, já que não havia mais nada a perder.

– Venha, me de a sua mão!

Agora o cenário estava pronto, a cena perfeita para um desaparecimento, uma família falida, e um fantasma com uma oferta.

Assim que Moore se levantou e foi com passos pesados em direção ao que ele achava ser sua filha, notou que não tinha mais controle sobre seus pés, iria aonde quer que ela quisesse, mesmo que fosse  o inferno.

Ela estendeu a pequena mão e o olhou com aqueles olhos, aqueles grandes olhos castanhos, o sorriso cheio de dentes, estava alegre.

Ele olhava fixamente para a mão dele, como que hipnotizado pelo momento, os segundo que ele se demorou pensando o quanto seria feliz ter sua filha novamente, foram o suficiente para o seguinte ocorrer.

A sombra da garota projetou-se para toda a sala, as luzes se apagaram, e agora a mão estendida era grosseira e oleosa.

O único brilho na sala eram os dos olhos dela, mas estavam mais altos, muito mais altos, um bons dois metros e meio talvez., e eles se curvaram até a mão gorducha de Moore e a espetaram varias vezes. Não foi uma mordida, foi um beijo, uma sentença. A mão de Moore começou a inchar mais ainda, e os ossos se torceram dentro do seu corpo, os cabelos caíram todos, e a pele se dissolveu em uma crosta oleosa, algo como uma membrana rósea.

A boca se escancarou e os dentes caíram todos, dando espaço para o novo par de mandíbulas, maior e mais pesado.

As coxas rasgaram a calça de brim como se fossem de papel, garras brotaram de onde seus dedos haviam encolhido ,seu hálito estava pior do que antes, não muito, mas agora havia algo mal nele.

Uma coisa digna de nota, é que os galos de Berith adoram cachorros, tanto que brincam com eles normalmente, até lhes dão de comer uma vez ou outra.

O selo estampado na testa do galo é prova de que é posse de Berith, Lorde da Goetia, Chave Inferior de Salomão, Senhor de 26 legiões de condenados.

A lança da Rainha da Noite

Havia no meio de um profundo bosque, um templo dedicado aos prazeres e aos pecados da noite, cintilava como uma joia perdida no deserto, e sacrificavam-se animais e faziam-se orgias em nome da rainha da noite, mas agora o mármore negro não refletia sequer um fecho da crescente, e há muito metade de sua fachada fora destruída por mãos vingativas. O templo de Naamah. Fazia séculos desde que alguém trouxera algo do agrado da Rainha da noite, toda sorte de presentes lhe era jogada em tempos mais áureos, mas agora nem os maldosos profanadores pisam nas terras sagradas para saquear algo, pois não há mais o que se levar.
Os cabelos de Celine ondulavam na brisa, como que se acariciados e tratados por um amante delicado, mas aí é onde findam as doces metáforas, e onde começam os dias de guerra, a lança pendendo leve em sua mão, segurada quase pelo final de sua haste poderia mostrar imprudência ou até mesmo cansaço, mas o fôlego nunca lhe falhou, tampouco ela mesma ofegou, e desceu por entre um outeiro e um pequeno bosque para não chamar a atenção. Cansada de ouvir seus passos na pedra ela desceu mais ainda para dentro do bosque, e viu que não era tão pequeno assim, apenas estava escondido por uma depressão do que ela pensara ser um vale. O barulho de agua lhe trouxe um alivio, sabendo que deveria agora estar bem perto do templo da Noite, dias atrás em uma pequena estalagem quase na saída do reino Celine ouviu de um velho que se divertia assustando jovens guerreiros com uma história sobre uma deusa em um poço que estava presa por um descuido do acaso, e que recompensaria fartamente aquele ou aquela que lhe cedesse a luz da lua e a brisa noturna junto com um jarro de vagalumes e mel. Parecia uma empreitada fácil até ai, mas o velho sisudo que juntava trocados para continuar falando da deusa e conseguir suas bebidas havia entrado na parte mórbida de seu conto, onde todos os que tentaram salvar a deusa agora estavam plantando petúnias pela raiz. O motivo das falhas dos mais nobres cavaleiros até o mais reles dos salteadores é a maldição de Naamah, o guardião de seu templo, e cárcere da deusa diz-se que era um antigo sumo sacerdote da luz da aurora, um homem forte e bravo que caiu nos encantos da rainha da noite e perdeu as bênçãos da dama da manhã. Como vingança, ele vigia toda a noite o templo da deusa cativa para que a lua não apareça sobre ele, nem vagalumes e tampouco abelhas. O guardião da luz, agora amaldiçoado, havia jogado a deusa em um fosso feito com seu rancor e remorso, e proibido a entidade de desfrutar de quaisquer luzes. Naamah era tida como apreciadora da arte, da dança e de tudo que se relacionava a boemia e a criatividade, e para isso na noite, é preciso haver mesmo que uma fraca luz para se deleitar com as obras dos poetas, mas no fundo do poço, nem luz nem som penetravam a sólida escuridão que a cada dia levavam a deusa as beiras da sanidade. Não demorou muito para Celine conseguir mais do que os contos do velho, nada que algumas boas doses de caridade não facilitassem. E em pouco tempo Celine partira com um vidro de mel, um pote vazio no alforje, a sua pedra de amolar e a lança. Lutar com uma lança não é fácil, à distância e a habilidade em usar o corpo de contrapeso como se fosse um pendulo em uma dança constante com a haste de metal. Celine conhecia bem esse ritmo e sempre mantinha a longa e chapada ponta da lança tão afiada que facilmente cravaria um vinco em uma pedra. Agora muito perto do templo de Naamah, Celine sentia um arrepio lhe percorrer a espinha, a noite ainda estava por vir, mas quanto mais ela ia adentrando o bosque, mais escuro ficava o dia. O frio seguiu-a o tempo todo, e esperando o dia morrer para começar a sua caçada, preparou duas fogueiras, uma para se esquentar a noite, e outra apenas a alguns metros de distancia para desencorajar curiosos ou animais, ela havia visto alguns movimentos por entre as arvores mas não achara trilha alguma. Voltando aos afazeres, Celine destampou o jarro e pegou um pouco de grama molhada perto do rio, botando no fundo dele junto com uma pedra que emitia uma fraca luz azul.
Em pouco tempo o jarro parecia uma pequena constelação, com vagalumes pousados levemente nas folhas brilhando na noite como um fogo fátuo. Preparada para a ultima tarefa, entrar no templo e achar alguma maneira de fazer o luar entrar nele, Celine não havia notado o quão escuro estava agora, a noite supostamente devia ser estrelada pela época do ano, e a cheia deveria estar agora cintilando prateada no véu estelar. O frio a fez apertar a haste da lança com força, e mais decidida, preparou os presentes para a deusa e apagou as fogueiras com terra, levando algumas brasas para espalhar pelo caminho, assim ela poderia saber por onde voltar caso se perdesse. O clima da noite pareceu fugir cada vez que ela se embrenhava mais no bosque, e todas as luzes em volta morreram, até que sobrou apenas o jarro com os vagalumes e a pequena pedra cintilando em azul, mais alguns metros e ela finalmente achou algo que deveria ser um pavimento muito antigo, a terra e a tempo cobriram e gastaram quase todo o caminho, mas mesmo apenas com a tênue luz ela conseguia ver bem aonde deveria ir.
Quase todo o som em seu redor havia morrido, apenas um barulho de agua e algo distante que talvez lembrasse um soluçar, mas antes que Celine conseguisse pensar em qualquer suposição um clarão de luz afogou seus olhos e a cegou por uns instantes.
Por entre os dedos que ela usara para se proteger da luz, os contornos de uma figura altiva cintilavam em uma armadura dourada, empunhando larga espada e com um escudo quebrado a seus pés, agora o efeito do brilho já passara, e ela podia ver o rosto belo e forte do cavaleiro, seus olhos faiscavam em rubro, e sua mão apertava o punho da espada com a mesmo ferocidade com que rangia os dentes.” Mais uma alma fadada ao fim pela minha espada, não podes fugir pois entraste no meio de minha vingança, mas podes baixar a arma e ter uma morte rápida”. Celine não respondeu nada, somente apertou o nó do alforje e botou o jarro com os vagalumes no chão.
“Sofrerás com a cegueira da luz e com a opressão da escuridão, assim seja tola”. E o luminoso guerreiro brandiu a espada, e por um breve momento em que a luz refletia na lamina, o reflexo dele parecia com outra coisa, gasta, velha e purulenta, ela não havia prestado a atenção, mas agora sentia um forte odor que parecia ser o sumo de sepulcros.
A luz retraiu-se até contornar apenas a armadura do guerreiro, mas continuava forte em sua espada. Com um movimento súbito o guerreiro avançou em sua direção com uma estocada agressiva, urrando em nomes há muito não usados, em uma língua gutural e grotesca. Assustada com tamanha violência, Celine desviou a estocada para o chão e usou o contrapeso da lança para acertar o guerreiro no lado de sua cabeça. Ele parecia ter saído de toda a sua pompa e civilidade e se voltado para algo mais animalesco, tentou chutar o jarro mas foi impedido novamente pela haste de ferro que o acertou na canela. Logo a dança começou em redor ao jarro, enquanto a fina luz azul piscava e era inundada pelo brilho da armadura do guerreiro, Celine girava os golpes procurando levar o guerreiro para trás. Não com intuito de vencer, ela sabia pela força da primeira estocada que se fosse desatenta seria seu fim, mas queria aproveitar toda a luz do guerreiro contra ele, e assim circundou entre lança e espada a dança que durou vários minutos, e ela já havia visto o suficiente do que queria, até achar algo parecido com um templo atrás do guerreiro. E aconteceu um descuido, a lança não conseguiu aparar a força dos golpes de espada, que não pareciam diminuir nem se cansar, enquanto ela estava perto do seu limite, sentiu o sabor do próprio sangue que salpicou seu rosto, um golpe mal bloqueado de baixo para cima acertou seu quadril, fazendo a lanceira recuar vários passos.
“Sem luz, sem salvação, sozinha e morta por culpa da própria corrupção.” Segurando o sangramento com a mão, Celine correu para trás, em direção a fraca luz do jarro, o guerreiro rosnando e blasfemando em seu encalço. “Volte aqui vadia!”. Alcançando os vagalumes, ela segurou o pote que quase escorregara em sua mão ensanguentada, e mergulhou nas sombras do bosque. O guerreiro sem paciência alguma brandia a espada luminosa como fogo cortando arvores e praguejando, até que viu em um canto perto de uma pilastra uma pequena luminosidade azul. “Chegou teu fim invasora, morra.” E ele avançou violentamente com uma estocada que atravessou a coluna e ouviu o barulho de algo se partindo, seriam os ossos da lanceira? O guerreiro tirou a espada da coluna, mas não havia sinal de sangue.
Dando a volta ele viu uma pequena pedra azul cintilando no chão, e se arrependeu de sua prepotência assim que sentiu a lança lhe perfurar o torso e o pregar na coluna. Ela já havia sofrido com o tempo e com a espada luminosa, a estocada de lança foi o coup de grasse para a coluna, que caiu pesadamente sobre o templo, derrubando boa parte da fachada que agora era irreconhecível. O Guerreiro ficou preso na viga de pedra, os olhos voltados pra o céu que parecia ter sido despido de um manto de negrume e agora era um altar de estrelas com a lua ornando a abóboda celeste. Celine improvisou uma atadura com um pedaço de sua camisa rasgada, pegou o jarro e o mel e caminhou até entrar no templo. Círculos escavados na pedra estavam espalhados pelo chão, todos com alguns metros de diâmetro, altares com vasos vazios e estantes com pilhas de papéis mofados, em nada o templo lembrava o esplendor que foi detalhado vivamente pelo velho da estalagem.
Um soluço e um choro baixinho vieram de algum lugar no escuro do templo, ao dar os primeiros passos para dentro, uma luz forte azulada iluminou o archote na parede, e aos poucos as luzes foram iluminando um caminho que serpenteava os círculos e as estantes até um poço, este iluminado propositalmente pelo buraco aberto a pouco, os raios lunares embebedando as bordas do poço aos poucos, até que chegaram exatamente em seu centro, e o choro e os soluços pararam. Algo se arrastava lentamente poço acima, Celine abriu o pote e deixou os vagalumes saírem, e um a um, como que em transe, eles voavam delicadamente para dentro do poço. Depois ela tomou metade do mel, que desceu com vagar por sua garganta, era denso, mas morno, e a fez se sentir bem do cansaço da luta. Uma nuvem cinza pareceu borrar a visão dela, saia do poço e tinha um aroma doce e inebriante, uma calma sem igual inundou Celine e ela afundou de joelhos no chão, passando a mão no quadril notara que não doía mais, e somente sua mão ensanguentada lhe mostrara que não estava participando do mundo onírico, mas sim ainda acordada. Uma melodia de harpa se fez atrás dela, e quando Celine se virou, lá estava ela, em todo seu esplendor.
O vestido negro com os ombros a mostra, seios fartos e olhos negros como o abismo, seus dedos ágeis laceavam a harpa como se ela fosse feita do mesmo material que o desejo e a perdição, e entoou uma melodia em uma língua também a muito esquecida, mas leve e agradável aos ouvidos.
“Libertadora da Rainha da noite, é um bom titulo não acha?” Disse a mulher na língua comum, cada palavra que saia de sua boca parecia depravada, não esperaria menos da deusa da noite e de seus sortilégios.
“Peça, peça e será concedido, deseje e de pronto será atendido, se quiser a lua peço para o artífice do céu lhe fazer um pingente mais brilhante que a aurora, se quiser amores darei a você rios de luxuria e de prazer, se a vida acha curta tornar-te-ei imortal para compor comigo as melodias do anoitecer, peça e será teu. “Celine levantou-se d seu estado inebriado, e caminhou lentamente na direção da deusa, se aproximou de seu ouvido e sussurrou a sua vontade. “Apenas isso? Não, terás mais, muito mais, por agora farei a tua vontade, mas me espere em teus sonhos e em suas noites.”
E o templo logo ficou para trás, assim como a garota que andou pelos perigos do bosque e enfrentou o cárcere da deusa sozinha, agora seguia adiante uma lanceira de armadura negra, sua lança agora era o trovão, e vingança era o hino estampado em sua feição, assim seguiu Celine, rumo à perdição.

 

Fundo Raso

O trocado voou e acertou um pano, gasto e comido milhares de vezes no mesmo lugar aonde. As mãos apertavam ou seguravam para o vento não levar

Perdido o que se faça para conseguir o tilintar, vem então a triste decisão, de tentar ao menos no chão os pés tocar.

As feridas se espalham como lagrimas no rosto e cobrem aonde não se pode ver, ainda mais num dia como hoje, onde o que se conta nos olhos não se mostra na alma.

Alma que alias também confundem como lama, densa, maleável se bem irrigada e seca se mal colocada.

Não acabaram os dias então cruzo os dedos e jogo os dados para esperar um trem ou um tapete, a velha de mil e um dias que não aguenta mais as noites.

Ele assoviou uma cantiga antiga de 1990 e poucos, e pensou atrás e não achou nada, e pensou na frente e ainda estava tudo borrado, mas agora ele pensou e assim ficou e se espantou.

Acabem com ele antes que mate a nossa querida, mas não o matem, torturem-no com noites em dias e sonos sem sonhos, tirem suas cores e seus gostos, e ainda mais, não lhe deem o rosto, que seja roto.

Enquanto a forma ia se desfazendo e como a cada dia ruma aos últimos passos ele ia se mexendo, hora andava hora se arrastava, e o chapéu sem fundo tilintava duas moedas de prata com águias enroladas.

A poeira agora caia dos joelhos gastos, não em preces ou crença, mas para procurar aonde foi que esqueci minha presença.