Asas, Veneno e Sangue [Segunda parte]

O copo ficou cheio metade da tarde, Otto serviu-se de um bom rum mas não conseguiu tomar nem um gole, não pelo fato de ele não querer, vontade vem mesmo depois de tanto tempo, mas olhar as inscrições na chave lhe despertou uma curiosidade como um carrasco que acende uma pira para queimar alguém em Salem. – Dois pensam, cheios e vazios, e aqui, aqui é areia, tem de ser areia…

Alguém bateu na porta três vezes, batidas suaves e ritmadas, perfeitas.- Muito cedo. Grunhiu Otto, arrumando a gravata e virando o copo de rum.

Boa tarde senhor, poderia me dizer se Anne está? Era um homem alto de feições leves, novo, devia ter uns vinte e cinco anos. Usava um terno preto com colete lilás, mais alinhado que Otto, mas ele não admitiria, nem que precisasse viver novamente para isso. O seu consolo era o olho tonto do jovem, mas que deve ter sido visto só na imaginação do meio vivo, pois o jovem parecia perfeitamente normal para a idade, dois braços, duas pernas, todos bem encaixados.

–        Ela saiu, for jantar com um amigo, deve demorar mais umas oito horas para voltar, você deve entender melhor essa juventude não?

–        Para ser sincero senhor?

–        Otto, Otto Dielfov.

–        Eslavo?

–        Canadense com amor, e você?

–        A, desculpe-me a falta de educação, sou Perseus D’Alene

–        Grego?

–        Como o senhor sabe?

–        Gosto de mitologia, e não acredito que um cara possa matar uma mulher com um espelho.

–        Bem, não me importaria em esperar ela, é um assunto urgente sobre Ellene.

A menção do nome fez Otto estremecer, ele conhecia o jovem, e sabia o motivo da visita, só estava torcendo até agora para ele ter outros motivos. Até a chave escondida dentro da garrafa seria um motivo melhor que Ellene, não ela.

–        O que tem Ellene garoto? Disse o homem agora, as faíscas de ódio crepitando das órbitas de seus olhos, o punho cerrado, mas cuidadosamente fora da vista do mensageiro.

–        Só vim para dizer que ela pagou a dívida, a chave é sua Bravo, e a garota também, mas não estranhe se ela não reconhecer Anne, o preço foi bem alto.

–        Como assim alto? Ela já nem tem mais centelhas de vida, a séculos, o que ela prometeu?.

–        Isso é entre ela e o Sr. Penny, nunca me falaram nada, e não me pagam pelas perguntas, mas pelas respostas.

–        E quais as suas respostas para mim mensageiro?

O jovem se aproximou em passos lentos de Otto, e tocou seu ombro levemente, a mão apertou um pouco, e ele abaixou a cabeça olhando para os sapatos brilhantes e bem lustrados do meio morto.

Dois pingos acertaram o chão e formaram dois círculos rubros, os olhos do garoto estavam vermelhos e lagrimas ensanguentadas desciam pela sua face, era como ver uma estatua de bronze chorando. De novo Otto teve a sensação do olho tonto, algo estava mal encaixado.

– A chave vai para Anne, Ellene também, e você vai para o Deus do Deserto.

–        O feiticeiro louco? Prefiro voltar a viver e pagar as contas do que passar um dia ao lado daquele palhaço.

–        As cobras não morrem, mas se morderem a língua perecem, e as peçonhas vão ajudar quando o folego faltar.

–        Adoro adivinhas, mas essas me parecem muito venenosas…

O jovem tirou um lenço vermelho do bolso e secou as lagrimas e o chão.

–        Desculpe a bagunça, mas você me conhece.

–        Sem problema, só desejaria que em vez de sangue fosse vinho tinto.

Ele fez uma breve reverencia e saiu pela porta, depois ela se fechou sozinha e ele ouviu um estalo e areia arrastada contra pavimento.

-Olha, não vá atrás dele, é perda de tempo. Falou Otto para o sofá, e aos poucos a forma feminina e inocente de Anne foi preenchendo o vazio agora ocupado.

–        Eu não iria, você não sabe o quanto eu estou exausta. Ela usava um par de tênis coloridos, shorts e um pijama com luas e nuvenzinhas o estampando.

–        Você parece uma dessas gurias de catálogos de…ah, esquece ,o que você pretende fazer agora? Ellene esta de volta, mas como você ouviu, talvez mudada.

–        Não me interessa isso agora, ela sabe o que faz, e sabe onde me encontrar também.

–        Mas Anne…, ela ficou tanto tempo longe…

–        O que você sabe? Só esta aí para assegurar que eu faça exatamente o que o Sr. Penny quer, mas e agora? Por que você ainda esta aqui?

–        Eu não vou voltar, não preciso. Essa era minha missão, e vai continuar sendo, estar com você, mas não como um cão de guarda agora… Ellene…

–        Como você pode dizer isso? Você não a conhece, não sente o que eu sinto por ela. Desculpe-me Otto, mas não, você não vai ficar do meu lado, você não vai me ajudar, eu só estou aqui para confirmar que você não vai mais me seguir, porque eu vou saber

–        Ela se virou e olhou para a janela, o dia estava morrendo e parecia que ia chover, Otto andou calmamente até o bar, pegou uma taça de vinho e encheu-a com algo entre dois ou até três séculos de idade.

–        Amargo, gosto de como você se expressa Otto, amargo mas ainda assim bom.

–        Escute-me, e saia pela janela, não vai ser fácil você sair pela frente do prédio agora, não é o Penny ao menos, mas logo terei visitas.

–        Eu sei quem é, demônios escamosos, iguais ao idiota que me atacou. Você deveria sair também.

–        Não se preocupe você precisa só levar a chave e as anotações, eu te encontro em um lugar mais frio, agora vá.

Os passos do lado de fora da porta eram pesados e lentos, talvez cinco ou seis, se der sorte é só um com vários sapatos, não será problema, só preciso pensar aonde vou dissecar a coisa, são muitos e vão notar a confusão.

Anne pulou pela janela com a mochila que continha a chave e as notas, logo em seguida alguns barulhos bem distintos, uma moto acelerando e descendo a rua, um sibilar incessante atras da porta de entrada do apartamento, e algo metalico estilhaçando a porta em lascas de madeira e escamas.

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Cinza

 

Amargo é um gole, um trago que desce lentamente,  não enojando ou dando ânsia, mas sim espesso como mel. Um dia e o outro seguem parecidos, se forem iguais não tenho a quem me lembrar não uso ou desuso o acaso, sou folha verde em maré no raso, se há algo dentro de mim, é ruim e não tem mais fim, acaso sabes até onde eu iria?Há como medir a distância dos sonhos e das vontades?Consegues tu?Creio que imaginar não é pecado, é condenação livre da comoção, é se amarrar com correntes de laços e volteios nos regaços. Olhar para o nada e querer ver tudo longe das cordas, longe de um beijo e de um olhar, ah, um olhar. Doce, sincero triste, alegre, mas vivo por tudo o que eu posso ou não parecer, vivo, por favor, não me deixe com esse peso de mais de mil agulhas no que não deveria nem sequer ter escrito o nome não tenho fúria ou raiva, mas a inveja bate a porta, e o arrependimento mora há tempos. O que um simples rapaz homem pode querer se não há mais nada para ter?O que espero do futuro senão tempo sem vento ou provento, longe do alento, quero uma simples canção, aos pés de uma árvore com as sombras a me proteger da luz do verão, não, não, não. Complicar é querer ser o aparecer do outro ver, longe de ter o que realmente merece esclarecer, as voltas que dou não terminam no começo mas findam no meio, o bonito é triste, é confuso e não é nada, é cinza.