Asa de Fada

Enquanto uma folha girava e pendia solta embriagada nos passos do vento, o som dos galhos rangendo e um crocitar ao longe moldava o escuro da noite, mais escura que o costumeiro, sem lua ou estrelas, apenas com as pesadas nuvens de chumbo marchando lentamente pelo véu noturno.

Sentia as gotas pesadas batendo no casaco e nas abas do chapéu, meio desconfortável com a lama prendendo os sapatos toda hora, andar no descampado na frente de uma tempestade e com algo oprimindo minha vontade era meu último desejo para esta noite, eu não precisava ter de caminhar tanto, mas o carro ia ser muito barulhento e as luzes iam chamar a atenção, precisava ser calmo e esperar a chuva e uma chance de entrar no galpão.

Três sombras caminhavam calmamente pela sacada de madeira contornando os lados e os fundos da estrutura, uma porta pesada de ferro estava trancada com uma corrente envolvendo  duas grandes alças como um enorme cadeado enferrujado. As sombras paravam e conversavam umas com as outras, pediam fogo e acendiam cigarros, tomava algo de uma garrafa de vidro escuro, com metade sua escondida por um saco de papel. Depois de dar a volta no galpão e quase perder os sapatos atolados da lama, a chuva deu uma trégua e resolveu só acariciar de leve meu casaco e lembrar que meu chapéu estava pesado.

Uma das sombras decidiu sumir atrás de uma porta na lateral onde as luzes eram mais fracas e se podia ver o cintilar de toda a cidade, como um sonho perdido no meio da madrugada, talvez como os meus que me empurravam a entrar no meio do nada para procurar algo tão estupido.

Aqui as coisas começam a ficar estranhas.

Assim que os garfos celestes pararam de iluminar o céu, um barulho bem menos imponente quebrou a canção da chuva nas telhas e nas poças, uma porta rangendo devagar e abrindo com cautela, as botas batendo encharcadas nas tabuas e deixando marcas escuras de água e lama, e depois de algum tempo desaparecendo e se mesclando com a quietude escura do armazém.

O que aconteceu foi um momento para se acostumar com as pequenas fontes de luz espalhadas, monitores, cigarros e uma luz amarela que piscava apontando em um fecho sem nada para iluminar. Andando por entre as colunas de madeira um cheiro forte de algo doce e suave impregnou meu casaco e deu a sensação de calor, segui o aroma com cautela até chegar a um poço de pedra, e uma luz forte brilhava no fundo dele.

O barulho de algo brusco se movendo e a ponta escura que atravessou meu casaco e meu peito foi quase uma das ultimas coisas de que me lembro, levantado dois palmos do chão, fui atirado como um boneco de pano no poço e comecei a cair em direção a luz, se não morre-se pelo ferimento a queda faria um bom trabalho ainda, mas senti um leve puxão no rasgo nas costas do casaco e minha queda se suavizou, mas só consegui ver a copa de uma arvore e uma sensação de mergulhar em uma banheira de água morna, e tudo se apagou com um barulho que de longe lembrava um leve bater de asas.

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Na arvore da mensagem não há reflexão

Batendo a ponta do lápis na mesa, sem querer Celine pontilhou algo parecido com um raio, meio torto para a esquerda, mas um raio definitivamente. Ela se lembrou de que tinha de lavar a louça quando chegasse em casa, alimentar o gato, e talvez se alimentar também se tivesse estomago. As escadas eram agora a sua melhor opção, e os espelhos da casa estavam virados para as paredes, ou com algum pano grosso em cima. As colegas de Celine notaram que sua maquiagem estava meio borrada, mas não ousavam falar nada, afinal era ela quem fazia o café todos os dias no escritório. Alias um confortável conjunto de cubículos dispostos em um tedioso quadrado no terceiro andar de um prédio que já poderia ser considerado patrimônio histórico, assim como seus outros habitantes noturnos. Mas só daqui a um dia o escritório teria alguma relevância, agora ela estava indo para a casa, numa velocidade normal, em uma vespa normal, amarela atualmente. A garagem era meio fria por culpa de algumas infiltrações, mas a capa em cima da moto a protegia contra qualquer efeito indesejado, e afinal, Celine não dormia na garagem mesmo. A subida penosa foi aliviada pelo sofá confortável e os chinelos gastos que ela ganhara havia três natais de algum parente que não sabia o que lhe comprar, tinham a forma de uma serpente no pé esquerdo, e de um belo pássaro o direito, nunca se perguntou o que um tinha a ver com o outro, não agora. Em sua pagina em uma rede social bem intempestiva às vezes, ela havia recebido algumas solicitações de amizade, uma delas era do homem que ela reconheceu do bar a algumas noites, depois ela decidiria o seu destino na vida virtual dela. Agora ela tinha de terminar alguns relatórios sobre a rotina de outras pessoas, e tentar estudar um pouco para as provas de fim de semestre, dormir era facultativo.

As marcas de café na mesa formavam vários círculos, uma embalagem com um lanche pela metade estava pendurada no canto da mesa, perigosamente até, o tédio tomou conta de Celine depois de uma hora de estudos e meia hora de trabalho, decidiu ficar as próximas três horas fazendo nada sentada, passeou por sites de horóscopos e procurou sonhos com espelhos, achou a mesma coisa em todos eles, casamento, sorte se a superfície brilhar, morte se o reflexo for distorcido e outras coisas que impediram meu sono de chegar tranquilamente, alguns números para jogos de azar e uma pedra de nome estranho que supostamente protegeria meus sonhos se eu a botasse em cima do monitor.

Valeria a pena passar o meu dia de folga procurando algo mais palpável talvez na biblioteca da faculdade antes do almoço, amanha era o dia que eu passava mais tempo longe de casa, as vezes nem chegava a voltar, ia direto para o escritório. No meio das minhas divagações e do tempo gasto na frente do monitor, o aviso da minha caixa de e-mail começou a piscar no canto da tela, não reconheci o remetente lendo o endereço, e também a hora havia avançado bastante, a lua no topo da abóboda celeste pendurada por uma fina camada de estrelas e nuvens, virei a cadeira para frente da mesa, estava com o pé dormente já, duas horas sentada em cima de uma meia preta com os dedos rosas me fizeram parecer uma gárgula de alguma dessas catedrais góticas ou o que quer que seja. O remetente realmente estava embaçado, não acho que minha visão tenha piorado tanto, estava realmente borrado o endereço, havia dois anexos na mensagem, um com extensão de um tipo de imagem, e o outro era um arquivo de texto. A fonte da minha caixa de entrada também parecia diferente, ao menos nessa mensagem abri outras duas para me certificar, e realmente, só esta sem remetente e com dois anexos é que estava com uma fonte mais rebuscada, algo muito pessoal, parecia a caligrafia de algum cartografo de centenas de anos atrás. Uma chuva fina começou a tamborilar na janela atrás de mim, algumas gotas acertaram a caveira estampada na meia e minha nuca, produzindo um arrepio desnecessário para quem esta com sono, fechando a folha que estava aberta, notei que havia um par de olhos refletidos nela, havia dias que eu não encarava nada que pudesse me refletir, mas agora houve um descuido, e eu pude ler o endereço da mensagem corretamente olhando para fora no reflexo das gotas, as luzes da cozinha e do monitor piscaram e apagaram, o mundo escureceu e perdi a força nas pernas, o que fez o chão do apartamento derreter e me engolir em uma bolha que me sufocou até eu perder os sentidos, e eu só conseguia lembrar o nome de coisas tolas.

Dois copos

Até a borda era como uma torre marejada de gotas douradas começou

Ele desamarrou os sapatos e atirou as meias longe, mergulhou e caiu de cabeça no meio do vento.

A segunda era mais densa, as gotas agora eram rubras e escorriam como as lagrimas das viúvas.

Dançando nervosamente, as mãos dela tremiam, mas o agarram na cintura e a segurança dos giros a fizeram delirar como um grande salão de sonhos.

Depois veio algo mais achatado e largo, e era como mel, e o gosto era fel, desceu pela garganta fazendo um escarcéu.

Pulou, e correu, correu e correu até perder o equilíbrio e saltar o mais alto que pode. Agarrou-se nos ramos que sobejavam da murada com a ponta dos dedos, mas falhou, e um deles escorregou, e caiu, caiu, caiu…

O ultimo era como uma frondosa arvore na primavera, o verde brilhava como um par de asas que batiam nas botas, e desceu como um caçador abrindo a barriga de um lobo.

Vazando pelo cheiro, a visão turva e o enjoo não ajudaram em nada, mas tinha que sair dali, já havia acabado com ela, era só sair da espelunca e me aprumar em um motel sujo no fim da rua, nada mais…

Uma hora entre o Sete e o Oito [Oitava parte]

Não estava escuro, não no circulo bem no meio da torre do farol. Ao menos eu devia estar no farol, mas o lugar iluminado fracamente parecia um pequeno jardim com uma grama baixa e algumas rosas, e uma arvore escura e torcida por algum vento ruim bem no meio. Não sabia disso, não vi em lugar algum, as referencias acabaram no carro ensanguentado, me segurei nas paredes, mas só consegui me apoiar no ar, não era real, não estava mais no farol, não estava mais na pequena cidade portuária, não estava mais acordada. Dei a volta na arvore em passos curtos, minha respiração e a grama sendo amassada eram os únicos sons, até um soluço infantil sair de onde eu não enxergava, atrás da arvore. Com cuidado, fiquei a certa distancia da arvore e levei o spray de pimenta à altura dos olhos de algo infantil, não sabia o que ia encontrar, mas segurar aquela lata de alumínio me fazia sentir ainda ter algum contato com a sanidade e a realidade. Deitada nos braços de uma mulher com um vestido de várias cores, uma criança com olhos de cores diferentes, chorava com um lado do rosto e ria com o outro, era um rosto, mas era uma máscara também, a mulher acariciava cada uma das faces com as duas mãos, e com as outras duas embalava a criança com leveza e pesar. A face alegre me olhava, a triste não tirava o olho da mãe, e a mulher olhou para a arvore como alguém que quer ver algo além do horizonte. Então a arvore curvou-se, e seus galhos, como duas garras seguraram a criança, a pequena e alva túnica da garota ficou com manchas vermelhas aonde os galhos seguravam, e a mulher no chão ficou desesperada e começou a chorar, suas lagrimas brilharam na fraca luz, mas ela não se levantou para tentar recuperar a menina, agora que havia notado, seus pés estavam presos por espinhos de rosas, e havia algumas que brotavam assim que as lagrimas as tocavam, e eram negras e brancas, assim como as duas faces da mascara da garota. O tronco negro e retorcido agora estava sendo envolvido por algo esguio e escorregadio que serpenteava entre seus galhos e o seu tronco, logo toda a arvore estava tomada pela viscosa aparição, o barulho de madeira quebrando encheu o lugar, e algo metálico arranhar o lado de fora de tudo isso, seja o que for. Um arrepio percorreu minha nuca, quando vi os galhos agora verdes serpenteavam em redor de todo o pequeno jardim, e se enrolavam nas correntes de espinhos que prendiam a mulher. Abriu-se ao meio, bem no topo de sua copa de folhar retorcidas, e dentro dela havia um fedor mórbido e três línguas saltaram para fora e dançavam ao redor da garota, agora as duas faces de olhos diferentes tinham a mesma expressão de terror, e nada atenuou isso, até que os galhos que segurava ela como garras foram se afastando um do outro, e uma luz forte demais para ser encarada começou a sair do meio da garota. Um clarão veio quando os galhos separaram as duas partes da mascara, e depois jogaram os dramáticos restos da agora calada criatura na boca da arvore. As línguas serpentearam o ar e depois agarraram a mascara da garota, e levaram para dentro da maldita arvore, ou o que quer que tenha sido. Não sei o que aconteceu com a mulher, mas ela não estava mais lá, só uma mancha monstruosa de sangue onde ela havia estado. Os galhos pararam de serpentear e a arvore estacou, ainda com a camada verde de tentáculos viscosos, mas agora sem se mover. O silencio e a escuridão foi aumentando, e a única luz vinha da minha fraca lanterna. Na grama, ouvi passos na minha frente, apontei a lanterna, mas não havia nada, tudo havia sumido, ou estava muito escuro. Assim que me virei e tentei sentir novamente aonde eram para haver paredes, senti algo batendo forte na minha cabeça, cai bem próximo a arvore, podia ouvir um barulho fraco de choro infantil, a lanterna estava ao alcance de esticar o braço, mas agora na grama ouvi passos pesados, em uma corrida furiosa, e era algo que vinha em minha direção, um grito fantasmagórico e algum tipo de imprecação em uma língua morta celta, e dois braços fortes me agarraram pelas costas, foi quando eu senti outros dois braços alisando meus cabelos e uma respiração ofegante, o suor ou o sangue deviam estar ensopando minha camisa, eu tremia e perdi toda a noção da realidade, e ela continuou a alisar meus cabelos, cada vez mais forte, e a me apertar, cada vez mais forte, e os barulhos de dentro da arvore aumentaram, e a arvore voltou a se abrir.

A mulher me virou para me encarar, talvez ela pense que eu sou a sua garota, ela tinha a minha altura ao menos, mas quando olhei, as orbitas de seus olhos estavam vazias, e suas mãos estavam cobertas de sangue, e não havia mais pernas, só um corpo de espinhos, lembrava algo como uma aranha, mas com um perfume forte de rosas, aquelas que você põe em cima do mármore frio para dizer adeus.