A lança da Rainha da Noite

Havia no meio de um profundo bosque, um templo dedicado aos prazeres e aos pecados da noite, cintilava como uma joia perdida no deserto, e sacrificavam-se animais e faziam-se orgias em nome da rainha da noite, mas agora o mármore negro não refletia sequer um fecho da crescente, e há muito metade de sua fachada fora destruída por mãos vingativas. O templo de Naamah. Fazia séculos desde que alguém trouxera algo do agrado da Rainha da noite, toda sorte de presentes lhe era jogada em tempos mais áureos, mas agora nem os maldosos profanadores pisam nas terras sagradas para saquear algo, pois não há mais o que se levar.
Os cabelos de Celine ondulavam na brisa, como que se acariciados e tratados por um amante delicado, mas aí é onde findam as doces metáforas, e onde começam os dias de guerra, a lança pendendo leve em sua mão, segurada quase pelo final de sua haste poderia mostrar imprudência ou até mesmo cansaço, mas o fôlego nunca lhe falhou, tampouco ela mesma ofegou, e desceu por entre um outeiro e um pequeno bosque para não chamar a atenção. Cansada de ouvir seus passos na pedra ela desceu mais ainda para dentro do bosque, e viu que não era tão pequeno assim, apenas estava escondido por uma depressão do que ela pensara ser um vale. O barulho de agua lhe trouxe um alivio, sabendo que deveria agora estar bem perto do templo da Noite, dias atrás em uma pequena estalagem quase na saída do reino Celine ouviu de um velho que se divertia assustando jovens guerreiros com uma história sobre uma deusa em um poço que estava presa por um descuido do acaso, e que recompensaria fartamente aquele ou aquela que lhe cedesse a luz da lua e a brisa noturna junto com um jarro de vagalumes e mel. Parecia uma empreitada fácil até ai, mas o velho sisudo que juntava trocados para continuar falando da deusa e conseguir suas bebidas havia entrado na parte mórbida de seu conto, onde todos os que tentaram salvar a deusa agora estavam plantando petúnias pela raiz. O motivo das falhas dos mais nobres cavaleiros até o mais reles dos salteadores é a maldição de Naamah, o guardião de seu templo, e cárcere da deusa diz-se que era um antigo sumo sacerdote da luz da aurora, um homem forte e bravo que caiu nos encantos da rainha da noite e perdeu as bênçãos da dama da manhã. Como vingança, ele vigia toda a noite o templo da deusa cativa para que a lua não apareça sobre ele, nem vagalumes e tampouco abelhas. O guardião da luz, agora amaldiçoado, havia jogado a deusa em um fosso feito com seu rancor e remorso, e proibido a entidade de desfrutar de quaisquer luzes. Naamah era tida como apreciadora da arte, da dança e de tudo que se relacionava a boemia e a criatividade, e para isso na noite, é preciso haver mesmo que uma fraca luz para se deleitar com as obras dos poetas, mas no fundo do poço, nem luz nem som penetravam a sólida escuridão que a cada dia levavam a deusa as beiras da sanidade. Não demorou muito para Celine conseguir mais do que os contos do velho, nada que algumas boas doses de caridade não facilitassem. E em pouco tempo Celine partira com um vidro de mel, um pote vazio no alforje, a sua pedra de amolar e a lança. Lutar com uma lança não é fácil, à distância e a habilidade em usar o corpo de contrapeso como se fosse um pendulo em uma dança constante com a haste de metal. Celine conhecia bem esse ritmo e sempre mantinha a longa e chapada ponta da lança tão afiada que facilmente cravaria um vinco em uma pedra. Agora muito perto do templo de Naamah, Celine sentia um arrepio lhe percorrer a espinha, a noite ainda estava por vir, mas quanto mais ela ia adentrando o bosque, mais escuro ficava o dia. O frio seguiu-a o tempo todo, e esperando o dia morrer para começar a sua caçada, preparou duas fogueiras, uma para se esquentar a noite, e outra apenas a alguns metros de distancia para desencorajar curiosos ou animais, ela havia visto alguns movimentos por entre as arvores mas não achara trilha alguma. Voltando aos afazeres, Celine destampou o jarro e pegou um pouco de grama molhada perto do rio, botando no fundo dele junto com uma pedra que emitia uma fraca luz azul.
Em pouco tempo o jarro parecia uma pequena constelação, com vagalumes pousados levemente nas folhas brilhando na noite como um fogo fátuo. Preparada para a ultima tarefa, entrar no templo e achar alguma maneira de fazer o luar entrar nele, Celine não havia notado o quão escuro estava agora, a noite supostamente devia ser estrelada pela época do ano, e a cheia deveria estar agora cintilando prateada no véu estelar. O frio a fez apertar a haste da lança com força, e mais decidida, preparou os presentes para a deusa e apagou as fogueiras com terra, levando algumas brasas para espalhar pelo caminho, assim ela poderia saber por onde voltar caso se perdesse. O clima da noite pareceu fugir cada vez que ela se embrenhava mais no bosque, e todas as luzes em volta morreram, até que sobrou apenas o jarro com os vagalumes e a pequena pedra cintilando em azul, mais alguns metros e ela finalmente achou algo que deveria ser um pavimento muito antigo, a terra e a tempo cobriram e gastaram quase todo o caminho, mas mesmo apenas com a tênue luz ela conseguia ver bem aonde deveria ir.
Quase todo o som em seu redor havia morrido, apenas um barulho de agua e algo distante que talvez lembrasse um soluçar, mas antes que Celine conseguisse pensar em qualquer suposição um clarão de luz afogou seus olhos e a cegou por uns instantes.
Por entre os dedos que ela usara para se proteger da luz, os contornos de uma figura altiva cintilavam em uma armadura dourada, empunhando larga espada e com um escudo quebrado a seus pés, agora o efeito do brilho já passara, e ela podia ver o rosto belo e forte do cavaleiro, seus olhos faiscavam em rubro, e sua mão apertava o punho da espada com a mesmo ferocidade com que rangia os dentes.” Mais uma alma fadada ao fim pela minha espada, não podes fugir pois entraste no meio de minha vingança, mas podes baixar a arma e ter uma morte rápida”. Celine não respondeu nada, somente apertou o nó do alforje e botou o jarro com os vagalumes no chão.
“Sofrerás com a cegueira da luz e com a opressão da escuridão, assim seja tola”. E o luminoso guerreiro brandiu a espada, e por um breve momento em que a luz refletia na lamina, o reflexo dele parecia com outra coisa, gasta, velha e purulenta, ela não havia prestado a atenção, mas agora sentia um forte odor que parecia ser o sumo de sepulcros.
A luz retraiu-se até contornar apenas a armadura do guerreiro, mas continuava forte em sua espada. Com um movimento súbito o guerreiro avançou em sua direção com uma estocada agressiva, urrando em nomes há muito não usados, em uma língua gutural e grotesca. Assustada com tamanha violência, Celine desviou a estocada para o chão e usou o contrapeso da lança para acertar o guerreiro no lado de sua cabeça. Ele parecia ter saído de toda a sua pompa e civilidade e se voltado para algo mais animalesco, tentou chutar o jarro mas foi impedido novamente pela haste de ferro que o acertou na canela. Logo a dança começou em redor ao jarro, enquanto a fina luz azul piscava e era inundada pelo brilho da armadura do guerreiro, Celine girava os golpes procurando levar o guerreiro para trás. Não com intuito de vencer, ela sabia pela força da primeira estocada que se fosse desatenta seria seu fim, mas queria aproveitar toda a luz do guerreiro contra ele, e assim circundou entre lança e espada a dança que durou vários minutos, e ela já havia visto o suficiente do que queria, até achar algo parecido com um templo atrás do guerreiro. E aconteceu um descuido, a lança não conseguiu aparar a força dos golpes de espada, que não pareciam diminuir nem se cansar, enquanto ela estava perto do seu limite, sentiu o sabor do próprio sangue que salpicou seu rosto, um golpe mal bloqueado de baixo para cima acertou seu quadril, fazendo a lanceira recuar vários passos.
“Sem luz, sem salvação, sozinha e morta por culpa da própria corrupção.” Segurando o sangramento com a mão, Celine correu para trás, em direção a fraca luz do jarro, o guerreiro rosnando e blasfemando em seu encalço. “Volte aqui vadia!”. Alcançando os vagalumes, ela segurou o pote que quase escorregara em sua mão ensanguentada, e mergulhou nas sombras do bosque. O guerreiro sem paciência alguma brandia a espada luminosa como fogo cortando arvores e praguejando, até que viu em um canto perto de uma pilastra uma pequena luminosidade azul. “Chegou teu fim invasora, morra.” E ele avançou violentamente com uma estocada que atravessou a coluna e ouviu o barulho de algo se partindo, seriam os ossos da lanceira? O guerreiro tirou a espada da coluna, mas não havia sinal de sangue.
Dando a volta ele viu uma pequena pedra azul cintilando no chão, e se arrependeu de sua prepotência assim que sentiu a lança lhe perfurar o torso e o pregar na coluna. Ela já havia sofrido com o tempo e com a espada luminosa, a estocada de lança foi o coup de grasse para a coluna, que caiu pesadamente sobre o templo, derrubando boa parte da fachada que agora era irreconhecível. O Guerreiro ficou preso na viga de pedra, os olhos voltados pra o céu que parecia ter sido despido de um manto de negrume e agora era um altar de estrelas com a lua ornando a abóboda celeste. Celine improvisou uma atadura com um pedaço de sua camisa rasgada, pegou o jarro e o mel e caminhou até entrar no templo. Círculos escavados na pedra estavam espalhados pelo chão, todos com alguns metros de diâmetro, altares com vasos vazios e estantes com pilhas de papéis mofados, em nada o templo lembrava o esplendor que foi detalhado vivamente pelo velho da estalagem.
Um soluço e um choro baixinho vieram de algum lugar no escuro do templo, ao dar os primeiros passos para dentro, uma luz forte azulada iluminou o archote na parede, e aos poucos as luzes foram iluminando um caminho que serpenteava os círculos e as estantes até um poço, este iluminado propositalmente pelo buraco aberto a pouco, os raios lunares embebedando as bordas do poço aos poucos, até que chegaram exatamente em seu centro, e o choro e os soluços pararam. Algo se arrastava lentamente poço acima, Celine abriu o pote e deixou os vagalumes saírem, e um a um, como que em transe, eles voavam delicadamente para dentro do poço. Depois ela tomou metade do mel, que desceu com vagar por sua garganta, era denso, mas morno, e a fez se sentir bem do cansaço da luta. Uma nuvem cinza pareceu borrar a visão dela, saia do poço e tinha um aroma doce e inebriante, uma calma sem igual inundou Celine e ela afundou de joelhos no chão, passando a mão no quadril notara que não doía mais, e somente sua mão ensanguentada lhe mostrara que não estava participando do mundo onírico, mas sim ainda acordada. Uma melodia de harpa se fez atrás dela, e quando Celine se virou, lá estava ela, em todo seu esplendor.
O vestido negro com os ombros a mostra, seios fartos e olhos negros como o abismo, seus dedos ágeis laceavam a harpa como se ela fosse feita do mesmo material que o desejo e a perdição, e entoou uma melodia em uma língua também a muito esquecida, mas leve e agradável aos ouvidos.
“Libertadora da Rainha da noite, é um bom titulo não acha?” Disse a mulher na língua comum, cada palavra que saia de sua boca parecia depravada, não esperaria menos da deusa da noite e de seus sortilégios.
“Peça, peça e será concedido, deseje e de pronto será atendido, se quiser a lua peço para o artífice do céu lhe fazer um pingente mais brilhante que a aurora, se quiser amores darei a você rios de luxuria e de prazer, se a vida acha curta tornar-te-ei imortal para compor comigo as melodias do anoitecer, peça e será teu. “Celine levantou-se d seu estado inebriado, e caminhou lentamente na direção da deusa, se aproximou de seu ouvido e sussurrou a sua vontade. “Apenas isso? Não, terás mais, muito mais, por agora farei a tua vontade, mas me espere em teus sonhos e em suas noites.”
E o templo logo ficou para trás, assim como a garota que andou pelos perigos do bosque e enfrentou o cárcere da deusa sozinha, agora seguia adiante uma lanceira de armadura negra, sua lança agora era o trovão, e vingança era o hino estampado em sua feição, assim seguiu Celine, rumo à perdição.

 

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À noite em que o gato sorriu

Uma balança mede dois pesos, sem duas medidas, tem alecrim, galhos secos de algumas folhagens do jardim, e mais algumas coisas que uma amadora faria para tentar chamar alguém para brincar. Nada de mais, algo pequeno e com pelos, provavelmente domestico, e com olhos bonitos, claro. O olhar fala mais para ela, muito mais, ela sabia como os olhos dos outros sorriam, e ela ficava horas fitando o espelho do banheiro, e às vezes os joelhos doíam de ficar em cima do banco de madeira para alcançar sua gêmea do outro lado do mundo. E ela ferveu tudo, e juntou com a vontade e com o desejo de algo simples, mas único, e despejou o conteúdo do pequeno caldeirão em um circulo de pedras coloridas no fundo do bosque, era perto de sua casa, e tinha o barulho de gorjear e de ronronar, mas eram só curiosos, nem de perto pareciam o que a poça de sementes e ramos atrairia. E passou a quarta, a quinta, e finalmente a sexta, e depois da meia noite, ela foi ate o circulo e viu uma pequena folha, dobrada em sementes rechonchudas e brilhosas, o cheiro era inebriante, dava sono e sonhos bons, e ela esperou outra semana, e as primeiras flores roxas saíram dos galhos em forma de setas.

Ai o veio, com vagar, serpenteando entre os galhos e as folhas, e achando a sua vitima, um par de canelas finas, com meias brancas de algodão, e atacou com toda a voracidade que conseguia, se esfregando e ronronando até derrubar a menina aos seus pés, e ter ela sobre seu total controle, era fácil ser assim, dono do mundo, leve como uma lufada, e esperto como um, bem, como eu. E todo dia olhava a plantinha roxa, que a menina cuidava, e todo dia ele se enrolava entre as pernas dela, e ronronava, e se espichava atrás do vestido azul, até o dia em que ela veio com uma tigela. Era vermelha e funda, e estava cheia de leite, ela havia me alimentado, e agora eu estava em débito, a infeliz não sabe da maldição. O carinho começou na planta, mordiscava todo dia um pouco, e ficava com o hálito dos sonhos, e fui falando perto do rosto dela a cada dia, e ela dormia rindo, com a janela aberta esperando me encontrar cuidando do sono dela, e esse era meu dever. A planta cresceu, e ficou do tamanho dela, estranhamente ela tinha o formato de um trono, mais estranho ainda, havia um buraco em baixo do trono aonde caberia um gato, com grandes olhos profundos e bigodes espetados. Acordei dentro do quarto, e a cama dela estava vazia, não pensei em outro lugar, e corri até o trono purpura o mais rápido que o sono deixava. E lá estava ela, bela, parada, com o pijama de cetim até as canelas, e abraçava o trono, sonolenta, e mordiscava as flores até cair em exaustão, e eu fiquei deitado do lado dela, porque eu era o guardião do seu sono, mas a planta trono ficava me olhando com uma cara feia, e começou a conversar comigo, dizendo que era o ultimo dia deles, o trono ia ter uma rainha, e a rainha ia ter um cavaleiro, e os três seriam eternos. As flores pararam de crescer no outro dia, e a menina não sentava mais na arvore só a olhava de longe, e chegou à noite da tempestade.

O vento forte arranhava as paredes da casa, e levou com garras invernais o trono e as folhas, o medo de perder os sonhos entrou no coração da pobre menina, e a melancolia venceu minha guarda, não adiantou miar até perder a voz, ela não respondia, nem a áspera língua entre os dedos, nem as patas no rosto movendo carinhosamente os bigodes, e ela ficou dias imóvel, com a mão estendida para fora da cama, e a tigela de leite secou, até o dia em que achei novamente a rainha e o trono, e do lado do trono um castelo purpura com um rio branco o circundando, e eu tinha uma armadura de caixinhas e uma espada de garras, e ela um vestido de algodão e doces de varias cores, e o trono cuidava do nosso sono todas as noites.