À noite em que o gato sorriu

Uma balança mede dois pesos, sem duas medidas, tem alecrim, galhos secos de algumas folhagens do jardim, e mais algumas coisas que uma amadora faria para tentar chamar alguém para brincar. Nada de mais, algo pequeno e com pelos, provavelmente domestico, e com olhos bonitos, claro. O olhar fala mais para ela, muito mais, ela sabia como os olhos dos outros sorriam, e ela ficava horas fitando o espelho do banheiro, e às vezes os joelhos doíam de ficar em cima do banco de madeira para alcançar sua gêmea do outro lado do mundo. E ela ferveu tudo, e juntou com a vontade e com o desejo de algo simples, mas único, e despejou o conteúdo do pequeno caldeirão em um circulo de pedras coloridas no fundo do bosque, era perto de sua casa, e tinha o barulho de gorjear e de ronronar, mas eram só curiosos, nem de perto pareciam o que a poça de sementes e ramos atrairia. E passou a quarta, a quinta, e finalmente a sexta, e depois da meia noite, ela foi ate o circulo e viu uma pequena folha, dobrada em sementes rechonchudas e brilhosas, o cheiro era inebriante, dava sono e sonhos bons, e ela esperou outra semana, e as primeiras flores roxas saíram dos galhos em forma de setas.

Ai o veio, com vagar, serpenteando entre os galhos e as folhas, e achando a sua vitima, um par de canelas finas, com meias brancas de algodão, e atacou com toda a voracidade que conseguia, se esfregando e ronronando até derrubar a menina aos seus pés, e ter ela sobre seu total controle, era fácil ser assim, dono do mundo, leve como uma lufada, e esperto como um, bem, como eu. E todo dia olhava a plantinha roxa, que a menina cuidava, e todo dia ele se enrolava entre as pernas dela, e ronronava, e se espichava atrás do vestido azul, até o dia em que ela veio com uma tigela. Era vermelha e funda, e estava cheia de leite, ela havia me alimentado, e agora eu estava em débito, a infeliz não sabe da maldição. O carinho começou na planta, mordiscava todo dia um pouco, e ficava com o hálito dos sonhos, e fui falando perto do rosto dela a cada dia, e ela dormia rindo, com a janela aberta esperando me encontrar cuidando do sono dela, e esse era meu dever. A planta cresceu, e ficou do tamanho dela, estranhamente ela tinha o formato de um trono, mais estranho ainda, havia um buraco em baixo do trono aonde caberia um gato, com grandes olhos profundos e bigodes espetados. Acordei dentro do quarto, e a cama dela estava vazia, não pensei em outro lugar, e corri até o trono purpura o mais rápido que o sono deixava. E lá estava ela, bela, parada, com o pijama de cetim até as canelas, e abraçava o trono, sonolenta, e mordiscava as flores até cair em exaustão, e eu fiquei deitado do lado dela, porque eu era o guardião do seu sono, mas a planta trono ficava me olhando com uma cara feia, e começou a conversar comigo, dizendo que era o ultimo dia deles, o trono ia ter uma rainha, e a rainha ia ter um cavaleiro, e os três seriam eternos. As flores pararam de crescer no outro dia, e a menina não sentava mais na arvore só a olhava de longe, e chegou à noite da tempestade.

O vento forte arranhava as paredes da casa, e levou com garras invernais o trono e as folhas, o medo de perder os sonhos entrou no coração da pobre menina, e a melancolia venceu minha guarda, não adiantou miar até perder a voz, ela não respondia, nem a áspera língua entre os dedos, nem as patas no rosto movendo carinhosamente os bigodes, e ela ficou dias imóvel, com a mão estendida para fora da cama, e a tigela de leite secou, até o dia em que achei novamente a rainha e o trono, e do lado do trono um castelo purpura com um rio branco o circundando, e eu tinha uma armadura de caixinhas e uma espada de garras, e ela um vestido de algodão e doces de varias cores, e o trono cuidava do nosso sono todas as noites.

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O Cavaleiro Dela

Andando pelas ruas e vielas dos meus momentos

Esbarrei num sorriso e em um par de olhos, o

Fôlego parou, e um silencio se fez no meu coração,

Uma vontade de começar algo novo, de conquistar

Os pensamentos e as vaidades dela, os cabelos negros

Escorriam pelas minhas mãos, os lábios se tocando e

Escrevendo com beijos os sentimentos, ela não sabia

Dele, mas sentia o vazio do ser, de estar em um lugar

E olhar para  as paredes vazias, e querer encontrar as respostas

Escritas a ferro ou tinta, o corpo não julga o que a mente faz,

Mas paga, ele soube dela, e ele queria ela. O gasto, o usado.

O que viu amores definharem e escorrerem como areia entre os dedos,

Ele decidiu congelar o tempo, e guardar o que se pode ter entre

Duas flamas, seja fogo ou só paixão, não sei se arde, mas queima,

A dor lateja nos calos da mão da espada, ela cai e levanta

Uma nuvem de poeira do passado, ele não consegue chorar agora,

Mas sua alma grita rasgando suas entranhas, ela quer a liberdade

De estar com ela, de ser para ela, de protegê-la…