O covarde do deus

Ela parou de respirar assim que a ponta da lança chegou ao chão, os suspiros e as lagrimas quebraram a sutileza, assim como a coroa se partiu em realeza. O vestido farfalhou no pavimento com um vento seco e mordaz, brincando com os cabelos mortos, uma ave gorjeou agourenta sobre nossas cabeças, estava ficando escuro lá fora. Dentro dos muros as vozes se calavam para olhar aterrorizadas a cena, o jovem andando em riste como a lança, segurando a cabeça dela pelos cabelos, arrastando o corpo até o trono. Baixou a lança e a segurou no colo como que se fosse a desposar, e depositou-a em cima do trono grande e duro, talhado com aves e feras, agora sua princesa estava livre dos deveres, e seu amor livre para pregar sua lança nos heróis das outras misérias.

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O Mercador de Segredos [Primeira parte]

 

O prego caiu das mãos tremulas do velho, que agora não sabia mais se precisava pegar, ou se parava até de martelar e serrar.O forma quase animada dançava crepitando nas sombras, lustrando o teto com as mãos abafadas pelo vento, ela era linda.A mais doce e bela donzela, feita do mais puro carvalho e com uma coroa de freixos, era a nova proa do Titania, ou o mais novo peso para acalmar os maus espíritos e passar a falsa paz com  o olhar perdido e singelo dela. O navio estava sendo reparado desde a ultima virada da lua, dois meses trocando mastros e rebites, passando piche e trocando remos, a galera estava agora pronta para mais uma viagem ao sul, mas agora com outra tripulação, os escravos agora eram livres, poucos permaneceram no navio, os velhos demais e os jovens com ânsia de aventura, perto do cais, as casas de pescadores trocavam de lugar as vezes com tavernas e espeluncas, e outras vezes com o mercado para vender óleos, tecidos e perfumes.Mas o cheiro que saia da Ostra Verde fazia jus ao nome da estalagem, em dias como esse era melhor estar no mar com a tripulação a meses sem saber o que é um banho, do que estar no sol a pino do meio do dia escolhendo entre passar mal com as ostras ou com a cerveja azeda.Os dois, não fazia mais diferença depois de seis anos nesse porto. “Não que eu viva aqui, mas é algo parecido com uma casa”. Sempre acabo perto da velha cama de palha e lendo histórias sobre capitães melhores e mais terríveis que remoíam os mares e os ossos dos inimigos, a melhor era do Krushnak De Vorbp, o cão do inferno como era chamado, as velas estavam levantadas sempre, e parecia que demônios uivavam e sopravam ventos fortes e traiçoeiros entre elas, traiçoeiros demais, pois no fim de sua historia, ele se precipitou no fim do mundo, entre um farol e um fortim, esmagando as paredes desse ultimo como se fossem gravetos, mas perdendo toda a tripulação para o resto da frota do Rei, que chegou logo em seguida para salvar a cidade de Mepporeth, já sabia o fim da história, já vi o capitão morrer incontáveis vezes com a espada entre as costelas, estrangulado o primeiro cavaleiro que tentou lhe arrancar a cabeça, não tendo o mesmo êxito com o segundo, Glauhir o chamam, o Chama, pois lutava com os olhos vermelhos de sangue e mãos nuas, ele esmagou a cabeça do capitão do Titania e levou os restos aos pés do Rei, conseguindo o favor deste e da cidade agradecida, neste dia ele deixou muitos descendentes, é o que o povo diz, eu diria que ele criou um exército de bastardos para empurrar um remo ou limpar merda de latrinas mais importantes.

Era fim da tarde quando a nova escultura da proa foi içada, e um senhor de cabelos finos e claros sorria sem satisfação, vendo o destino de sua obra, ele sussurrou algo no ouvido de madeira da escultura, e foi com passos pesados e lentos para o Ostra.