Espiral Translúcida

Em cima da mesa da sala um cubo com areia no fundo, na bolsa dois guizos coloridos juntos por um fio de prata, e depois de alguma pesquisa exaustiva onde derramei café duas vezes em meu pijama e derrubei finalmente a caixa com o lanche que pendia perigosamente na ponta da mesa, ainda estava insatisfeita com meus resultados, talvez tivesse de ir mesmo a biblioteca na universidade conferir melhor o que significa esses sonhos. Não que uma universidade desse a atenção a minhas loucuras, mas talvez em alguma seção de psicologia houvesse livros sobre sonhos ou algo assim, melhor procurar eu mesma do que pagar para alguém me falar algo que eu sei mas não consigo entender. Arrumei um pouco a casa, fiz uma xícara de café, que agora sorvi com calma e olhando alguns desenhos estranhos que passavam pela manha. Terminando de me arrumar, com uma saia simples de pregas, sapatilhas azuis e uma blusa de lã, não sabia mais como me arrumar sem usa o espelho, ou qualquer coisa que refletisse, preciso procurar também o nome da fobia de reflexos e ver se há cura, ou vou ter que pedir para a filha da vizinha começar a opinar sobre como eu estou, o que parecia valido, crianças de 10 anos são bem criativas. Agora evitando o elevador, desci alguns degraus da escada, e percebi que deixei o celular em cima da cama, longe de cafés e de desmaios involuntários, eu estava me alimentando bem, ia à academia, mas eu insistia em desistir da realidade nos piores momentos, na ultima vez fiquei encharcada da chuva. Subi os mesmos degraus que havia descido, e ouvi o barulho de algo quebrando, olhei para o chão, sentindo estar pisando em algo leve, mas não era ali, uma fisgada de dor me subia pelos dedos, e olhei para o corrimão e vi um fio de sangue escorrer para cima, não…não de novo não…

Assim que voltei minha atenção para o corredor onde era meu apartamento tudo estava escuro, só conseguia ver as paredes e pouca coisa do teto, uma fraca luz piscava como em ondas vermelhas e ia descendo pelas escadas. Segurei o corte na mão esquerda e comecei a correr pela escada para baixo, cada passo mais forte fazia o vidro que agora refletia meu horror e minhas sapatilhas, conseguia ver ao menos a uns dois metros pela fraca luminosidade, as paredes pareciam estar pulsando, e havia ranhuras e outras coisas de aparência viscosa. Por medo de quebrar os vidros, e talvez toda a escada, comecei a andar com mais vagar, olhando para baixo conseguia ver o próximo bloco de degraus, o que não me animava nem um pouco. Depois de alguns minutos descendo, a luz antes intermitente e hipnótica de tom avermelhado foi ficando cada vez mais escassa, até que se apagou completamente e sobramos somente eu e os ecos de meus passos no vidro.

Estar sozinha nunca foi meu forte, quando pequena dormia muito com meus pais, e na escola sempre andava com um grande grupo de amigos, claro, tentava ter a atenção que eu desejava, mas era só por medo, só para não ficar sozinha. Caixas de livros e roupas espalhadas era uma visão normal de meu quarto, não ligava muito para a internet na época, e, aliás, hoje só uso por causa do emprego, mas também achei maneiras de não ficar sozinha mesmo morando há cinco anos assim. A idade não me ajudou tanto quanto as pessoas que eu me cercava, e as situações em que me meti, mas ainda assim…

As luzes ficaram apagadas por minutos, ou horas? Perdi-me incessantemente em pensamentos e memórias para evitar que o medo tomasse conta e me fizesse coisas ainda piores, mas foi tarde demais, quando imaginando os piores desfechos possíveis, algo caiu pesadamente em cima da escada de vidro fazendo a estrutura toda tremer. Fechei a mão com o medo e me lembrei do corte latejando ainda, e o sangue subia pelo meu braço ao invés de descer. Alguma coisa havia se partido alguns lances acima, o barulho do vidro se estilhaçando fez meu coração disparar. A luz voltou aos poucos, agora ela ia um pouco mais longe, e ao olhar para cima petrifiquei de medo. Enquanto a luz ia ou vinha em ondas, um sibilante aviso veio logo acima, e era uma cobra, algo parecido com uma ao menos, o corpo volumoso e vermelho com tons estranhos e irregulares cobrindo a pele, sem olhos e com uma boca praticamente humana, mas de um tamanho aberrante. No lugar dos olhos a mesma pela que cobria o resto de seu estranho ser, e varias patas, como se fossem as mãos de milhares de pessoas se arrastando lentamente em redor da escada. Não havia nada a fazer senão correr para baixo, e arriscar alguns cortes, do que esperar o enorme verme serpentear ao meu lado, pois ele descia cada vez mais rápido, e enquanto se enrolava na espiral da escada, trincava e quebrava os vidros, e hora aparecia entre as ondas da luz, hora sumia na escuridão, sibilando e se arrastando para baixo. A intensidade da luz foi aumentando, e conforme olhava para baixo os lances de escadas não pareciam acabar, e para meu desespero quando olhava para cima tampouco o verme parecia diminuir de tamanho, era como se ele estivesse crescendo para baixo, ou não tivesse algum começo ou fim. Já muito próximo de onde eu estava um odor desagradável acompanhava a criatura e entrava como uma nevoa densa pelas frestas trincadas da escada. Comecei a me sentir mal e lenta, não havia comido nada que me lembra-se, mas o que quer que fosse estava perto de eu botar para fora. A luz finalmente se manteve, sem se alternar entre as sombras, e a coloração dela também estava mudando, de um carmesim sangue, para um lilás forte, e por ultimo um azul muito claro.

Por nada melhorei do enjoo que o meu perseguidor me causara, e me animei a correr mais, a impressão de ver alguma coisa diferente dos mesmos lances me fez correr mais.

Não havia percebido que o verme já estava emparelhado no mesmo degrau do que eu, e me esforcei ao máximo, mas em vão, a criatura agora estava a minha frente e serpenteado a estrutura, agora que estava mais perto do fim percebi que logo abaixo havia uma porta grande, seus ferrolhos e maçaneta eram de algo azul que brilhava muito, e o verme se apressou em direção a porta, não sei se foi o certo a se fazer, mas em poucos segundos a criatura iria alcançar a porta, ou me sufocar com seu corpanzil que agora esmagava a parte de cima da estrutura, sentindo os cacos caírem nos meus cabelos, não pensei muito no que fazer, a não ser pular no lance de escadas abaixo quebrando assim os vidros. Parece que a queda durou por uma eternidade, os estilhaços no ar passavam por mim e acertavam o chão, fazendo grandes pedaços espelhados virarem pequenas constelações, todas refletindo o azul forte que a porta emanava. Toda essa leveza que meus olhos presenciaram foi interrompida pelo barulho de minha queda em cima da doce constelação espelhada, que agora ao invés de refletir a bela emanação da porta, refletia em alguns pontos as gotas de meu sangue, acho que talvez tenha torcido o pé, ou as costas, talvez eu tenha torcido tudo, todo o brilho e luz se apagou, e somente a dor e o escuro permaneciam, até que no fundo da escuridão uma porta se abriu, e o sibilar horrendo se encontrou com um grito estridente que me fez sentir um leve frio e um conforto, me senti sendo arrastada e levada para algum lugar macio, penas talvez, e fechando finalmente os olhos ouvi ao longe o barulho de um trovão, e gotas mornas começaram a cair na minha testa.

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A dança espelhada

O sol estava errado, muito longe, e o amarelo parecia fosco e não machucava olhar para a distante bola amarela no céu, que cá entre nós também estava estranho, parecia mais um pano mal esticado e borrado. A areia incomodava, pois entrava na sapatilha o tempo todo, e olhando para o horizonte, eu conseguia ver o reflexo forte do astro falso, estava com um vestido rosa claro, e com uma meia calça de uma cor um pouco mais escura, as sapatilhas eram pretas, e havia um “H” bordado na direita em dourado, e um “N” bordado em vermelho na esquerda, estava lembrando-se de algo, quando o horizonte começou a despencar, e como em uma ampulheta, a areia correu rápido por entre meus pés enquanto o mundo ia inclinado. E duas coisas me fizeram duvidar que realmente eu voltasse a fazer algum sentido, a primeira foi o quebra nozes de Tchaikovsky vir do nada, e a segunda foram as linhas em forma de sapatilha que ficara visíveis assim que a areia escorreu um pouco para a esquerda, e com isso tudo ficou muito fácil. No começo não, claro, conforme eu me movia, o horizonte se deslocava para trás de onde eu acompanhava as linhas dos passos, então além de perfeita eu deveria balancear essa loucura de areia com um pano no lugar do céu e dançar conforme os clarinetes e violinos dentro de uma caixa de areia. Tudo começou a ficar mais rápido, a musica, os passos, nenhuma erro, a areia começou a gastar o fundo do calcanhar de uma das sapatilhas, e uma sombra serpenteou no canto do meu olho, mas a musica e os passos não me permitiram olhar para trás, ou para os lados, somente girar e pular e saltar em todas as direções da melodia entre os grãos. Outra sombra, esta cobria um pouco o sol fosco as vezes, e os clarinetes pareciam seguir sempre os volteios da mancha escura. Vendo ela as vezes parecia ter a forma de um pássaro, e as vezes quando ela passava bem por cima dos traços dos passos e no compasso do clarinete, um calafrio me tomava e  uma sensação de descanso, mas enquanto a sombra que serpenteava o canto dos meus olhos, nunca totalmente a vista, as vezes borrava os meus próximos passos ou ia muito perto , eu sentia sua presença atrás de mim, um fedor tumular e até venenoso me atingiu como uma parede, fiquei meio tonto, talvez fossem os rodopios perto do fim da melodia, e enquanto ela ia acabando, e o sol foi se afastando cada vez mais, até a luz ser como um reflexo tênue da luz do corredor por uma porta entreaberta, e as sombras se encontraram e se enrolaram, o horizonte foi rachando assim como o chão, a areia escorrendo rápida para o centro de tudo, e o pano do céu começou a cair e a me enrolar. O ar começou a faltar e me vi esticando a mão para poder me segurar em alguma coisa, o pano se dissolveu e virou uma torrente incontrolável que escorria como num ralo, de relance no céu a sombra de uma ave enorme passou muito perto, e muito rápido, assim como a sensação boa que ela trazia. Sentia um movimento ainda mais forte que a corrente serpenteando em meu redor, e algo começou a se enrolar na minha cintura e me puxar para baixo, antes de entrar completamente na água um grito estridente quase fez meus ouvidos sangrarem, e a torrente inteira parou e congelou por completo. Um barulho como o de vidro quebrado veio do fundo da água congelada, e uma centelha coruscante e vermelha subiu e acertou alguma coisa que finalmente fez o balé parar de tocar, pedaços de algo que foi incinerado caíram no canto do horizonte e do céu que agora era um infinito  muito próximo, nebulosas e cometas pairavam em um balé muito maior e mais lento, planetas estranhos passando rápido, novamente um calor intenso vindo de baixo, agora a queda foi abrupta, e olhando para baixo só consegui ver uma fileira de dentes em um abismo rubro e pulsante. Um som de farfalhar de asas acompanhou meus gritos, e algo se chocou com muita força com o abismo pontiagudo, deixando no caminho da queda somente o resto do chão rachado com um pouco de areia no caminho, passei como um raio por ele e afundei lentamente em um liquido escuro e morno, as forças saíram completamente do meu corpo, e me deixei afundar lentamente até desmaiar.

Acordei suada e derrubei uma cadeira e metade de um lanche em cima do meu pijama, havia desmaiado em frente ao monitor, a imagem que estava em anexo era distorcida e havia algo escrito, muito sono ainda, e eu estava segurando algo. Olhei para a minha mão e vi um pequeno cubo transparente, com diminutos grãos amarelos espalhados, e uma bailarina parada naquela posição com as mãos para cima juntas e a perna dobrada com o pé apoiado na ponta dos dedos. Havia uma manivela e eu comecei a dar corda, assim que o balé começou e a pequena figura ia fazendo voltas e limpando o caminho com areia, e quando a musica terminou e a areia estava marcada pelo compasso da pequena, a figura de um pássaro enrolado em uma cobra surgiu, e um arrepio de medo e um frio confortável confundiram meus pensamentos.