O pensamento da paixão

Às vezes parto sem razão, esperando de um brando sopro a nova ocasião, feito de trapos e farrapos a espera de alguém para quebrar o grilhão, e em meio as gotas de momentos penso no sorriso que fez as nuvens se desmancharem como que batidas por vagalhão, o doce e crispado trago de um bocado é o que leva o calor novamente ao sangue gelado, o calor das pétalas e o toque dos caracóis, e os dois poços de âmbar que escondem a alegria de coisas passadas que agora são. Não vejo mais um sentido se não perto do que me faz sentir o calor confortável do verão, aquele inverno que me tirou do inferno e me fez o que agora pode ser o melhor entre a escolha e a decisão, os olhos foram abertos e secos eram azuis e pareciam o mármore, frios, mas duros, e não se tem medo do apoio de tal atenção, crendo assim que as vezes desejo somente pensar nas vestes e nos quereres que dizes em um íntimo que agora me é conhecido, não faço cerimônia ou tenho parcimônia para ponderar se era ou é, o conselho mais sábio é viver o presente e saber que fico calmo e melhor quando sei que esta perto, na distância de um abraço e no quente do mormaço, me apego ao que é precioso e pequeno de momento, mas que para atentos olhos é um pilar de certeza, balaústre de inigualável dureza, nem o tempo ou o vento podem abalar ou tentar arranhar a edificação que esta no coração, assim sendo o pouco que me restam de palavras usa para refletir a ocasião, e somente o que me importa é o seu doce arome a sua cúmplice visão…

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Uma hora entre o Sete e o Oito [ Quarta parte]

A moto cortava entre carros e caminhões na rodovia, ela precisava chegar na ponte antes de começar a chover e não poder mais voltar para a cidade portuária.- Isso não pode ser, é só chegar na ponte e anotar os números. Os sonhos diziam a dois anos o que ela devia fazer, com quem ela devia falar, e aonde ela deveria estar, a naturalidade deles espantou ela com o tempo, e ela sempre estava vendo sinais em nuvens, xícaras de café, e até letras de música. É claro que ela pensou que estava louca, afinal trabalhar programando e ajudando gente menos adaptada as tecnologias estressa em níveis inacreditáveis. Mesmo assim no começo ela gostou do jogo, ela teve resultados, viu livros esotéricos com outros olhos, ocultismo e ciência pareciam que sempre foram irmãos, e ela achava estupido como as outras pessoas não enxergavam. Mas ela estava sendo guiada. Ela soube disso quando em um sonho ela acordou, mas a porta do quarto continuou brilhando em purpura e piscando estrelas e sóis, era como olhar a ciranda dos celestes acelerada, e ver tudo começar e acabar varias vezes. – Sempre foi assim. Falou uma voz como o trovão e a tempestade. – O tempo nunca teve que parar, mas agora ele também vai ser obrigado, não sabíamos que isso poderia acontecer, ele era maior antes. Ela encontrava números e fórmulas, runas e cartas espalhadas, escritas ou pichadas, tirava fotos e as colava em um mural bagunçado dentro do armário, depois que o armário ficou pequeno ela decidiu organizar tudo dentro de varias pastas e e-mails com nomes diferentes, ela não podia perder uma pista que fosse, ela estava sendo guiada para o fim, e ele entrou sem querer na fórmula, não pelo acaso, mas sem ela querer, o que ele tinha haver com isso? Mas algo dentro dela sabia que ele não era normal, muito puro, muito parado, ele era o contrario de si mesmo, um paradoxo de óculos e cabelo desarrumado. Ela se viu sabendo latim e outras línguas mortas, e soube que ele também sabia, o sonho falou isso, o sonho falou que ele era tudo, que o tempo dependia dele, mas ele só tinha mais algumas horas aqui, depois de ele ir, todos iriam, querendo ou não, e essa parte ela sabia, só que ele não sabia de nada disso.- É a condição dele, quando for falado tudo vai vir, ele vai se lembrar do que é ser, do que é viver, ele tem a vontade, mas ele foi preparado desde sempre para perder, alguém quer que acabe, alguém achou ele antes, mas parece que sumiu, por breve, mas sumiu. A voz mudava como o fluxo da chuva, como a distância dos raios, mas era séria, era de verdade, ela conseguiu entender isso quando notou que outros também olhavam intrigados para os sinais, será que eles também sabem? Até onde chega esse eco de manipulação? Tanto faz, a moto chegou na ponte, ela anotou os números em um papel, tirou uma foto e mandou para dois e-mails diferentes, garantias eram pouco, quando tudo esta em jogo. Abaixo da ponte o mar rugia inquieto, a chuva começou e ela acelerou em direção a cidade portuária, eram quase cinco horas. Assim que ela passou pela ponte o mar rugiu novamente, e um clarão de trovões iluminou o mar, mostrando as sombras que se mexiam inquietas serpenteando abaixo das ondas.

Ela

Ela não sabia o que era suspirar, ocupada estava com
Emoções a brincar, logo que chegava as palavras sem
Pesar, leve era a atenção a despojar.
Queria alguns dias para saber explicar, como sempre
Acabo num atol no meio do mar, não era pois ela o
Único rumo a tomar?E agora?Fico com as lembranças
Dos sonhos a me contentar?Ela mechia os cabelos com
A melodia do sorriso, o olhar era sempre profundo e
Conciso, deixando em torpor este símplice mestiço, de
Cinza e dor no louco calor do sentido, não há mais
Pontes que liguem esses momentos, só chegam ecos dos
Longínquos lamentos, sem estar atento ao movimento,
Eu sabia que ela seria o fim do sentimento.

Uma hora para Ela

Não sei sobre o que fiz esse texto, são apenas palavras e poucas rimas, escassas até sobre coisas que aconteceram misturadas com coisas que não aconteceram, não é uma história, foi um pensamento.

As luzes do carro do corpo de bombeiros piscavam rítmicas, num padrão meio que mesmerizante. Duas da manha perto do centro da cidade, os soldados vieram após alguns momentos o alarme da construção ter disparado.

-Pode ser um assalto. Falou a mulher aflita. Os anos eram pesados nela, mas mesmo assim não conseguiram tirar sua presença alegre e carinhosa.

-Não é nada Varda, durma, pois esta tarde, o dia de hoje é longo e você não é mais tão nova. A mulher disse algumas palavras doces e beijou o homem na testa, desejando uma boa noite e que fosse descansar também.

-Vou quando for a hora minha senhora. Disse para a janela e para a parede onde sombras azuis e vermelhas dançavam no padrão do alarme. Dois soldados conversavam ao lado da cabine do carro, e outro todo vestido com as proteções adequadas para um incêndio ou até mesmo o risco de algo pior, passeava os fachos de sua lanterna para tentar achar o motivo do chamado. O som do alarme da construção logo foi incorporado e esquecido, como muitas coisas hoje em dia, a comodidade rápida é essencial, ou isso ou todas as complicações e incômodo das doenças do novo século, depressão, estresse as coisas que se importam demais com as pessoas. Voltei para frente do monitor para continuar os trabalhos deixados de lado, e vi uma aba surgir no canto inferior direito, um email novo. Algumas coisas são mesmo imprevisíveis, e até indesejadas, foi o meu caso, ou acaso até. Era o nome de uma mulher que fez parte da minha vida, piscando, com uma bela foto dela, atual pelo visto, os óculos não eram os mesmo de quando ela me deixou, e o sorriso também era diferente. Mas, como pode ser tão fácil notar que os sorrisos mudam com o tempo?Será que algo melhor veio?Será que ela só estava fingindo, para ficar agradável?Tanto faz, o  conteúdo da mensagem era estranho, dois lugares e um horário, sem anexos nem nada.-“Meio dia na Igreja Velha, depois na Capitania”.-É uma brincadeira péssima.Quando algo se move mais rápido do que os seus pensamentos e a sua razão pode alcançar, o melhor a fazer é esperar, e dormir ajuda.Deitei esperando consolo na terra dos sonhos, mas não me lembro se sonhei ou não, só passei do breu da madrugada e do barulho do alarme, para o dos martelos e das serras das construções vizinhas, os operários trocando amabilidades como só alguém sem o ensino fundamental consegue, coisas de uma cidade em tenro desenvolvimento.Eram nove da manhã, três horas apenas para estar pronto nos locais combinados, e sanar a curiosidade que me torturava, dizendo que era outra chance, ou que realmente o gosto pelo sofrimento faz parte da família, histórias longas pedem lugares longos, e este é curto.O tempo estava agradável, nuvens cinzas empurradas pelo vento deixavam o sol passar de vez em quando, e  estava fresco para a época.Estacionei o utilitário preto em frente a igreja católica do centro da cidade, o que chamam de Matriz.Todo o desespero e curiosidade e qualquer outra coisa que eu estava pensando sumiram, foi como se o passado me olhasse de soslaio, e o  presente invadisse minhas idéias e motivos.Ela estava parada em frente a nova Casa de Cultura. Usando um vestido curto preto, botas curtas e meia-calça para cobrir a alvura de suas pernas, coisa que eu já conhecia e sentia arrepios só de pensar. O cabelo estava bem amarrado num coque com dois prendedores em forma de palitos, ela estava com óculos diferentes dos da foto, esses me eram mais familiares, mas os olhos falavam sobre tudo. Claro, após um bom momento onde eu me perdi e tentei entender eles novamente, tanto tempo se passou que pensei que havia os esquecido, mas foi triste saber que foi o contrario. Ela me chamou timidamente, olhando mais para o chão e brincando com as alças da bolsa do que olhando para mim. Não é culpa minha, sempre gostei de olhar nos olhos, de ver o que as pessoas têm por dentro, e ela tinha tanto, e nada ao mesmo tempo, um vazio cheio de nada.

Os olhos azuis do homem não paravam de querer se encontrarem com os meus, não era a mesma coisa, ele sabe, foi só a juventude, foi só uma brincadeira que ficou muito séria, ele tem de saber. Mas ele não fala nada, e é estranho, volta a falar de amor e de não esquecer, depois de anos. Ninguém é assim hoje, ninguém se importa tanto. Nervosa, só conseguia mexer nas alças da bolsa e falar coisas sem sentido sobre como era e como está, ele tem de saber, não sei por que o  nervosismo, ou o porque dele ter de saber, mas talvez isso, talvez isso ele mereça, nunca o vi motivado para algo grande, ele era um conformista, que sabia que tinha potencial, mas preferia ficar sonhando em voar do que realmente fazê-lo.Eu precisava de mais, de segurança,ele sabia que eu queria isso, sabia que precisava ser diferente, mas mesmo assim não fez nada.Mas se fez, eu também não o notei, tinha outro, mais envolvente, mais seguro e certo, só que também não foi o outro, e nem sei se esse o era.Hoje não sei quem pode ser, mas no fim, disto este precisa saber. -Não é disso que temos de conversar, o que aconteceu já aconteceu, só quero que me escute. E por favor, me siga, é melhor um lugar mais tranqüilo, aqui muita gente passa. Ele assentiu com a cabeça, mas sua tristeza era notável, talvez lamentável, ele mudou, e muito. Antes era um garoto de óculos e roupas certinhas, sem sal e sem sonhos. Agora vejo um homem feito,  uma barba rala cobria seu queixo quadrado, seus músculos agora deviam dar três do garoto que ele era, usava roupas sóbrias e sérias, uma calça jeans justa, com um sapato preto de couro bem  polido com detalhes brancos.A camisa preta só servia para modelar suas formas, justa como a calça, os cabelos revoltosos mesmo com gel, e aqueles olhos azuis atrás do vidro dos óculos, os olhos mais puros que eu já vi, agora com uma centelha viva, parecia que ele ia me carregar até a lua com o olhar. Senti meu coração acelerar, mas ele não podia, não era a mesma coisa, não era o mesmo, e assenti com a cabeça também e comecei a andar pelo calçadão na direção da capitania. O movimento de natal deixava a cidade um pouco mais agitada, na verdade nos últimos anos a cidade cresceu de uma maneira espetacular, mas com a escassez de terrenos para construir, o rumo dela acabava sendo para cima. Prédios brotavam todos os dias de onde antes eram pequenas casas de material ou madeira, algumas poucas foram poupadas pelo bom senso, pois eram patrimônio histórico. As pessoas falavam alto e entravam nas lojas com sacolas e saiam mais abarrotadas,duplas de policiais andavam pra lá e pra cá conversando por entre as pessoas.O dia ia ficando quente a medida que chegavam perto da primeira hora da tarde, hora em que chegaram na capitania. O Mercado Público fazia uma pequena sombra nas paredes do novo prédio da Capitania, e o fazia exatamente onde havia um banco, ela foi até e se sentou me oferecendo o lugar vago.

Ela cruzou as pernas e viu aonde foram parar os meus olhos, olhou para o lado com uma cara de incrédula, e voltou com uma cara séria, como se o mundo fosse acabar hoje.

-O que você acha que pode fazer por mim em uma hora, que você não fez em anos?Ela disse, em um tom gelado que cortou as batidas do meu coração e as trocou por suor de nervosismo escorrendo pela testa e pelas costas, a ponta de incerteza em toda minha vida era ela, e ela quer a resposta que eu sempre quis agora, depois de tantos anos?

-Em uma hora? O que você quer fazer com uma hora?O que você pode escutar sem achar que o tempo foi desperdiçado?Pra que tudo isso?

-Porque você só tem uma hora, isso quando forem seis da tarde, vou esperar na frente da empresa. -Por que aqui?Disse eu lamentoso.

-Por que aqui você pode pensar, não há mais ninguém aqui, nem nada que possa te atrapalhar, e você nunca fez isso, você nunca parou e pensou por você, pois bem, pense e me diga depois. Ela saiu se levantou abruptamente e ia engrenar um passo rápido, mas parou, abriu a boca como se fosse dizer algo. Não esperei, um passo e uma mão em volta da cintura dela, um olhar que não podia ser desviado. Os corações bateram fortes e se encontraram em seus lábios. O beijo parecia eletricidade, ambos se entregaram aos minutos e as caricias, ela agarrou minha camisa forte, como querendo me empurrar, mas não conseguia, apertou meus braços até cravar as unhas e se aproximou mais. Ela me olhou pasma, quase sem ar, o peito arfando rápido e a boca semi-aberta,com os lábios que me atraiam sempre que os olhava, sabendo que eu queria mais, e ela mesma também, deu um simples beijo e segurou meu rosto e disse.-Mais tarde você sabe onde. Ela se foi, e sobraram o som das ondas batendo no costado da Capitania, e as gaivotas grasnando e voando baixo no rio. Segurei o parapeito do costado com força, queria dobrar as barras de alumínio e jogar elas no fundo do rio, algumas lágrimas ensaiaram sair, mas eu as segurei, talvez depois eu me permita, já faz tanto tempo que elas não saem. Sentei-me na sombra do mercado publico, ouvindo o movimento ruidoso dos turistas e dos vendedores, uma hora depois das seis, o que ela não falou que importa tanto?O que ela quer ouvir?Eu sei que ela não me entende, mas e isso?E se for mesmo assim?Estarei eu doente e só contaram pra ela?Ela sabe de algo que vai acontecer com a cidade?E se for maior?Não tenho as respostas que ela pode ter, mas eu tenho que falar para ela que não tenho mágoas, só arrependimentos. De não ter a força que eu tenho agora, a vontade de ser o que nunca poderia ter sido se estivesse com ela. Ela moldou minha vida, foi o sonho que lembrei depois que acordei. O que aprendi com os erros não poderia ter doído mais do que o fez, a saudade de estar junto, de acordar com os beijos dela, de tudo o que pode ser dado a um homem para fazê-lo feliz, e acabou tão de repente como quando começou, eu me lembro que havia uma lua cheia e amarela no céu, mas quando acabou era um noite escura e sem estrelas, ela me devolveu o anel que recebeu na praça da biblioteca publica, quando éramos jovens e tolos, quando ambos tínhamos o mesmo caminho.Agora sei o  que dizer a ela, que não foi ela a culpada, nem eu, mas o caminho que nos junto e nos separou.Se eu tivesse uma hora, apenas uma hora, seria para estar com ela onde quer que ela quisesse, amando-a e falando em como os sonhos são belos e doces como as palavras,mas ela já havia ouvido tais coisas, e há gestos que valem mais do que os encantos da língua.Ficaríamos juntos onde quer que fosse, na frente da empresa dela, na faculdade onde ela estudava, na praia, no utilitário, qualquer lugar, faríamos o que homens e mulheres fazem de melhor juntos quando estão mais que apaixonados, e sim com um fogo no corpo, um desejo de se afogar nos lábios e nas vontades, e seria a melhor hora do dia dela, e seria a melhor hora da minha vida.