O Soturno [Segunda parte]

Do facho de luz que o braseiro emitia até o centro do salão, pêlos dourados refletiam pequenas manchas carmesim nas patas da criatura, um vento repentino veio do desdobrar de asas e um grito duro e estridente ao mesmo tempo fez os pelos da minha nuca eriçarem.”Não vou interromper sua janta senhorita”.Mas vou esperar até estar perto o suficiente do corpo para ver se meu prêmio já foi consumido.

Em um movimento lento e preciso, ela levantou o rabo e aninhou as asas nas costas novamente, o rosto era o reflexo da pureza, apenas com algumas manchas de pecado nos lábios, e um pedaço de carne presa nos dentes semicerrados. A língua lambeu o sangue e uma voz suave acariciou meu peito como uma brisa noturna. “E quem precisa mais aparecer, chegar antes ainda dos primeiros viajantes, e tendo um rosto e olhos mesmo assim só com a chuva chorar?”

Criaturas como ela tinham seus caprichos, um era o de carne tenra e crua, o sangue quente escorrendo pelos seus lábios, e a outra era mostrar a sagacidade de suas palavras, o quão enigmático e eloqüente uma mulher com corpo de leão e asas de águia pode ser, uma esfinge no meio do nada.

“Sei que estamos bem informados do mesmo assunto, a proa do navio tem uma escultura,  uma carranca de uma garota com não mais que quinze anos.”

“A refeição foi nobre, mas mais ainda é a intenção, salvar e salivar não rima com coração”.

Não é normal uma coisa dessas sair de um calor confortável para este frio, Harth andava cauteloso em redor do centro do salão, a cada pergunta da esfinge seu braseiro brilhava menos, e se ele não respondesse ela iria exigir o direito sobre sua carne, por ter vencido seu adversário na palavras.As estantes ao redor estavam apinhadas de livros e manuscritos, tinteiros e penas, e varias gaiolas vazias.

“Se não é a minha pequena princesa que foi sua refeição, então pode vir provar da minha lâmina sua vadia alada.”

O rabo da esfinge parou o movimento provocativo e enigmático, as asas se desprenderam novamente e se abriram, e o sorriso agudo da felina foi lavado por uma língua salivante e apressada.

“O que ninguém escuta, mas mesmo assim pede por misericórdia?”. E ela bateu as asas jogando livros e pedaços de mobília e corpos pelo salão. Os livros podem ser valiosos, mas minha vida tem mais graça e daria um melhor que todos.E jogou o braseiro na estante mais cheia de livros, com um clarão amarelo subindo em forma de ampulheta até o topo da estante.

A idade não tirou em nada a destreza dele, quando a criatura veio num vôo mortal com as garras estendidas, um pulo para o lado rolando por sobre alguns ossos e um clarão da adaga tiraram um grito terrível dela, da asa direita um ponto vermelho borrou o tão dourado pelo felino.

Agora no chão, com um andar cauteloso e eriçado, a esfinge contornava o adversário, sempre se afastando do fogo e se aproveitando das sombras e sempre perguntado por “misericórdia?”, parecia uma ave do inferno repetindo varias vezes entre rugidos e grasnados a mesma frase, os olhos verdes e grandes como um punho faiscando com o crepitar dos livros em chamas. Contornando ela, Harth pode ver mais de perto o banquete da criatura de soslaio, deveria ser a filha de alguma criada pelos trapos cinza e marrons que se enroscavam na carne mastigada, mas ao lado dela jaziam dois guardas com um escudo conhecido, um martelo quebrando uma lança em um fundo azul.”Aritell, a casa dos novos reis”.

Agora as chamas tomaram metade da sala, e ameaçavam cremar o corpo do guarda mais alto e robusto. A esfinge subiu até o topo da abóboda e desce batendo as asas violentamente. Dessa vez ela desceu olhando atentamente para a adaga de Harth, e conseguindo esbarrar no homem tirando ele do seu equilíbrio. Ele caiu pesadamente sobre ossos e cinzas, rasgando a velha túnica remendada mostrando sua cota de malha. Agora o fogo se aproximava perigosamente das portas duplas que davam acesso a torre. A esfinge voou pela sala em círculos e pousou bem em frente única saída. “O que acha que pode sair do fogo e cair na fornalha?” E com um giro e um bater de asas derrubou os restos flamejantes da estante na frente a porta.Cansado e meio asfixiado pela fumaça, Harth precisava ser rápido ou seria servido defumado para a criatura. Provocar a esfinge seria loucura, mas antes morrer louco do que queimado.

Dessa vez ele escondeu a adaga e tirou a cota, as cicatrizes nas costas e no peito doíam, mas sem a proteção ele era mais rápido. O sorriso felino estava voando em sua direção agora, os dentes arreganhados e as garras certeiras se lançaram em direção ao adversário.”O que pega fogo depois de voar sem as tripas?”E pulando para frente mais rápido que o bote da esfinge, a adaga escondida no cinto brilhou abaixo da criatura, abrindo um corte profundo do pescoço até a barriga. As asas pararam antes de ela bater nos livros em chamas, e seu grito horrendo ecoou na sala fumegante.

Harth se apressou em acabar com o sofrimento da criatura degolando-a com um corte preciso, e usando agora os trapos da sua túnica para evitar sufocar com a fumaça.As janelas eram bem altas e estava fechadas, mas os anos subindo muros e torres foram bons, e logo ele já havia forçado uma saída para fora da torre pelo dado de fora, estava escuro e frio, e a única luz via das suas costas, do topo do torreão em chamas.

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