Azul refletido na água

Caindo num mar de lascas de reflexos e muros enormes de reflexões, o avermelhado agoniante deu lugar a um azul calmo e gelado, não desconfortável, mas algo que aliviava e me fazia pensar em algum momento melhor, algo que eu não havia vivido ainda, ou talvez nunca fosse viver, um jardim em tons variados da cor do céu. No horizonte o astro brilhava na linha do fim do mundo, maior do que eu poderia imaginar, muito perto, e sua luz e tudo mais se mesclava e era uma coisa só, mas havia algo que chama a atenção ainda mais que o astro descomunal, era uma pequena casa de vidros espelhados, com seu reflexo voltado para dentro varias vezes, as portas altas e esguias com ferrolhos delicados, as janelas fechadas e a cerca na altura da cintura, estava a alguns metros de distancia, mas ainda assim dava de sentir que havia algo dentro dela, algo para mim. Andando pelo jardim, pois não havia outra maneira de chamar um descampado tão grande e padronizado com arvores e canteiros e fontes e estatuas todas de tons variando entre o claro e o escuro, mas nunca tão escuro que chegasse perto do preto, ia chegando perto da casa e vislumbrando toda a beleza secular desse paraíso atrás da porta azul. Mais perto, percebi finalmente algo que não estava na mesma cor de tudo que eu podia ver, tirando meu vestido e meus sapatos, um homem no beiral da varanda da casa espelhada, sentado em uma cadeira com um livro aberto e as pernas bem esticadas. Ele se concentrava na leitura, até eu pisar nas lajotas dentro do cercado da casa, imediatamente ele virou os olhos azuis profundos como as centelhas divinas em minha direção, e acenou me chamando para sentar ao lado dele. Receosa, mas cheia de um sentimento de confiança, sentei do lado do senhor, parecia bem velho, usando óculos com largas hastes e lentes bifocais, sobrancelhas grossas como um par de asas, e um cabelo rapino, com as suíças lhe dando uma aparência única e respeitável. Era esguio, mas robusto para a idade, me cumprimentou com palavras calmas vindas de uma voz forte. “Fique a vontade Celine, enquanto eu puder estar aqui eu lhe responderei suas duvidas”. Duvidas era um gracejo do senhor, obviamente, ser arrastada por espelhos e perseguida por criaturas medonhas eram o de menos, e trazer objetos das ditas alucinações, porque não quero acreditar ainda que isso tudo acontece enquanto eu estou sóbria, eram coisas irrelevantes. Talvez a pergunta seja… “Porque eu? Não há mais ninguém que queira ter fobia de espelhos e escadas? O que eu tenho haver com isso?”. Eu disse em um tom meio choroso até, você ficaria com pena só de ouvir. “Você precisa estar nisso até os ossos, porque o que eu acredito que você chama de conforto depende e muito de suas atitudes, e mesmo sem querer, você é inata nisso, até agora não errou em nada quando julgada pelas trapaças e artimanhas do outro.” O outro… Vamos ver se meu palpite esta certo… “O de boca grande que não queria me ver aqui?” “Ele não sabia que eu iria interferir, pensou que eu só observaria enquanto ele movia seus sentimentos e sua percepção até onde ele quer que eles estejam.” “Eu sou a cobaia de um verme psicótico?”. “Por ai Celine, mais o verme psicótico é algo que você não pode entender, nem se vivesse mil vidas.” “E você pode resumir essa compreensão talvez? Eu tenho uma hora até o almoço.” “Há uma batalha eterna, em uma árvore mística que é a realidade das realidades entre uma ave e um verme que ocorre desde o princípio de tudo, talvez até antes.” “Rápido demais, aceito alguns detalhes.” “O que você sente e o que você viu é o que vai mostrar quem há de vencer, se a lépida cobra ou a honrosa ave, tudo depende de como você se sente e se vê garota.”. “Certo, você quer dizer que, no meio dessa loucura que provavelmente é um sonho, o que significa que devo estar dormindo a umas duas semanas ao menos, eu tenho de me sentir bem para tudo acabar bem?”. “Não é tão simples, venha e veja.” O senhor levantou da cadeira e largou o livro em suas costas com certo descaso, o livro caindo com as paginas abertas tinha a capa coberta com runas estranhas que estavam meio que acesas, mas nada importou depois. Assim que ele deu alguns passos para fora da casa, um vento fortíssimo e gelado passou pelos meus ossos, senti até algumas lembranças voltarem, e tudo piscou rapidamente e se borrou, e depois rachaduras apareceram no canto de tudo que eu via, e por fim depois de limpar o borrado e suturar o rachado tentando não entender, mas sim sentir, me vi em frente a uma arvore com vários espelhos pendurados por cordas, todas amarrando os espelhos com nós de forca, e os espelhos giravam preguiçosamente no sentido da brisa que agora me arrastava até um deles, onde o senhor estava de pé, parado e olhando para algo no fundo dele, fez um gesto curto com a mão para eu me aproximar, e aos poucos tudo era o reflexo. Nove espelhos enforcados por grossas cordas giravam e mostravam coisas diferentes, e em cada um que eu me perdia em olhares eu me via mais jovem, mais velha, formada em uma faculdade que eu nunca fiz, morta por um amigo, matando alguém amado, tudo estava ali, e era real para mim, eu sentia o gosto de sangue e a alegria da contemplação, uma vida cheia e uma vazia, sem importância, logo a brisa se tornou um vento forte demais para eu ficar parada, e o homem me segurou pelo pulso com uma mão forte, e o vento balançou os galhos, até os espelhos baterem uns contra os outros, ou contra o tronco da imensa arvore que os segurava, e se estilhaçaram sonhos e vidas que nunca vivi, e os pedaços dos cacos de vidro polido e refletido eram jogados no ar como cinzas, e assim se espalhavam por todo o lugar como uma nuvem azul coruscante. O vento agora soprava as carcaças vazias das molduras douradas e prateadas, de madeira e de bronze dos espelhos das vontades, das verdades, e do que foi e do que vai e pode ser e aos poucos, parando a ventania, a madeira escura que sobejara dos cacos espelhados começou a verter um líquido purpúreo que caia lentamente, e depois subia em bolhas e fios disformes arredondados, que ao tocar novamente o oval amadeirado formavam um novo espelho, mais escuro do que o que agora pairava em círculos lentamente ao redor da imensa arvore. “Isso irá acontecer ainda mais oito vezes menina, agora que você conseguiu entrar no topo de suas memórias, você tem de descer novamente para ver o outro lado, as nove faces que podem libertar-lhe ou assombrar o resto de seus dias.” “Como assim subir? Você sabe que aquela porta – Disse Celine apontando para um vazio onde ela deveria estar – Estava no ultimo patamar dos lances daquela escada transparente, e, aliás, qual é a daquela escada? Eu poderia ter…” “Morrido? – Disse o homem rapidamente – Seus cortes sararam, sua mão e suas roupas estão intactas… Não, se você morrer o resto também perece você não poderia ter morrido.” Não foi uma resposta muito satisfatória, mas acho que era tudo o que eu conseguiria dele. As cenas nos espelhos mudaram, agora não era somente eu neles, mas várias pessoas, tudo estava acontecendo ali, menos em um dos espelhos, que não girava com o vento, e estava com a corda esticada até a sua base tocar a grama em redor da arvore, ele a queimava com seu toque, e a imagem era o meu reflexo, e eu fiquei algum tempo olhando ele, e ele estava com um tapa-olho no lado direito do rosto, e dele escorria um fino fio vermelho, que quando chegou no meu queixo eu vi subir lentamente como uma bolha, uma dor horrível dominou minha visão, e eu tive que fechar e esfregar os olhos até passar, e o reflexo não estava mais no espelho, cheguei perto para ver se havia alguma outra visão como nos outros, mas nada. Assim que virei de costas para o espelho, só pude ver o rosto horrorizado do senhor apontando para trás de mim, e uma mão me puxou pelo ombro com força na direção do espelho e algo se enrolou na minha cintura, me puxando para dentro e para cima do vidro polido, e tudo que era azul e calmo ficou vermelho e agoniante, e eu subia e subia e subia…

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Celine

Gotas escorriam pela janela do apartamento no quinto andar, o sol esquentava o vidro aos poucos e Celine ia perdendo o sono com o incomodo desconforto matinal. O começo do outono trouxe um frio tímido, que talvez só viesse realmente no fim do mês, o café meio quente ainda da noite passada serviu para acompanhar um par de torradas com alguma geleia de uma fruta estranha, sua amiga sempre trazia essas coisas naturais esquisitas, sem gosto e com uma embalagem verde. Atrasada para a academia esqueceu-se de colocar o celular na bolsa, e teve de voltar mais uma vez para o quinto andar. Quase desistiu de ir, mas se lembrou de que prometeu não desistir mais, afinal ainda era manhã, talvez só perdesse a corrida para aquecer, pois todos iam cedo para a academia, as senhoras com suas roupas estranhas, as outras senhoras que não gostavam de ser chamadas de senhoras, e alguns caras que poderiam me carregar até em casa sem problemas, mesmo eu estando com a minha vespa. Não havia ninguém quando cheguei, o prédio que era um conjunto de lojas estava aberto, mas a academia vazia, um folheto dizendo que hoje ela só abriria das onze até às quatro da tarde quase me fez quebrar o vidro com o capacete. Desci pelo elevador, olhando esses olhos tristes e grandes, porque tão grandes. E esses são os piores elogios que eu posso receber, “Nossa, que belos olhos… eles são… tão grandes”. Falam como se fossem Shakespeare, Byron, ou outro desses que podiam brincar com as palavras, que faziam suspiros brotarem do nada. As pessoas normais são chatas, eu seria chata, se quisesse, era fácil. Um emprego de advogada, ou secretaria, sabe-se lá o que a vida me guardaria se eu fosse chata, a academia, as festas nos finais de semana, tudo ia construir aos poucos uma garota crua e imbecil, o meu sonho é lidar com o que os outros pensam, é ouvir suas loucuras e suas besteiras, rir de tudo isso em um almoço com algum idiota que seria provavelmente mais engraçado do que eu, pode até ser mais inteligente, não ligo, só tem de ter olhos azuis… E claro que frequentar a academia mais próxima da casa dele, não suporto esses casais que entram na academia, o homem fica levantando luas enquanto sua querida esta sendo secada pelos mesmo quatro franguinhos a meses, que não conseguem fazer mais nada além de se apoiar nas maquinas e rir. Acho que a noite é melhor, depois de escrever pilhas de relatórios sobre coisas estranhas no meu emprego, o que é normal no meu caso, a noite me salva. O frio tolerável mesmo com uma blusinha leve e sandálias, o movimento de pessoas inteligentes nos lugares certos. Já notaram que pessoas inteligentes andam em grupos de três ou quatro? Claro procurando nos lugares certos, mas também já notaram que elas não são feias? Elas tem um charme estranho, bem estranho, saber de futilidades como o nome da deusa da destruição indiana, ou o nome de uma estrela que fica a tanto tempo de distância que nem os filhos de meus netos chegariam nelas. Um dia desses fui a um barzinho que ficava entre um calçadão e uma rua bem movimentada, sentei com duas amigas que só tinham o que falar dos dois caras sentados na mesa perto da porta, e tentando esquecer o que elas elogiavam, da blusa justa e dos cabelos enrolados, fiquei escutando a conversa deles, e era algo sobre um cara com garras nas mãos, e uma aranha acho, não lembro, só sei que foi um desses momentos onde você só gosta de apreciar sabe? Que fui envolvida na conversa até minhas amigas perguntarem o que eu iria beber. Talvez eu tenha um fetiche por vozes, deve ser aquela sensação agradável de alguém passando uma pluma em suas costas, um arrepio. Tomamos alguns copos de um drinque verde, que pelo acaso estava muito bom e eu esqueci o nome, mas nada que me impedisse de ir de táxi para casa, elas continuaram na farra a noite toda pelo que me contaram. A chave demorou a encaixar na portaria do prédio, deixei a bolsa cair e vi um envelope vermelho com algo estranho na aba dele, cera talvez, o botei na bolsa e chamei o elevador. Nunca havia notado os espelhos, aquele pedaço quando eles se cruzam onde você aparece centenas de vezes, enquanto o elevador subia, eu me segurava para não decorar meus adoráveis reflexos de cabelos desgrenhados com frango e algum molho mexicano, as luzes piscaram, e o elevador parou. Não entrei logo em pânico, mas depois de um minuto um suor escorreu pela minha testa, e estava até meio bem. Os espelhos, o que será que eles estavam mostrando? Não sou burra nem nada, sem luz, nem os espelhos nem meus olhos iam ter qualquer diferença em percepção, mas mesmo assim, mesmo sabendo disso veio algum medo, será que havia algo? As luzes voltaram, e o elevador continuou de onde havia parado, o terceiro acho, e abriu, assim que pisei na grama o gosto do molho mexicano subiu pela minha garganta e manchou a bela paisagem, perdi o equilíbrio e comecei a cair, e cair, e cair…