Vermelho espelhado nas raízes

Como uma janela no meio do nada, o azul apagou-se e a calma se foi, um calor desconfortável fez o suor escorrer pela minha testa e costas, e cai pesadamente em um tronco de madeira, perdi totalmente o folego com a queda, e talvez algumas costelas. Um bosque rubro dentro de uma caverna pareceria com algo assim, as poucas fontes de luz eram vermelhas e vinham de lugares estranhos como fendas no chão e nas paredes,  e mesmo assim a escuridão parecia emanar com vida das mesmas rachaduras e principalmente do teto, ou do vazio, não sei bem se era um lugar aberto muito escuro ou um lugar fechado sem muita luz, mas era certo que um leve odor de madeira morta que sentia foi logo sobrepujado pela pestilência cadavérica que infestou meus pensamento, cenas de batalhas sangrentas com finais ruins e homens e mulheres agonizando aos retalhos, o sangue gotejava ao longe, não sabia da onde vinha ou par aonde ia, mas era certo que era sangue, um espirro com gosto ferroso de uma das visões borrou meus lábios e o salgado do sangue era inconfundível, afinal que criança nunca cortou o dedo e chupou o corte para sarar? Cadáveres aos pedaços andavam para lá e para cá, sem nem prestar a atenção em mim, não deve ser algo bom, ou devem ser só cegos, mas o que são esses conceitos para quem já esta morto? Numa turba de podridão, se esbarravam e caiam em um rio que cortava em dois o horizonte. Não sabia bem mais o que olhar, tudo era confuso e vermelho, os reflexos do chão cortavam quem passava por cima deles e os engolia, fazendo depois uma chuva rubra e pesada do sangue dos andarilhos, jorrava até o mais alto que eu não podia ver, e caia em gotas grossas e pesadas, junto a lascas de madeira e um constante e irritante ranger de vários dentes.

Tropecei em um amontoado de ossos e raízes, mas não cai estranhamente, em vez disso algo apertou meu pescoço e sufoquei por um momento, tentando me segurar no ar acabei esbarrando em uma corrente que não havia visto antes, levei as mãos ao pescoço e senti uma leve, mas resistente argola de metal, um pouco apertado para o meu gosto. Agora que vi em um reflexo pouco iluminado que estava com um vestido pálido e poído branco, com respingos rubros. O anel metálico estava preso bem na altura da nuca. A corrente era bem comprida, mas não dava de ver até aonde ela ia, não que eu estivesse com vontade de ir para algum outro lugar, não queria me embrenhar nas sombras que cortavam e refletiam coisas horrendas sempre que eu encarava os espelhos que estavam ou inteiros ou em lascas junto a arvores e no chão. Um leve barulho metálico foi crescendo até chegar a minha direção, e a corrente começou a ser arrastada rapidamente por entre as raízes quebradas, corpos  e espelhos despedaçados pelo chão. Comecei a correr para acompanhar a corrente e não ser arrastada para uma queda cortante e infeliz, acompanhando o tilintar das correntes que ia aumentando. E a cada eco metálico que a corrente fazia, parecia que os habitantes desta poça nefasta de morte finalmente prestavam a atenção em mim, corpos pela metade, com vestimentas de batalha e armas partidas se amontoavam para tentar me agarrar com dedos quebrados. A luz que já era pouca foi diminuindo nos reflexos, e somente a corrente irradiava um tênue brilho branco que parecia formar runas por toda a corrente, mas que não passava de dois ou três metros no máximo a minha frente. As runas pararam de brilhar e sobraram só os urros estranhos e hediondos atrás de mim, talvez até os meus reflexos e as sombras dos mortos tivessem criado vontade para me perseguir, talvez eu acordasse no fundo da minha cama segurando uma coruja de pelúcia, só que a cada leve esperança de acordar, eu era puxada com mais força pela corrente agora fosca com apenas um leve brilho para o meio da escuridão. Senti o vestido e um pouco do meu braço rasgarem em alguma coisa afiada na parede, provavelmente algum dos malditos espelhos, meus pés também estavam cortados, e até juro que passei por algo muito quente, mas por pouco tempo, pois já mal andava, era mais a corrente que me puxava por pouco por cima do chão. O odor infausto me dava ânsias, mas ainda pior foi ser puxada para cima mais rápido ainda, segurei a corrente pelo elo que estava mais perto do pescoço, se essa subia demorar muito talvez eu não chegue com ele inteiro. De súbito  a corrente parou de me puxar e de subir, e logo estava suspensa pelo pescoço, usando o que sobrara de minhas forças para não sufocar, tentei gritar por ajuda mas só um arfar engasgado escapou junto com o último fôlego. “Claro” – Disse uma voz doce e sibilante. E com um clique metálico, o elo se partiu e cai no chão. Assim que tomei folego pensei que iria ser novamente aquela baforada pestilenta, mas não, onde estava, aqui em cima talvez, o ar era suave e cheirava a rosas e a madeiras diferentes, nunca soube o nome de alguma arvore pelo seu cheiro, somente meu vestido ainda fedia a pestilência de lugares inferiores. Conseguia ver melhor aqui em cima, archotes em forma de palmas estendidas brilhavam com uma chama branca e bruxuleante, até onde eu percebia, estava em um imenso circulo de pedra, e bem no centro uma elevação em caracol serpenteava certa altura para em seu topo exibir um trono branco como a aurora. As colunas do círculo iam muito alto, além do alcance da luz, mas todas tinham um padrão reptiliano, com grades escamas de um verde vivo em algumas e um dourado fosco em outras, e mais algumas brancas. O trono tinha a forma de um dragão enrolado em uma serpente, não dava de saber se os dois estavam em um embate ou se apenas eram para ostentar algo. Os apoios laterais eram como duas grandes peçonhas, o grande circulo estava cheio de runas e outros desenhos no chão, cenas de batalhas e mortes, com varias criaturas e homens, não consegui distinguir direito com a pouca iluminação, mas eram feitos com pedras cortadas de maneira perfeita, todas as cenas pereciam estar em folhas ou em um tronco de arvore, minha apreciação acabou quando novamente a voz sussurrou. “Ainda bem que você não recusou o meu convite, desculpe a insistência, mas se você não viesse acabaria sendo algo indigesto para você.” A voz feminina sibilava e seduzia de forma estranha, como algo macio que rasteja pelas suas costas e se enrosco nos seus cabelos. Esforcei-me para ficar de pé, estava ensanguentada e com o vestido em trapos, me arrastando pela parede ameacei cair novamente, mas duas mãos fortes me seguraram pelos ombros e me mantinham de pé com facilidade, eram rugosas, ou escamosas, não conseguia ver quem me segurava, somente estava ali forçada a ficar em pé.  Ela desceu pela espiral do trono segurando algo em sua mão esquerda, não consegui saber logo o que era, mas assim que vi a boca dela ensanguentada com gotas escorrendo pelo rosto, olhei novamente e reparei os anéis no toco da mão, com metade das falanges já só com os ossos e alguns fiapos de carne pendurados que ela saboreava, e brincou acenando com a mão para mim refestelando-se com os dedos mortos. O contraste da cena era aberrante, uma mulher jovem, de cabelos brancos ensanguentada com os restos do cadáver devorado. O vestido era dos mais atrevidos com poucos cortes de tecido que faziam senão exibir as curvas serpenteantes de seu corpo trajava também um único e comprido manto verde escuro e escamoso.

“Não há muitas coisas belas a se fazer em um buraco não acha? Eu mesma fui obrigada a achar algum passatempo, e de vez em quando para não morrer tédio brincar com os espelhos que você viu.” – Ela se aproximava e me olhava com o âmbar ofídio que parecia ter luz própria, e me encarava de cima a baixo, dando a volta em meu redor, estava muito fraca para retrucar algo, e tentei em vão um arfar de “Por quê?”. Vendo o meu estado deplorável, ela continuou a andar e a falar em uma língua estranha, forte e pesada, mas ainda com o tom ofídio. A sombra que ela fazia na elevação do trono era estranha, maior e mais disforme do que a da mulher em minha frente, e se movia de maneira estranha. As mãos que me seguravam agora me forçaram a olhar para aqueles olhos grandes e reptilianos que trouxeram uma calma estranha, fascinante. A luz inundou meus olhos e fui tragada para cima, e estava em uma bolha amarga que foi ficando vermelha e quente enquanto subia, assim que emergi a luz ficou fosca, e vi corpos caindo de uma arvore, e depois, outra maior ainda partida em vários pedaços, e cada pedaço era parte de um espelho, ouvi barulhos de metal se chocando contra metal, elmos partidos e adagas perfurando costelas. Os pelos de minha nuca se eriçaram, eu conseguia sentir o ar pestilento ainda no meu rosto, eu estava na visão e ainda estava na frente dela, ela dividiu minha percepção em dois e eu senti que minha mente ia rasgar a qualquer momento. Um guincho alto de algo sendo arrastado e depois o trincar de madeira me fizeram olhar para cima, um emaranhado sem fim de raízes de arvores cobria toda a minha visão de cima, e um rosnar profundo encheu meus ouvidos, algo veio rápido pelas minhas costas e começou a me envolver e a me levantar muito alto, era algo viscoso e quase tirava meu ar. A criatura tinha um corpo enorme, não saberia dizer ao certo seu tamanho, e possuía vários braços da metade do corpanzil para cima, todos se arrastavam e tentavam segurar algo, passei bem perto deles ao ser levantada pela criatura, e ela me segurou bem em frente a sua boca. Milhares de dentes em uma mandíbula humana em um rosto monstruoso e sem olhos refletiam a saliva escorrendo e o cheiro de morte, e a criatura grunhiu em direção as raízes, mordeu e mastigou um grande naco delas, e me colocou em uma elevação próxima as raízes. Tentei olhar para baixo, mas a criatura estava se enroscando na borda e impedindo minha visão, sua boca escancarada salivando algo que fazia uma leve fumaça verde subir de onde encostava, e ia corroendo aos poucos as beiradas da encosta. Comecei a andar para trás para ameaçar uma corrida, mas bati com as costas em algo que fez um barulho metálico, e a coisa se afastou e bateu devagar em mim novamente, e novamente. Assim que me virei o horror novamente tomou conta da minha visão, corpos enforcados, pendurados por correntes em uma arvore muito bela, mas estranha, contando eles vi nove ao todo, mais nenhum ao andar em redor dela. A serpente estava parada me observando, se enroscando na elevação com todo seu volumoso corpo, devia fazer algo para sair dali, qualquer coisa para acordar, mas a serpente não dizia nada, só olhava para os corpos, alguns podres, outros ainda frescos, mas definitivamente mortos. Enquanto giravam lentamente em suas correntes, notei que todos tinham o olho esquerdo faltando, e que algo estava iluminado no fundo de suas órbitas vazias. A corrente do corpo maios próximo afrouxou e ele parou bem em minha frente, me fazendo gritar e a serpente sibilar com algo de apreciação. O corpo estava entre os menos afortunados, sem uma perna e com roupas muito estranhas, um terno verde escuro e um cabelo muito bem arrumado, no que restava da cabeça, pois metade estava aberta por algum ferimento cheio de vermes agora. Sua órbita esquerda incidia uma luz forte, mas concentrada, algo que estranhamente eu precisava ver, e assim que me aproximei para olhar o fundo de sua órbita, suas mãos podres seguraram meu rosto agora rente ao seu, e eu não conseguia me soltar, só gritava por ajuda até que comecei a ver no fundo de seus olhos mortos, algo se formando, um lago calmo com um casal passeando em sua beirada de mãos dadas, ela olhava para o reflexo do lago, e ele para o pescoço dela, quando ela soltou sua mão para procurar algo na margem, ele a atacou por suas costas e a estrangulou, meu pescoço doía e eu consegui ver um pingente na margem, na forma de dois círculos, e caí completamente desfalecida nas aguas escuras, tocando o fundo do lago momentos depois, e as visões começaram a ficar mais rápidas e fortes, e eu sentia tudo, me queimava e me cortava, morria e nascia varias vezes, e vi pessoas me traindo e morrendo, e eu matava e ensinava, colhia uma maçã e orava sozinha em uma casa escura na luz de uma única vela, e as raízes se quebravam e eu sentia chover lascas de madeira, ouvi correntes quebrando e um sibilar ruidoso, parecia que algo estava morrendo na minha mente, como quando você quer se lembrar de algo que se esquece para sempre, e veio o trovão…

Anúncios

Espiral Translúcida

Em cima da mesa da sala um cubo com areia no fundo, na bolsa dois guizos coloridos juntos por um fio de prata, e depois de alguma pesquisa exaustiva onde derramei café duas vezes em meu pijama e derrubei finalmente a caixa com o lanche que pendia perigosamente na ponta da mesa, ainda estava insatisfeita com meus resultados, talvez tivesse de ir mesmo a biblioteca na universidade conferir melhor o que significa esses sonhos. Não que uma universidade desse a atenção a minhas loucuras, mas talvez em alguma seção de psicologia houvesse livros sobre sonhos ou algo assim, melhor procurar eu mesma do que pagar para alguém me falar algo que eu sei mas não consigo entender. Arrumei um pouco a casa, fiz uma xícara de café, que agora sorvi com calma e olhando alguns desenhos estranhos que passavam pela manha. Terminando de me arrumar, com uma saia simples de pregas, sapatilhas azuis e uma blusa de lã, não sabia mais como me arrumar sem usa o espelho, ou qualquer coisa que refletisse, preciso procurar também o nome da fobia de reflexos e ver se há cura, ou vou ter que pedir para a filha da vizinha começar a opinar sobre como eu estou, o que parecia valido, crianças de 10 anos são bem criativas. Agora evitando o elevador, desci alguns degraus da escada, e percebi que deixei o celular em cima da cama, longe de cafés e de desmaios involuntários, eu estava me alimentando bem, ia à academia, mas eu insistia em desistir da realidade nos piores momentos, na ultima vez fiquei encharcada da chuva. Subi os mesmos degraus que havia descido, e ouvi o barulho de algo quebrando, olhei para o chão, sentindo estar pisando em algo leve, mas não era ali, uma fisgada de dor me subia pelos dedos, e olhei para o corrimão e vi um fio de sangue escorrer para cima, não…não de novo não…

Assim que voltei minha atenção para o corredor onde era meu apartamento tudo estava escuro, só conseguia ver as paredes e pouca coisa do teto, uma fraca luz piscava como em ondas vermelhas e ia descendo pelas escadas. Segurei o corte na mão esquerda e comecei a correr pela escada para baixo, cada passo mais forte fazia o vidro que agora refletia meu horror e minhas sapatilhas, conseguia ver ao menos a uns dois metros pela fraca luminosidade, as paredes pareciam estar pulsando, e havia ranhuras e outras coisas de aparência viscosa. Por medo de quebrar os vidros, e talvez toda a escada, comecei a andar com mais vagar, olhando para baixo conseguia ver o próximo bloco de degraus, o que não me animava nem um pouco. Depois de alguns minutos descendo, a luz antes intermitente e hipnótica de tom avermelhado foi ficando cada vez mais escassa, até que se apagou completamente e sobramos somente eu e os ecos de meus passos no vidro.

Estar sozinha nunca foi meu forte, quando pequena dormia muito com meus pais, e na escola sempre andava com um grande grupo de amigos, claro, tentava ter a atenção que eu desejava, mas era só por medo, só para não ficar sozinha. Caixas de livros e roupas espalhadas era uma visão normal de meu quarto, não ligava muito para a internet na época, e, aliás, hoje só uso por causa do emprego, mas também achei maneiras de não ficar sozinha mesmo morando há cinco anos assim. A idade não me ajudou tanto quanto as pessoas que eu me cercava, e as situações em que me meti, mas ainda assim…

As luzes ficaram apagadas por minutos, ou horas? Perdi-me incessantemente em pensamentos e memórias para evitar que o medo tomasse conta e me fizesse coisas ainda piores, mas foi tarde demais, quando imaginando os piores desfechos possíveis, algo caiu pesadamente em cima da escada de vidro fazendo a estrutura toda tremer. Fechei a mão com o medo e me lembrei do corte latejando ainda, e o sangue subia pelo meu braço ao invés de descer. Alguma coisa havia se partido alguns lances acima, o barulho do vidro se estilhaçando fez meu coração disparar. A luz voltou aos poucos, agora ela ia um pouco mais longe, e ao olhar para cima petrifiquei de medo. Enquanto a luz ia ou vinha em ondas, um sibilante aviso veio logo acima, e era uma cobra, algo parecido com uma ao menos, o corpo volumoso e vermelho com tons estranhos e irregulares cobrindo a pele, sem olhos e com uma boca praticamente humana, mas de um tamanho aberrante. No lugar dos olhos a mesma pela que cobria o resto de seu estranho ser, e varias patas, como se fossem as mãos de milhares de pessoas se arrastando lentamente em redor da escada. Não havia nada a fazer senão correr para baixo, e arriscar alguns cortes, do que esperar o enorme verme serpentear ao meu lado, pois ele descia cada vez mais rápido, e enquanto se enrolava na espiral da escada, trincava e quebrava os vidros, e hora aparecia entre as ondas da luz, hora sumia na escuridão, sibilando e se arrastando para baixo. A intensidade da luz foi aumentando, e conforme olhava para baixo os lances de escadas não pareciam acabar, e para meu desespero quando olhava para cima tampouco o verme parecia diminuir de tamanho, era como se ele estivesse crescendo para baixo, ou não tivesse algum começo ou fim. Já muito próximo de onde eu estava um odor desagradável acompanhava a criatura e entrava como uma nevoa densa pelas frestas trincadas da escada. Comecei a me sentir mal e lenta, não havia comido nada que me lembra-se, mas o que quer que fosse estava perto de eu botar para fora. A luz finalmente se manteve, sem se alternar entre as sombras, e a coloração dela também estava mudando, de um carmesim sangue, para um lilás forte, e por ultimo um azul muito claro.

Por nada melhorei do enjoo que o meu perseguidor me causara, e me animei a correr mais, a impressão de ver alguma coisa diferente dos mesmos lances me fez correr mais.

Não havia percebido que o verme já estava emparelhado no mesmo degrau do que eu, e me esforcei ao máximo, mas em vão, a criatura agora estava a minha frente e serpenteado a estrutura, agora que estava mais perto do fim percebi que logo abaixo havia uma porta grande, seus ferrolhos e maçaneta eram de algo azul que brilhava muito, e o verme se apressou em direção a porta, não sei se foi o certo a se fazer, mas em poucos segundos a criatura iria alcançar a porta, ou me sufocar com seu corpanzil que agora esmagava a parte de cima da estrutura, sentindo os cacos caírem nos meus cabelos, não pensei muito no que fazer, a não ser pular no lance de escadas abaixo quebrando assim os vidros. Parece que a queda durou por uma eternidade, os estilhaços no ar passavam por mim e acertavam o chão, fazendo grandes pedaços espelhados virarem pequenas constelações, todas refletindo o azul forte que a porta emanava. Toda essa leveza que meus olhos presenciaram foi interrompida pelo barulho de minha queda em cima da doce constelação espelhada, que agora ao invés de refletir a bela emanação da porta, refletia em alguns pontos as gotas de meu sangue, acho que talvez tenha torcido o pé, ou as costas, talvez eu tenha torcido tudo, todo o brilho e luz se apagou, e somente a dor e o escuro permaneciam, até que no fundo da escuridão uma porta se abriu, e o sibilar horrendo se encontrou com um grito estridente que me fez sentir um leve frio e um conforto, me senti sendo arrastada e levada para algum lugar macio, penas talvez, e fechando finalmente os olhos ouvi ao longe o barulho de um trovão, e gotas mornas começaram a cair na minha testa.

O reflexo dos seus olhos

A cama era extremamente confortável, dai pra frente eu já sabia que era um sonho, não existem camas confortáveis, com conjuntos de seda purpura que deslizam acariciando sua pele. O cetim verde deslizou pelos meus ombros, e vi que estava com uma roupa de cama estranha, pomposa. Não era dia, as janelas estavam abertas, e a noite era densa e nebulosa, e as velas acesas no quarto me assustaram revelando um homem que estava lendo em uma mesinha perto do pé da cama. Ele sorriu para mim e marcou a pagina que estava lendo com uma fita azul. “Você esta bem? Tome isso.” Ele estendeu a mão para uma jarra na frente dele, encheu um copo com agua e trouxe até mim. “Beba, você vai se sentir melhor.” Ele era algo a se notar, um colete sobre uma blusa bem alinhada, passos firmes e um sorriso cuidadoso, os cabelos lhe caíram sobre os lados dos olhos me estendendo o copo. “Onde estou?” “Na sua cama, exausta de uma noite agitada Senhorita, agora beba e se arrume, seus convidados estão esperando lá em baixo.” Não sei por que concordei com um aceno de cabeça, e vi o homem sair pela pesada porta de madeira, e deixar o livro. Ele parou, e me perguntou se eu precisaria de ajuda para me trocar. Outro aceno confuso o fez fechar a porta e seus passos morrerem alguns segundos depois. Puxei os cobertores e fechei os olhos, esperei eu sentir minha respiração, mas estava nervosa demais, é um sonho, e eu vou acordar, e vou estar com a cara suja de molho mexicano e apoiada entre a privada e o box. Nada, um nojo pelo conforto me fez saltar da cama, e olhar sua estranheza ela era, em vez de madeira, mármore negro fazia esculturas estranhas de animais e pessoas nas colunas da cama. Comecei a sentir um frescor de grama molhada, as janelas estavam abertas, e o vento noturno me abraçou como se fossem garras arranhando minha pele, fechei a janela e não conseguia ver muito além de arvores e talvez um morro próximo, a nevoa era bem espessa. A única coisa sensata que me veio em mente foi procurar algum vestido, que com certeza seria estranho e me lembraria de algo saído das novelas de Jane Austen. Não foi muito diferente do que pensei babados e varias camadas de tecido sobre mais babados. Não sei quanto tempo demorei me trocando, mas quando me senti pronta, fui com passos firmes até a porta, e puxei os pesados ferrolhos irregulares, e vi meu reflexo pomposo ser multiplicado varias vezes, era o elevador do meu prédio. Ele estava no andar, e que mal tinha entrar no sonho? Ou talvez alguma amiga minha ganhou na loteria e esta pregando a maior peça do mundo em mim. Que seja, mas não era, assim que entre no elevador, o quarto se estilhaçou em mil pedaços, portas e janelas irregulares batendo em arvores e em cetim purpura, e só sobrou uma escuridão silenciosa e repentina, me aproximei do fundo do elevador, e me encostei-me ao espelho, as portas fecharam pesadamente com um som de madeira podre rangendo a passos pesados, e o elevador começou a subir muito rápido, me vi encostada em um canto no chão olhando para o reflexo em cima de mim, parecia tão assustada e indefesa, que nem notei o estranho liquido que se aproximava de mim, um fino fio de água turva, como uma cobra serpenteando devagar, olhei para frente e não vi anda, olhei novamente para o reflexo no teto e vi que a coisa já estava se enroscando no meu tornozelo, senti uma pontada forte e uma dormência. A coisa foi se enrolando até chegar ao meu pescoço, e um frio foi me dominando, as luzes piscavam, rítmicas, até o elevador parar e fazer o som que havia chego ao andar chamado, A porta abriu e uma senhora com um carrinho desses de feira sorriu pra mim e disse gentilmente. “Bom dia Celine”. Eu estava de pé, estática, a senhora passou por mim e continuou falando. “Indo para a academia tão cedo? Cada dia que vou à feira parece que cuidam menos se eu vou sobreviver ao atravessar a rua, eu lhe digo hoje em dia ninguém te espera”. Ela entrou no elevador e apertou o botão para subir, olhando para o reflexo atrás dela, vi que estava com a roupa da academia, e com minha garrafa d’água, até os fones de ouvido e minhas musicas tocavam baixinho penduradas na gola do top. O dia estava frio, mas a corrida até a academia iria me esquentar, e possivelmente me livrar do pensamento de que a momentos atrás eu estava sendo estrangulada pelo reflexo do teto do elevador.