As costas dos vidros polidos

Estava correndo na esteira, tentando botar as ideias no lugar, o cheiro da grama ainda me vinha forte a memória, quando eu a senti novamente aos meus pés, macia e molhada, e o barulho de guizos seguiu os passos encharcados. Rítmicos e incômodos, a cada passo da corrida dois suaves clings seguiam cada metro que avançava. E a floresta estava clareando, achei uma trilha por entre um par de arvores torcidas que saiam quase do mesmo tronco, e se distanciavam uma da outra. Peguei a garrafa d’água e a toalha, enxuguei o suor da testa e diminui em dois a velocidade da esteira. Na televisão um programa desses que falam besteiras passava uma matéria de como os famosos evitavam ser vistos por fotógrafos indesejados. Andando agora na trilha escura, um calafrio já conhecido percorreu minha espinha, e senti como se mil olhos me observassem, e lá estavam alguns deles, pontos vermelhos e amarelos no meio das arvores, azuis e verdes, uns mais separados dos outros, as vezes mais altos que o anterior. Comecei a correr para o fim da trilha, onde a luz voltava e até aumentava, o aroma de folhas secas já estava enjoativo quando algo agarrou forte meu ombro e me puxou, não vi nada, apensa senti os guizos se enroscarem e os clings pararem, começava a escurecer novamente. Voltei a corrida aumentando em dois pontos a velocidade da esteira, o ator careca e com um sorriso canastrão disse que nem sempre é bom ser visto, não que ele fazia coisas que não deveriam ser vistas, mas que não tinham nada de interessante para o publico faminto que os fotógrafos alimentavam. Corri como algum tipo de fera correria atrás de um almoço depois de três dias sem comer, quatro talvez, e as arvores do lado esquerdo deram espaço a um lago de águas negras e pesadas. Não falo como se eu soubesse o quanto de água cabia ali, mas o clima era horrível, era como saber que você faltou uma aula importante porque dormiu demais. Meu lindo vestido foi rasgado repentinamente logo acima da cintura, e pedaços de tecido rubro agora esvoaçavam como os restos de alguma capa heroica, mas a minha corrida foi ficando mais pesada, o barulho incessante dos clings, e os passos rápidos e grosseiros que começaram a me seguir transformou um doce pensamento em uma alucinada tentativa de diminuir a velocidade da esteira e terminar de tomar minha garrafa d’água. Não havia percebido que sempre que olhava para trás, não havia nada, só o som dos passos, foi quando virei rápido mais uma vez a cabeça para ver meu perseguidor, e parei por uns segundos o olhar na margem do lago. Vários olhos de cores e tamanhos diferentes, separados por tecidos costurados em carne, alguns olhos tinham agulhas espetadas, mas ainda estavam abertos, lacrimejando sangue e alguma outra coisa asquerosa, o cheiro doce do bosque foi coberto pela repugnância de algo morto ou bem perto disso. Podia sentir a baforada pestilenta na minha nuca, foi quando na televisão, o ator careca no fim da entrevista, disse que as vezes ele só precisava andar de cabeça baixa, sem fazer muito barulho, que ninguém o percebia, e ele fazia isso as vezes nas noitadas, e no dia seguinte ninguém teria fotos de onde ele estava se divertindo com a sua mais nova namorada. Celine diminuiu a velocidade da esteira para o nível mais lento, algumas senhoras corriam mais rápido que elas no momento. E ela diminuiu o passo até não ouvir mais nenhum maldito cling, e os olhares morreram, e ela sentiu a coisa farejando forte atrás dela, na beira do lago, nas arvores, em seus calcanhares, mas nunca vendo ela, mesmo com mil olhos, a calma e a leveza de seus passos a levaram até o fim da trilha, mais iluminada por uma luz que vinha de lugar nenhum, mas ficava acima dela, isso era uma certeza. E houve um forte barulho de algo pesado, como se algo que farejava o bosque inteiro tivesse pulado no meio do lago de desespero ou vergonha, e ela desligou a esteira, pegou sua toalha e sua garrafa vazia e foi até o seu armário. E não foi para sua surpresa, que em cima de sua bolsa colorida e grande, ela viu um par de guizos amarrados por um fino fio de prata, que brilhava com as cores de vários olhos.

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O Mercador de Segredos [Quinta parte]

A noite estava clara e o céu coberto pelo manto de estrelas, Agni coruscava vermelha e imponente, Procion estava encolhida, uma pequena foice azul no distante norte celeste. O grande barco estava ancorado num recife perto da Boca de Tíndalos, e não havia luz alguma no Titania fora o brilho tênue dos mastros, eram feitos de lazurita e topázio, e você podia sentir o clima mudar quando chegava perto deles, segundo as lendas e a própria tripulação, os mastros eram a força do navio, o que o impedia de afundar, o que o deixava escondido até o ultimo segundo de uma investida contra piratas, e o que dava uma força e um fôlego sobre-humanos aos guerreiros. O capitão original do navio tinha um colar na forma das duas grandes luas, e conforme o navio foi sendo desejado e abordado, mudou de dono varias vezes, até que agora pertencia a casa do antigo herói Glauhir Doulway, seu neto, Lorde de Hrsting, tinha a princesa do reino como prometida pela casa dos Novos Reis. A princesa Lianne estava agora a caminho das ilhas geladas do norte, esperando seu futuro rei e providenciando para que o domínio dos magos fosse anexado a Artenia de acordo com a lei do reino. Os magos de Vaastfall dominaram as ilhas por séculos, até mesmo os piratas não ousavam entrar nas águas ao redor delas, mas esse novo rei Uthar de Arytell, estava decidido de até o fim de sua vida ter todos os reinos unidos em um só. “O barco esta parado, não há sinal de ninguém, é hora de entrarmos”. Disse o capitão do Lança, que parecia um brinquedo perto do enorme Titania. “Maoth, você vai ter a honra de entrar comigo para abordar”. “Não acho que seja necessário capitão, apenas leve esse sino”. Era uma pela curiosa, dois guizos grandes, que poderiam ser confundidos com os de algum bobo, amarrados em três penas, uma vermelha como sangue, outra negra como o abismo estelar, e a ultima azul celeste, como uma aurora impecável. Abordar outro navio nunca me deu um calafrio na espinha, aquela apreensão de estar fazendo algo errado no lugar errado, foi a primeira e ultima vez que senti algo assim, nunca mais farei algo que mecha com feitiços ou famílias mortas, não depois do Titania. A tripulação já estava preparada, o medo que senti se esvaiu logo que entramos no convés do gigante que estava ancorado, mas por pouco tempo, pois o primeiro que teve as honras de entrar no convés escorregou em sangue espeço e lustroso, um tapete que reluzia a palidez da lua a essa altura. Corpos dilacerados em vários pedaços, a maioria trespassada com estacas de madeira, todos sem a cabeça, estavam agora ornando o circulo em redor do mastro principal. O brilho do mastro também morreu assim que entramos sobrando só o alcance curto do faixo de nossas lanternas. O medo nunca foi algo sólido, algo que estava ali nos esperando, mas não era só ele. Um grito vindo do fundo de um compartimento rasgou a noite, era feminino, mas havia algo errado, pareci estar se arrastando para fora de algo, arranhando uma garganta, e não pedindo por ajuda. Foi quando comecei a identificar a voz de alguns dos meus homens afogadas em seus próprios medos e sangue, um a um, todos cessando de dar seus passos curtos e medrosos, e caindo com algum som estranho, inertes. Quando todos os sons morreram, estava só, o imediato que estava com a lanterna deixou-a cair, e o sangue quase a apagou, em um pulo peguei a lanterna e me virei para trás com a espada em punho, o guizo tocou baixo e vi que a coisa estava parada em minha frente. Os olhos eram dois rubis, lapidados em formas estranhas. As mãos eram garras escuras de sangue e com, pedaços de carne ainda pendurados nelas. As pernas arqueadas deixavam a figura um pouco menor do que eu, e eu sabia que eu não era um homem pequeno, Ao ouvir novamente o guizo, a coisa deu outro passo para trás, e como um louco, segurei o guizo em frente aos olhos dela, e berrei como quem quer espantar a morte aos brados, e ela foi se afastando, até chegar a proa do navio, quando cheguei mais perto, ela se contorceu de uma maneira hedionda entre os vãos da amurada, e foi se arrastando como se fizesse parte do navio até o lugar da carranca, e ali o barulho de madeira estalando e se prendendo em algo foi alto, e a carranca agora era novamente um bela donzela que segurava uma rosa com as duas mãos, leves e delicadas, e com um sorriso que espantaria qualquer temor que os mares trouxessem. “Pendure os guizos na amurada, do lado de dentro, e ela vai descansar até saber quem é seu novo mestre”. “Novo mestre? Que loucura foi essa? Os meus homens. todos eles…” “ Sacrifícios pelo Titania, eles não podem voltar mais, mas você tem o seu tesouro agora, pode mudar as marés de Artenia, para bem ou para o mal”. Com um golpe de machado a cabeça do velho rolou pelo convés, suas palavras se perderam quebrando sob as ondas, assim como seu corpo que empurrei para o fundo do mar, desmerecidamente junto com meus homens, agora só resta queimar esta maldição que se move sobre o mar. Quando decidi o que ia fazer, um barulho de madeira torcida e quebrada encheu a noite, corri com o machado para a proa, para dar tempo de ver que o guizo não estava mais pregado junto a carranca, apenas uma pena pendia torta na ponta do prego, e girava lentamente com o vento marítimo.