O Soturno [Terceira parte]

O bar fedia a ostras sujas e gente morta, as vivas ainda se arrastavam entre as mesas e serviam uma cerveja ruim. As mãos estavam queimadas do frio, mas o sol era ameno e o outono ainda novo perto do mar, um pouco de calor vai me fazer esquecer a torre e os machucados, a fuga foi bem mais perigosa do que a luta com a felina que perguntava sobre a carranca, mas nunca tive tempo de ver se era a minha princesa a que foi devorada. O fogo havia tomado todo o topo da torre assim que eu consegui uma brecha para escapar. Descer sem cordas a torre de mármore me fez sentir vinte anos mais novo, mas minhas mãos e minhas juntas me lembravam toda a  hora que de esse sentimento tem mais de trinta anos. Os ventos açoitavam os cortes com o sangue já seco, e o mármore frio ficava mais íngreme a medida que a descida progredia. A torre tinha a forma de uma ponta de lança espetada no topo da montanha, Pico da Traição era o seu nome, onde dois cavaleiros mataram duas princesas pelo bem de Artenia. O vento conseguiu me vencer uns dez metros de eu estar seguro no chão, e cai por sobre um mar de arvores secas e folhas mortas. Todos os ossos agüentaram a queda, mas a torre conseguiu tirar as ultimas gotas do meu sangue quando eu mordi a língua na queda. A cerveja faria bem ou mal, queimou a língua e latejou nas entranhas, o velho ainda não chegou para conversarmos, ele era a minha ultima saída, ele havia de saber aonde esta a minha princesa, se a torre a sepultou com sua abóboda em chamas, ou se a esfinge se enganou e comeu a donzela errada. Logo que tomei o terceiro copo do amargo trago que me serviram, ele entrou na estalagem segurando o seu cachimbo e dois livros, andava devagar, sussurrando algo para si mesmo, a idade faz essas coisas com as pessoas, você vira a sua melhor companhia. Ele não demorou em me notar, mesmo na parte escura da taverna, eu ainda conseguia estar entre o pouco de luz e as sombras. O homem era muito grande para ser um ladrão, mas era assim mesmo. Braços grossos como se houvesse forjado sozinho um navio de ferro, sangue seco nas mãos e um capuz cobrindo o rosto, a barba saia por ele e era escura e embaraçada, dava de sentir o frio no homem. Sentei em sua frente e estendi o livro maior para ele, As Linhas Sanguíneas do Reinado, um volume pesado e pouco comido pelas traças, escrito em couro de carneiro na língua comum. “O nome dela esta ai, a ultima princesa da casa de Aritell, os novos Reis como eram chamados, o próprio Rei completou o volume”. Ele se aproximou do livro abaixando o capuz, se curvou sobre ele e passou as mãos sangrentas nos detalhes da capa. “Como você conseguiu isso velho?”. “Um parente do rei é um amigo meu, mas não interessa como eu o consegui, e sim o nome da princesa, veja.” Ele abriu o livro com um cuidado que só a idade nos traz bem no meio onde havia marcado com uma fita vermelha a pagina, toda a linha da casa Aritell, desde o que venceu o Rei Pirata estava escrita, sempre com as iniciais em dourado, o parentesco de cada um e sua relevância para o reino.” Adeila Aritell?”.O homem parecia mais confuso do que surpreso, a surpresa não parece ter agradado. “Ela não é a verdadeira princesa, Lianne era filha de Uthar com Sililph, sua verdadeira rainha, Adeila é a bastarda de sua guerra contra o Oeste”. “Ele é o Rei, se ele diz que ela é a princesa, quem pode contestá-lo?”. “Você vai botar juízo na cabeça velha e obtusa dele? “Olhe mais”. “Ela é regente de Vaastfall, ele deu um pedaço de gelo para ela? O que ela pode governar lá? Os ursos brancos e o vento?”. “E todo o território dos magos e os primeiros do Reino, pode parecer uma prisão, mas é uma honra que uma bastarda não merece”. “Então, ela morreu mesmo?, a torre fica a caminho do norte, mas mesmo assim, foi um bom desvia da estrada principal”. “Ela esta segura no norte agora, sentada em seu trono gelado e se aquecendo com vinhos e com o passado”. “A pequena comitiva foi para a torre, logo a frente da liteira dela, o que você viu foi uma aia qualquer que serviu de distração”. “Os magos”. “Não querem novos Reis, nem saber de Aritell, durante duzentos anos eles escolhiam os governantes com o apoio dos Reis, mas Uthar resolveu que os anos de seu fim estavam enfadonhos e resolveu estender sua velhas e quebradiças mãos para o norte.” “Ele poderia ter mandado qualquer lorde ou cavaleiro, daria no mesmo, ele é o Rei”. “Mas o sangue paga todas as dividas, há mais a ser discutido, mas estou esperando novidades do norte ainda, me encontre em Taloosi em três meses, e você saberá o que se fez de sua princesa, agora preciso ficar sozinho, é melhor você ir para o seu quarto e procurar lavar esses cortes, parecem feios”. O velho se aninhou na cadeira como um corvo cinza, dando tragadas lentas e preguiçosas no seu cachimbo, e colocou o livro menor dentro da sua túnica. Subindo até meu quarto a filha do estalajadeiro preparou um banho quente e curativos para minhas mãos, era uma bela flor do outono, com dezenove anos ao menos, suas mãos eram leves e macias, seu sorriso tímido mas sedutor, ao terminar os curativos ela aliviou uma outra dor minha, e dormi acariciando seus cabelos e suas costas, brancas como Agni, mas quem estava nos olhando esta noite era Procion, melhor não provocar a inveja entre as irmãs. Um pouco do vinho temperado e eu já estava dormindo, e os sonhos não eram bons, eu sentia meus pés se moverem sobre ondas, algo cobrindo o meu rosto, permitia só um facho de vislumbre de uma tempestade, e da proa do navio brilhando forte, e tudo virou de cabeça para baixo e eu estava caindo em uma poço cheio de lanças e línguas.

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O Soturno [Segunda parte]

Do facho de luz que o braseiro emitia até o centro do salão, pêlos dourados refletiam pequenas manchas carmesim nas patas da criatura, um vento repentino veio do desdobrar de asas e um grito duro e estridente ao mesmo tempo fez os pelos da minha nuca eriçarem.”Não vou interromper sua janta senhorita”.Mas vou esperar até estar perto o suficiente do corpo para ver se meu prêmio já foi consumido.

Em um movimento lento e preciso, ela levantou o rabo e aninhou as asas nas costas novamente, o rosto era o reflexo da pureza, apenas com algumas manchas de pecado nos lábios, e um pedaço de carne presa nos dentes semicerrados. A língua lambeu o sangue e uma voz suave acariciou meu peito como uma brisa noturna. “E quem precisa mais aparecer, chegar antes ainda dos primeiros viajantes, e tendo um rosto e olhos mesmo assim só com a chuva chorar?”

Criaturas como ela tinham seus caprichos, um era o de carne tenra e crua, o sangue quente escorrendo pelos seus lábios, e a outra era mostrar a sagacidade de suas palavras, o quão enigmático e eloqüente uma mulher com corpo de leão e asas de águia pode ser, uma esfinge no meio do nada.

“Sei que estamos bem informados do mesmo assunto, a proa do navio tem uma escultura,  uma carranca de uma garota com não mais que quinze anos.”

“A refeição foi nobre, mas mais ainda é a intenção, salvar e salivar não rima com coração”.

Não é normal uma coisa dessas sair de um calor confortável para este frio, Harth andava cauteloso em redor do centro do salão, a cada pergunta da esfinge seu braseiro brilhava menos, e se ele não respondesse ela iria exigir o direito sobre sua carne, por ter vencido seu adversário na palavras.As estantes ao redor estavam apinhadas de livros e manuscritos, tinteiros e penas, e varias gaiolas vazias.

“Se não é a minha pequena princesa que foi sua refeição, então pode vir provar da minha lâmina sua vadia alada.”

O rabo da esfinge parou o movimento provocativo e enigmático, as asas se desprenderam novamente e se abriram, e o sorriso agudo da felina foi lavado por uma língua salivante e apressada.

“O que ninguém escuta, mas mesmo assim pede por misericórdia?”. E ela bateu as asas jogando livros e pedaços de mobília e corpos pelo salão. Os livros podem ser valiosos, mas minha vida tem mais graça e daria um melhor que todos.E jogou o braseiro na estante mais cheia de livros, com um clarão amarelo subindo em forma de ampulheta até o topo da estante.

A idade não tirou em nada a destreza dele, quando a criatura veio num vôo mortal com as garras estendidas, um pulo para o lado rolando por sobre alguns ossos e um clarão da adaga tiraram um grito terrível dela, da asa direita um ponto vermelho borrou o tão dourado pelo felino.

Agora no chão, com um andar cauteloso e eriçado, a esfinge contornava o adversário, sempre se afastando do fogo e se aproveitando das sombras e sempre perguntado por “misericórdia?”, parecia uma ave do inferno repetindo varias vezes entre rugidos e grasnados a mesma frase, os olhos verdes e grandes como um punho faiscando com o crepitar dos livros em chamas. Contornando ela, Harth pode ver mais de perto o banquete da criatura de soslaio, deveria ser a filha de alguma criada pelos trapos cinza e marrons que se enroscavam na carne mastigada, mas ao lado dela jaziam dois guardas com um escudo conhecido, um martelo quebrando uma lança em um fundo azul.”Aritell, a casa dos novos reis”.

Agora as chamas tomaram metade da sala, e ameaçavam cremar o corpo do guarda mais alto e robusto. A esfinge subiu até o topo da abóboda e desce batendo as asas violentamente. Dessa vez ela desceu olhando atentamente para a adaga de Harth, e conseguindo esbarrar no homem tirando ele do seu equilíbrio. Ele caiu pesadamente sobre ossos e cinzas, rasgando a velha túnica remendada mostrando sua cota de malha. Agora o fogo se aproximava perigosamente das portas duplas que davam acesso a torre. A esfinge voou pela sala em círculos e pousou bem em frente única saída. “O que acha que pode sair do fogo e cair na fornalha?” E com um giro e um bater de asas derrubou os restos flamejantes da estante na frente a porta.Cansado e meio asfixiado pela fumaça, Harth precisava ser rápido ou seria servido defumado para a criatura. Provocar a esfinge seria loucura, mas antes morrer louco do que queimado.

Dessa vez ele escondeu a adaga e tirou a cota, as cicatrizes nas costas e no peito doíam, mas sem a proteção ele era mais rápido. O sorriso felino estava voando em sua direção agora, os dentes arreganhados e as garras certeiras se lançaram em direção ao adversário.”O que pega fogo depois de voar sem as tripas?”E pulando para frente mais rápido que o bote da esfinge, a adaga escondida no cinto brilhou abaixo da criatura, abrindo um corte profundo do pescoço até a barriga. As asas pararam antes de ela bater nos livros em chamas, e seu grito horrendo ecoou na sala fumegante.

Harth se apressou em acabar com o sofrimento da criatura degolando-a com um corte preciso, e usando agora os trapos da sua túnica para evitar sufocar com a fumaça.As janelas eram bem altas e estava fechadas, mas os anos subindo muros e torres foram bons, e logo ele já havia forçado uma saída para fora da torre pelo dado de fora, estava escuro e frio, e a única luz via das suas costas, do topo do torreão em chamas.

O Soturno [Primeira parte]

Harth  andava rápido em passos pesados até o topo da espiral de mármore, a torre mais alta e velha do fortim abandonado, sempre olhando por sobre o ombro, o braseiro era a solitária guia, vez em quando um pequeno facho de luz sorrateiro iluminava sua tez, dura pelos anos, uma barba hirsuta e negra, os olhos felinos acompanhando o crepitar das sombras, os ombros largos se desviando de pedaços da abóboda quebrada e de morcegos.

A adaga na mão esquerda servia para estocar o escuro e espetar as sombras, arrancando certa vez um guincho de um rato, que irritado, saltou do alto da torre e não fez barulho algum, estava muito alto, e frio agora.

Degraus amplos deram lugar a passagens estreitas entre mobília atulhada como uma barricada, mas agora só restavam pedaços de madeira tortos, queimados e dispersos, como se um pilar de chamas fosse o aríete que arrebentou a frágil proteção.

O vento parou, o ar estagnado tinha um odor de morte e cinzas, segurando a vontade de vomitar, Harth seguiu como pode até o último patamar que era acessível, uma porta com manchas negras e cheiro de sangue estava entreaberta, com cuidado ele afastou-a com a adaga, e iluminou o salão até onde a fraca  luz do braseiro atingia, e bem no centro, uma forma feminina e ao mesmo tempo leonina fazia um barulho de mastigar ossos e roer carne por sob uns trapos que estavam abaixo dela, que lembravam em muito um vestido bem pequeno.