Fundo Raso

O trocado voou e acertou um pano, gasto e comido milhares de vezes no mesmo lugar aonde. As mãos apertavam ou seguravam para o vento não levar

Perdido o que se faça para conseguir o tilintar, vem então a triste decisão, de tentar ao menos no chão os pés tocar.

As feridas se espalham como lagrimas no rosto e cobrem aonde não se pode ver, ainda mais num dia como hoje, onde o que se conta nos olhos não se mostra na alma.

Alma que alias também confundem como lama, densa, maleável se bem irrigada e seca se mal colocada.

Não acabaram os dias então cruzo os dedos e jogo os dados para esperar um trem ou um tapete, a velha de mil e um dias que não aguenta mais as noites.

Ele assoviou uma cantiga antiga de 1990 e poucos, e pensou atrás e não achou nada, e pensou na frente e ainda estava tudo borrado, mas agora ele pensou e assim ficou e se espantou.

Acabem com ele antes que mate a nossa querida, mas não o matem, torturem-no com noites em dias e sonos sem sonhos, tirem suas cores e seus gostos, e ainda mais, não lhe deem o rosto, que seja roto.

Enquanto a forma ia se desfazendo e como a cada dia ruma aos últimos passos ele ia se mexendo, hora andava hora se arrastava, e o chapéu sem fundo tilintava duas moedas de prata com águias enroladas.

A poeira agora caia dos joelhos gastos, não em preces ou crença, mas para procurar aonde foi que esqueci minha presença.

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Noite Vago

A lama subiu pelos calcanhares e respingava até as costas, corri pela estrada malfeita e escura da noite como vagante sem destino.

Logo o crepitar do vento nas folhas secas rangia os galhos que arranhavam como garras, querendo me impelir de volta mas não podiam, estar parado ou olhar para trás dói demais, não sei aonde vou, mas só preciso em afastar. Os trapos molhados e sujos me escondem dos uivos e dos olhares das aves noturnas. Ninguém pode me ver assim, sem correntes que marcam os pulsos e o pescoço, e fitas e laços enfeitados para tentar esconder a dor dos ferrolhos.

Abro os olhos para o céu e vejo cortes alvos no alçapão escuro entre as nuvens, logo o tempo irá clarear e eu ainda não encontrei nenhum lugar. Fico em pé e me arrasto com esforço não sei de onde. Os rastros apagados pela chuva e pelos lamentos sobejavam, esbarrei em teias finas e roseiras espinhosas, escorre meu veneno.

Agora uso ataduras nas mãos já queimadas e agora cortadas e perfuradas, dor sobre dor perdi todo o meu calor, a chuva escorre pela testa junto com os pensamentos e com a luz, o sol não chega mais desse lado do mundo e mesmo assim pouco me seduz.

Prefiro as sombras e o bronze tilintando dos tornozelos até o pescoço, por mais pesadas que sejam as mágoas ainda faço um esforço, ultimo é todo dia que me faz falta alguma alegria, não paro agora, mas não vejo mais fim nessa demora.

Um outeiro para uns, para o desagrado uma montanha belicosa, as correntes agora sujas de lama se prendem nas pontas traiçoeiras e prodigiosas, que como mãos me puxam para baixo e tentam me jogar para trás, nunca mais, nunca mais.

Escalo com os trapos pendurados na fronte e nas mãos, a chuva lava a altivez que um dia tive na dura tez, mas nem largo caminho ou alto monte pode desfazer a nobreza do caminhante, as correntes se partem no martelo do ferreiro que é o tempo, e a cor volta aos olhos do que se arrastava por todo o caminho.

Levanto-me no alto e desafio o futuro, tiro os trapos e fico nu em armadura e espada, faíscam no horizonte as conquistas, reteso o corpo ferido e me preparo para saltar, agora só me resta saber até onde minhas asas de vontade enferrujadas podem me levar.