Sopa de Sol

Um pouco de fel, com o calor da caldeira a requentar novamente em brasa ardente, antes ouvi o porque da receita falhar, sem amor ou ardor foi descaso com o tempo a refogar, a medida errada de lembranças confundidas com as andanças de outra vida a recusar, a dose errada das ervas de sonhos que na noite sem pomos me fez refestelar em lento onirico e fatidico mundo de gorjeias e alem do mar, fiz naus e velas da terra bruta e fui em um atol encalhar, mas acordado com o odor da celebração me fiz de ninguem e vesti a mascara de cetim, olhos furados e costuras erradas logo assim, viram que era o rei da sopa de alecrim, e o primeiro prato me foi feito de fato logo que me sentei no trono carmesim, aonde balidos e chamados urravam pela mascara que toda noite tinha um dono prepotente, que não resisita ao clamor de tais gentes, e logo descobriu o veneno da emoçao, amaldiçoou em brados a sua corrupaçao, e não livrou-se mais de seu rosto, revelou por ele estranha afeição, nobre entre os pobres, nunca mais quis sorver da amarga decepção, da sopa do rei ser apenas uma simples distração, pois o gosto era o ego, e os gritos eram cegos, o que importava era a sua não feição, voltei aos sonhos e ainda estava preso no atol, mas agora haviam feito um farol, coruscava como o sol que nada via, e finalmente o descanço abaixo do seu calor me dei no fim do dia.

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Sem Voz

A vez era minha, ela esfriou os olhares, mas o coração ainda era incerto, eu quase entreguei as intenções, quase me fiz de príncipe, quando na verdade moro em um venenoso casco, vociferando peçonhas e agarrando vontades. Sou lento e prodigioso, mas ela é uma luz, me fez crescer asas e ir como noturno ao encontro da cegante ofegante, quase queimei as idéias e o pulsante. Agora meu dever é o silêncio, é a mudez, viro mármore purpúreo, estatua estacada, mostrando a mesma face tênue e plácida sempre que a vejo, mas por dentro da mascara de pedra, o rosto contorcido em saudade, a vontade de mais uma vez ter os cabelos entre os dedos e o cheiro suave da sua inocência, servir de colo para ela que não sabe, mas tem um reino. Vastas planícies de força, castelos de estrelas e a lua como vestes, e ainda sim é pouco que se faz para aquela que ficou com minha voz, roubou os momentos e quis os entregar ao vento, até de palavras me armei, mas agora me resta a mascara, o tempo é árduo e amargo, ri e se apraz em me vexar, mas ainda estou de pé, e mesmo que ficasse de joelhos, seria para lembrar ela e me levantar, suspirar por dentro e sentir a vontade que é o ácido, o veneno borbulha e a peçonha se distrai, agora só quero no fim uma voz que me diga mais.

A musa

Uma fina cortina de couro levantou com a brisa das velas e dos aromas, dedos frágeis e delicados a afastaram para deixá-lo ver a primeira mascara, uma raposa dourada com a fronte em chamas, e um sorriso fino e pérfido, mas só ela o via, um jovem, uma fonte de joguetes e vaidade. A mascara voltada para a presa, alegre, faceira, o rosto voltado para uma arvore sem folhas, com um par de raízes se estrangulando secamente. Dois passos e ela estava perto dela, um passo e ele ficaria sem mais nada. Essa é a vontade da deusa, da criativa e nunca passiva, altiva. A furtiva que espera a fúria e o ritmo das batidas sem sentido de um pulsante, um ser de dor e alegria, que foi demais e agora n’agonia entre as nevoas do tempo e da vontade esta mordaz, ele a toma nos braços e sorve de seus lábios a mascara, e se compraz mais em sua dor, agora que ornado esta como lobo, a mascara jaz esta sob a pele, e o sorriso de presas a mostra é a faísca de loucura que estava no veneno dela, agora ele veste ela e a mascara para adorar a musa.