O mercador de segredos [ Terceira parte]

Desci a rua do cais logo que o sol espetou sua ultima lança de luz no horizonte. Fossas abertas e bordéis baratos enchiam a rua como vermes na noite, de rostos pintados e vestes coloridas, o cheiro de excrementos talvez até viesse de algumas das mulheres que deixavam um seio a mostra ou algo mais para os marinheiros e mercadores que passavam. Não era o melhor tipo de gente, mas ainda assim tinham a moeda, e aqui a luxuria era barata, e até comoda, pois era arriscado sair de alguma casa mais opulenta no meio da noite, facas afiadas esperavam uma garganta bêbada a qualquer momento. Mais cedo deixei  Maoth junto com meu sobrinho, Clevor, novo e esperto, assim como todas essas malditas crianças. O velho logo o conquistou com algumas historias de deuses antigos e criaturas marinhas estranhas. Ele me deu um par de pesadas chaves e pediu para eu tomar cuidado com os baús vermelhos em couro que ele preparou para a viagem, o carro de boi estava vazio e andava com vagar até chegar ao fim da rua, o pavimento era escasso mas firme, e a vista para o farol era clara. Uma subida em circulo levava a os portões da casa de Maoth, um castelo atarracado e pequeno, com grades grossas como um punho. A primeira chave abriu o portão, depois de entrar e andar um pouco a segunda chave serviu para a pequena porta redonda que ficava na lateral de uma grande torre conjunta ao castelo. Parecia um nódulo separado do castelo, feito de madeira e pedaços de couro seco pelo sol. A casa estava abafada, e um cheiro forte de ervas e vinho formou uma parede junto a porta, um forno gigantesco tomava metade do lugar, o resto eram mesas vazias e quatro baús que fariam voltar o caminho a pé ao lado da carroça certamente. Com a ajuda de mais dois marinheiros o carro foi carregado antes de a lua estar cansada no céu. Até descer o cais os barulhos da noite nos acompanharam canções ébrias dados, moedas e canecos batendo em mesas. O navio estava ao lado de mais três pequenas barcas mercantes, o resto do porto estava apinhado de navios pesqueiros menores, o mar estava calmo e refletia em fachos as luas amarelas, Agni e Procion, bom pressagio ver as duas tão perto do zênite. Subindo no convés gritei para que a carga fosse levada aos porões e cambaleei sonolento até a minha cabine, uma serva veio me trazer um pouco de vinho temperado para ajudar no sono, achei mais conforto nela do que no vinho, e logo já estava dormindo. Os pesadelos que me vieram foram horríveis, a tripulação envolta em um couro negro asfixiada, e a proa brilhando como o sol e as luas, com um barulho de madeira quebrada, o navio se partiu sob uma imensa bocarra, e eu caiu em um fosso negro coberto de presas. Acordei frio do suor que me escorria as costas, a serva já havia saído, e o dia ainda não havia raiado. Assim que saí da cabine ordens forma berradas e velas içadas rapidamente, resolvi que sair antes do sol raiar era o melhor, já que Maoth tinha grande prestígio por aqui, e sua falta seria notada claramente. O Lança da Aurora cortava as ondas do Mar de Tindalos quando o sol estava no ápice, o dia foi longo até o almoço chegar na minha cabine junto com meu convidado especial.”Sente Maoth, você vai ver que mesmo no mar pode-se comer como um rei sobre as ondas”.Maoth havia trocado os trapos de carpinteiro por uma túnica azul com um longo colar de bronze que lembravam pequenas estrelas em elos de dois em dois.”Maoth nunca comeu assim”.E realmente para o velho aquilo era um banquete, com uma sopa de ostras como entrada, pão com alho e lampreia frita com legumes.Isto e mais uma boa cerveja para acompanhar. “Agora se me permite Maoth, quem você é? O filho do cavaleiro vencedor? Foi abandonado pela família ou perdeu todo o seu tesouro em mulheres?”. Todas as histórias tristes começam assim, mas essa era diferente, o velho tinha um olhar sério, os olhos cinza agora pareciam saber de algo escondido em mim, e isso me assustava, mas ele agora é meu, e não se pode ter medo do que você possui.”Meu pai lutou contra os piratas que eram os reis de Artenia, dos mares do Sul e de Taloosi, e ainda escravagistas e feiticeiros.”Ele era um cavaleiro, um lorde também, tinha um grande castelo e terras perto de Mepporeth, mas tudo lhe foi tomado, pois ele foi traído por seu escudeiro mais novo, Glauhir.”Ele ficou sendo escudeiro muito tempo, o Rei não permitiu que se fizesse cavaleiro enquanto ele não provasse a atitude cavaleira, a honra e a justiça, ao contrario, o tolo só queria sangue e glória, e por isso fez meu pai errar o golpe no Rei pirata, deixando tempo suficiente para ele ter a sua glória.”Então você é filho do Cavaleiro da Lua mesmo, mas como você sabe tanto sobre Glauhir?”Ele mesmo veio reivindicar o castelo e as terras de meu pai, ele tinha um pequeno exercito, e o Rei caiu em suas graças não sabendo de sua trapaça, mesmo com meus apelos, eu era só um jovem que perdera o pai, de maneira heróica dizem, mas os mortos não comemoram.” E agora você quer se vingar da casa de Glauhir?”Maoth não quer vingança, só justiça, sou velho para ter terras ou títulos, mas o sangue paga, sempre paga”. Um calafrio subiu minha espinha e chegou ao teto, esse homem tem um rancor horrível dentro dele, é melhor tomar cuidado. ”E como eu posso lhe ajudar, agora que Maoth é meu, eu lhe devo mostrar que sou um bom capitão.” Você é tio do Rei, e ainda assim, é só um mercador. ”Um mercador com voz, alguém que aprecia a vida pacifica e boa, com mulheres e um convés aos meus pés.”A tarde se estendeu enquanto os dois conversavam sobre o passado e o futuro de Maoth, o velho disse que dentro de um mês eu teria o Titania na minha frota, o navio de guerra mais forte que Artenia já viu. Não havia erro, eu finalmente poderia ter um domínio forte sobre o comércio no mar, afinal navios assim são raros nessa costa toda, ainda mais um com renome em batalhas como o Titania. Maoth mais passava o tempo na sua cabine e no porão com seus baús do que comendo ou dormindo, mas os velhos são assim, a vida vai ficando mais curta, e a vontade de estar de olhos abertos supera as outras, não se sabe se depois do sono você ira voltar a abri-los mesmo. Mas eu ainda tenho força, ainda posso matar facilmente dez homens bem armados, ainda sou a concha que não quebra, e o mar é meu lar, meu deus e minha mulher, mas a noite ainda é cheia de pesadelos, e neles eu sou morto todas as noites.

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O Mercador de Segredos [Primeira parte]

 

O prego caiu das mãos tremulas do velho, que agora não sabia mais se precisava pegar, ou se parava até de martelar e serrar.O forma quase animada dançava crepitando nas sombras, lustrando o teto com as mãos abafadas pelo vento, ela era linda.A mais doce e bela donzela, feita do mais puro carvalho e com uma coroa de freixos, era a nova proa do Titania, ou o mais novo peso para acalmar os maus espíritos e passar a falsa paz com  o olhar perdido e singelo dela. O navio estava sendo reparado desde a ultima virada da lua, dois meses trocando mastros e rebites, passando piche e trocando remos, a galera estava agora pronta para mais uma viagem ao sul, mas agora com outra tripulação, os escravos agora eram livres, poucos permaneceram no navio, os velhos demais e os jovens com ânsia de aventura, perto do cais, as casas de pescadores trocavam de lugar as vezes com tavernas e espeluncas, e outras vezes com o mercado para vender óleos, tecidos e perfumes.Mas o cheiro que saia da Ostra Verde fazia jus ao nome da estalagem, em dias como esse era melhor estar no mar com a tripulação a meses sem saber o que é um banho, do que estar no sol a pino do meio do dia escolhendo entre passar mal com as ostras ou com a cerveja azeda.Os dois, não fazia mais diferença depois de seis anos nesse porto. “Não que eu viva aqui, mas é algo parecido com uma casa”. Sempre acabo perto da velha cama de palha e lendo histórias sobre capitães melhores e mais terríveis que remoíam os mares e os ossos dos inimigos, a melhor era do Krushnak De Vorbp, o cão do inferno como era chamado, as velas estavam levantadas sempre, e parecia que demônios uivavam e sopravam ventos fortes e traiçoeiros entre elas, traiçoeiros demais, pois no fim de sua historia, ele se precipitou no fim do mundo, entre um farol e um fortim, esmagando as paredes desse ultimo como se fossem gravetos, mas perdendo toda a tripulação para o resto da frota do Rei, que chegou logo em seguida para salvar a cidade de Mepporeth, já sabia o fim da história, já vi o capitão morrer incontáveis vezes com a espada entre as costelas, estrangulado o primeiro cavaleiro que tentou lhe arrancar a cabeça, não tendo o mesmo êxito com o segundo, Glauhir o chamam, o Chama, pois lutava com os olhos vermelhos de sangue e mãos nuas, ele esmagou a cabeça do capitão do Titania e levou os restos aos pés do Rei, conseguindo o favor deste e da cidade agradecida, neste dia ele deixou muitos descendentes, é o que o povo diz, eu diria que ele criou um exército de bastardos para empurrar um remo ou limpar merda de latrinas mais importantes.

Era fim da tarde quando a nova escultura da proa foi içada, e um senhor de cabelos finos e claros sorria sem satisfação, vendo o destino de sua obra, ele sussurrou algo no ouvido de madeira da escultura, e foi com passos pesados e lentos para o Ostra.