O mercador de segredos [Segunda parte]

Segui não muito atrás do senhor, não conheço muitas pessoas que falem com carrancas, mas esse ai deve ter uma boa história para contar, e talvez isso me ajude a digerir a comida tépida desta estalagem. Ao meio dia até que o lugar estava movimentado, três pessoas inteiras em uma mesa, jogando dados e comendo algo de um balde com um cheiro horrível, espero que ninguém da cozinha tenha confundido a latrina com as ostras, não era difícil. A luz era escassa na estalagem, mesmo de dia, alguns cantos ficavam tão escuros que pareciam cobertos por uma parede de mantos negros, o ar era mais denso neles. Uma pequena nuvem de fumaça denunciou o velho, no canto mais perto do balcão, ele tragava um cachimbo lentamente e olhava para a pilha de copos sujos, e também talvez para o dono da estalagem que estava brigando com um grande mastim sobre um pedaço de porco assado. “Parece que ninguém mais hoje em dia aprecia uma boa carranca”. “Sou Trevor Sledger, capitão do Lança Aurora”. Ensaiei uma breve reverencia e puxei a cadeira a frente do escultor e me deixei largar pesadamente, sei do meu tamanho, mas intimidar antes de iniciar uma  conversa tende a favorecer as perguntas.”E o que o nobre capitão do rei iria querer como Maoth, um simples carpinteiro?”.A voz dele era rouca e pesada, parecia que haviam farpas na sua garganta, e talvez houvessem.”Temo que esteja muito solitário, conversar com suas esculturas talvez lhe traga algum alivio, mas talvez navegar lhe traga mais ainda”.Os olhos de Maoth brilharam com o reflexo vindo de algum lugar do inicio da tarde, uma chama firme e dedicada que procurou palavras mas não as achou.”Mas, Capitão…um velho como eu”.”Deve saber muito mais do que eu e do que metade da minha tripulação”.Isso com certeza, ninguém sobrevive até essa idade nos reinos sem nenhuma habilidade, e talvez ele até tenha um pouco de moeda, ou saiba ao menos um pouco de feitiçaria, não importa, ele agora vai navegar.”Então, já que estou lhe fazendo uma proposta, preciso de uma oferta e uma garantia, eu lhe darei comida, abrigo e proteção, e mais um quinto de cada saque que eu tomar de qualquer homem, para ter você no Aurora”.”Tanto por um velho?, Maoth não vale nem  um balde de mijo, Maoth não é tolo, eu vou, mas não me engane, o que você quer Capitão?”.”Ouvir a história de Maoth é claro, é difícil de achar alguém que tenha a ver com o Titania ainda vivo, creio que você pode me esclarecer algumas coisas, você mata a minha curiosidade, de preferência só ela, e eu lhe ajudo velho, no que você precisar”.Os brilhos nos olhos dele desapareceram, sua boca virou um risco fino e sério, ele tirou um livro de capa de couro marrom e carcomida de seu manto, e as letras na capa me eram conhecidas, falavam sobre o último rei pirata, e como um herói qualquer conquistou sua frota e construiu um reino de sua presa derrotada.

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O Mercador de Segredos [Primeira parte]

 

O prego caiu das mãos tremulas do velho, que agora não sabia mais se precisava pegar, ou se parava até de martelar e serrar.O forma quase animada dançava crepitando nas sombras, lustrando o teto com as mãos abafadas pelo vento, ela era linda.A mais doce e bela donzela, feita do mais puro carvalho e com uma coroa de freixos, era a nova proa do Titania, ou o mais novo peso para acalmar os maus espíritos e passar a falsa paz com  o olhar perdido e singelo dela. O navio estava sendo reparado desde a ultima virada da lua, dois meses trocando mastros e rebites, passando piche e trocando remos, a galera estava agora pronta para mais uma viagem ao sul, mas agora com outra tripulação, os escravos agora eram livres, poucos permaneceram no navio, os velhos demais e os jovens com ânsia de aventura, perto do cais, as casas de pescadores trocavam de lugar as vezes com tavernas e espeluncas, e outras vezes com o mercado para vender óleos, tecidos e perfumes.Mas o cheiro que saia da Ostra Verde fazia jus ao nome da estalagem, em dias como esse era melhor estar no mar com a tripulação a meses sem saber o que é um banho, do que estar no sol a pino do meio do dia escolhendo entre passar mal com as ostras ou com a cerveja azeda.Os dois, não fazia mais diferença depois de seis anos nesse porto. “Não que eu viva aqui, mas é algo parecido com uma casa”. Sempre acabo perto da velha cama de palha e lendo histórias sobre capitães melhores e mais terríveis que remoíam os mares e os ossos dos inimigos, a melhor era do Krushnak De Vorbp, o cão do inferno como era chamado, as velas estavam levantadas sempre, e parecia que demônios uivavam e sopravam ventos fortes e traiçoeiros entre elas, traiçoeiros demais, pois no fim de sua historia, ele se precipitou no fim do mundo, entre um farol e um fortim, esmagando as paredes desse ultimo como se fossem gravetos, mas perdendo toda a tripulação para o resto da frota do Rei, que chegou logo em seguida para salvar a cidade de Mepporeth, já sabia o fim da história, já vi o capitão morrer incontáveis vezes com a espada entre as costelas, estrangulado o primeiro cavaleiro que tentou lhe arrancar a cabeça, não tendo o mesmo êxito com o segundo, Glauhir o chamam, o Chama, pois lutava com os olhos vermelhos de sangue e mãos nuas, ele esmagou a cabeça do capitão do Titania e levou os restos aos pés do Rei, conseguindo o favor deste e da cidade agradecida, neste dia ele deixou muitos descendentes, é o que o povo diz, eu diria que ele criou um exército de bastardos para empurrar um remo ou limpar merda de latrinas mais importantes.

Era fim da tarde quando a nova escultura da proa foi içada, e um senhor de cabelos finos e claros sorria sem satisfação, vendo o destino de sua obra, ele sussurrou algo no ouvido de madeira da escultura, e foi com passos pesados e lentos para o Ostra.