Sangue e Óleo

O motor trovejava pela estrada, o frio cortava as partes minuciosamente nuas, dando uma leve dormência ao Sozinho.

Mais de oito milhas, pouco sono, nada para comer, arriscou certa vez beber um pouco do líquido do tanque, foi ai que parou de dormir e de sentir frio, conveniente no mínimo.

Caminhões e carros pareciam parados, de vez em quando via um par de olhos assustados, quem não ficaria.

Uma possante entidade do asfalto, deslizando e rindo do frio, sem camisa, com o barulho das correntes da porta do inferno vindas da própria alma motorizada.

Parou.

Deslizou bons trezentos metros no gelo, a força com que veio revolveu o que era antes um caminho oculto pela espessa camada de neve, deixou a entidade ali mesmo, a neve derretendo ainda perto do vulcânico escapamento, e uma fumaça subia de seus ombros.

Andou.

Logo a frente achou o que procurava. Um frondoso pinheiro, sem um ponto branco de neve, emanando calor.
Abaixo dos nós e das raízes, cavou com as mãos até achar uma abertura retangular, um orifício foi preenchido por uma esfera encortinada em aço, que se desdobrou e revelou um olho inquisidor, que fitou diretamente o peito do Sozinho, abriu-se a passagem.

Entrou.

Escadas espirais e pesados passos, conforme os ecos se perdiam, as luzes se acendiam. E de um passadiço escuro e estreito, se viu num amplo galpão branco, o teto devia ter uns seis metros de altura, mas os cubículos e estufas deviam ter pouco, menos que a metade dessa altura.

Alguns espectros de branco pararam seus rituais científicos, e um se aproximou, e falou algo como:

-“S-1!?Pensamos que você não voltaria, mas que decisão ótima a sua de nos procurar, andamos falando muito de você seu danado!”.

O silêncio e o maxilar imóvel concluíram sua resposta.

-“Bem, não sei por que você saiu, aliás, como você saiu sem levar sua alma de matéria, para outros, isso é inconcebível, mas acho que você tem bons motivos para ser único, mas que bom que voltou!”

Era um pouco menor que o teto do cubículo, mas aquele não era o maior cubículo, por sorte talvez.

Procurou.

Mesmo sabendo onde estava, a novidade nunca ao todo o abandonava, algo mudou, não pouco ficou.

Novas unidades de energia, mais espectros leais, e a alvura da seita científica intacta, o estandarte era somente um par de letras, “D&P”, o que gera varias opções, se não se soubesse o real sentido, que era constantemente alterado para se encaixar nos intuitos de um, de muitos, e de poucos.

Achou.

O cubículo mais ao fundo, numa quina do retângulo, outra vez uma esfera acortinada, só que esta também tinha boca, ou voz ao menos, o timbre metálico logo ressoou:

-“Veio se buscar?Não é difícil para um autômato ser sarcástico, com o programa de retenção de lógica certo, sabe?É só saber o suficiente para se esquivar dos inconvenientes verbais.”

-“Entre logo”.A porta levantou bruscamente, e viu que a cadeira ainda estava lá, que algo se agitava e estalava, quase que sentiu um sussurro:

-“Bem vindo a você, vamos ser nós de novo?”.

Quem era um cientifico sabia exatamente como montar ou desmontar, e quem era lógico, sabia por sua vez falar, ou desconversar.

Era algo que já estava ali a uns cem anos, o que é praticamente um milênio se tratando de tecnologia, ainda mais orgânica.

Tudo se sabia, as surpresas eram planejadas, nada saiu do rumo, até que algo que estava sobre controle sair do controle.

Mas ninguém notou.

Não era prepotência, era simples costume de infalibilidade. Fácil se deixar levar, pois o comportamento se aliena dez vezes mais rápido que a tecnologia e as coisas que podem dar errado juntas.

Sozinho.

Ele esmagou a parte superior da malha que estava na cadeira, um produto normal teria tombado após tal falha.

Riu.

A malha era você, era aquela coisa que observa e faz peso em suas costas, e isso era notório, pois ela se encaixava perfeitamente na espinha dorsal, nas costelas, e ia subindo pelo cerebelo, até cobrir o crânio e a testa.

O julgamento dependia muito da consciência, e Sozinho viu que só ele, assim mesmo como se chama, fazia um bom juízo das coisas.

Seu problema era que, para melhorar seu julgamento, e ser perfeito, ele precisava da parte que lhe tornou diferente, e para isso, julgou e aplicou uma pena pela primeira vez, a pouco custo, já que não estava com o juízo perfeito, e se matou.

Saiba que não se trata de suicídio, pois ainda se manteve perfeitamente em pé após o feito.

Mas de sua dualidade humana, da qual era impregnado todo o elmo da malha.

Foi difícil convencer o que restou da consciência de que isso era para um bem maior, o seu.

Pior ainda foi colocar a malha, que rasgou e furou braços e peito antes de desistir e se render.

Foi algo digno de pai e filho, Sozinho segurando a malha pelas hastes das costelas, transmitindo toda a sua necessidade de juízo e consciência, e a malha, achando estranho que outra essência movesse a criatura alem dela.

Por fim, em um meio que abraço ensangüentado e oleoso a malha mudou de uma luminosidade vermelha, para um azul tranqüilo, e foi se arrastando até as costas do ser sem juízo perfeito, mas com vontade de justiça

Completou.

Agora a malha já não tinha mais vontade, foi traída, mas por boa causa, enquanto sentava na cadeira que parafusava e injetava a mesma no Sozinho, perdeu os sentidos e apagou.

Ele agora sabia tudo, dominava cada memória dos circuitos da antiga malha, sabia nomes, datas e principalmente, a melhor oficina de polimento e engrenagens do estado.

Tudo isso, pela memória, pela cura, e pelo óleo, agora sabia quem era, Sozinho, mais do que antes.

Saiu.

Um longo espectro branco saiu de um cubículo, e se moveu metódica e lentamente para o passadiço e para a espiral.

O vicio na certeza e na normalidade era tanto que passou, como uma brisa que não se vê, subiu e chegou ao orifício.

O olho acortinado em aço se abriu, e mirou novamente o peito do espectro.

Um momento de silêncio, assustado, arregalou e recuou lentamente o olho metálico, e quando ia piscar, sentiu o peso do martelo do agora cônscio em justiça.

O estrondo foi grande, e o retângulo de aço foi jogado a distancia razoável do pinheiro.

Montou.

A neve agora derretera toda ao redor da entidade do asfalto, por medo ou por respeito. Ela roncou como um trovão e causticou a atmosfera invernal.

Da neve para a pista, era tão rápida que só poderia derrapar quando bem entendesse, e seguiu junto ao Justo, agora o perfeito destino.

Ia demorar até os cultistas do “D&P” notarem o homicídio, e o roboticídio, se bem que para o ultimo a justiça ainda não prevê penas que possam ser adequadas, já que é um crime muito comum.

Agora o caminho estava claro, e o destino me mostrou a melhor oficina de polimento do estado, não tarda, e poderei satisfazer o holocausto que eu devo a entidade do asfalto, a Oficina me espera, e eu a espero.

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Uma hora entre o Sete e o Oito [ Quarta parte]

A moto cortava entre carros e caminhões na rodovia, ela precisava chegar na ponte antes de começar a chover e não poder mais voltar para a cidade portuária.- Isso não pode ser, é só chegar na ponte e anotar os números. Os sonhos diziam a dois anos o que ela devia fazer, com quem ela devia falar, e aonde ela deveria estar, a naturalidade deles espantou ela com o tempo, e ela sempre estava vendo sinais em nuvens, xícaras de café, e até letras de música. É claro que ela pensou que estava louca, afinal trabalhar programando e ajudando gente menos adaptada as tecnologias estressa em níveis inacreditáveis. Mesmo assim no começo ela gostou do jogo, ela teve resultados, viu livros esotéricos com outros olhos, ocultismo e ciência pareciam que sempre foram irmãos, e ela achava estupido como as outras pessoas não enxergavam. Mas ela estava sendo guiada. Ela soube disso quando em um sonho ela acordou, mas a porta do quarto continuou brilhando em purpura e piscando estrelas e sóis, era como olhar a ciranda dos celestes acelerada, e ver tudo começar e acabar varias vezes. – Sempre foi assim. Falou uma voz como o trovão e a tempestade. – O tempo nunca teve que parar, mas agora ele também vai ser obrigado, não sabíamos que isso poderia acontecer, ele era maior antes. Ela encontrava números e fórmulas, runas e cartas espalhadas, escritas ou pichadas, tirava fotos e as colava em um mural bagunçado dentro do armário, depois que o armário ficou pequeno ela decidiu organizar tudo dentro de varias pastas e e-mails com nomes diferentes, ela não podia perder uma pista que fosse, ela estava sendo guiada para o fim, e ele entrou sem querer na fórmula, não pelo acaso, mas sem ela querer, o que ele tinha haver com isso? Mas algo dentro dela sabia que ele não era normal, muito puro, muito parado, ele era o contrario de si mesmo, um paradoxo de óculos e cabelo desarrumado. Ela se viu sabendo latim e outras línguas mortas, e soube que ele também sabia, o sonho falou isso, o sonho falou que ele era tudo, que o tempo dependia dele, mas ele só tinha mais algumas horas aqui, depois de ele ir, todos iriam, querendo ou não, e essa parte ela sabia, só que ele não sabia de nada disso.- É a condição dele, quando for falado tudo vai vir, ele vai se lembrar do que é ser, do que é viver, ele tem a vontade, mas ele foi preparado desde sempre para perder, alguém quer que acabe, alguém achou ele antes, mas parece que sumiu, por breve, mas sumiu. A voz mudava como o fluxo da chuva, como a distância dos raios, mas era séria, era de verdade, ela conseguiu entender isso quando notou que outros também olhavam intrigados para os sinais, será que eles também sabem? Até onde chega esse eco de manipulação? Tanto faz, a moto chegou na ponte, ela anotou os números em um papel, tirou uma foto e mandou para dois e-mails diferentes, garantias eram pouco, quando tudo esta em jogo. Abaixo da ponte o mar rugia inquieto, a chuva começou e ela acelerou em direção a cidade portuária, eram quase cinco horas. Assim que ela passou pela ponte o mar rugiu novamente, e um clarão de trovões iluminou o mar, mostrando as sombras que se mexiam inquietas serpenteando abaixo das ondas.