Uma hora entre o Sete e o Oito [Final]

O cheiro doce de rosas me parou na metade da subida em caracol da estrutura úmida, a chuva tamborilava no topo do farol, e as ondas rasgavam as pedras das paredes e rugiam como o grunhir de um gigante adormecido no chão oceânico. O dia morria rápido, mas o sol já havia sumido desde o começo da chuva forte, na verdade parecia que sempre eram seis da tarde, num inverno novo e estranho, o calor sumiu e estava fresco, e mais escuro a cada passo para cima, e impossível de ver o fundo do farol já. Começou então, um farfalhar de folhas e o barulho forte de correntes se enroscando no lado de fora da estrutura, os passos iam convergindo com os livros nas prateleiras, volumes grandes e pequenos, nomes famosos e desconhecidos de todos os tipos, da dramaturgia até os primeiros romances policiais, só não se encontravam entre os mais variados nenhum denominado de autoajuda. Eles sangravam na capa e as paginas e me fitavam com lagrimas nos olhos, alguns tinham tesouras estocadas entre as folhas, outros caiam e se dissolviam dos degraus já escalados, cobrindo com uma grama rasteira e escura, logo vieram às rosas, e depois os gritos. As prateleiras gritavam em varias línguas, mortas, vivas, novas, os livros caiam como que em suicídio das mais altas prateleiras no fundo do poço, já não era mais um farol, mas um poço com água salgada e densa, as prateleiras chacoalhavam e as órbitas dos livros me dissecavam. Arregalados para o meu coração, alguns entre os meus olhos, mas agora todos tinham tesouras, agulhas ou farpas os cortando, dilacerando, as paginas gemendo de dor e sangrando em nanquim, e cada gota caia nos degraus fazendo poças carmesins, e paredes de rosas escuras subiam tão rápido quanto os livros caiam. O topo estava a dois lances do caracol da escada, agora a luz que girava era a única fonte de claridade, e os gritos pararam, mas a água continuava a subir borbulhando, o cheiro de sal e sangue me puxava para olhar para o fundo, mas eu não podia, eu ia cair se o fizesse. Rosas novamente, doces, suaves ao toque, mas estranhas, ficavam mais densas enquanto subia, até que eu parei, estava preso. O facho de luz me cegou por uns momentos, tudo estava claro, menos em redor do circulo de madeira escura que agora me sustentava, isso e as teias. Coisas longas e esguias, tingidas de vermelho sangue, paginas soltas e sussurros esquecidos entre os ferrolhos, vários passos apressados vieram do cento do funil grudento, patas esguias  faziam   pouco  barulho, e se esgueiravam uma atrás da outra, descendo até a altura de meus olhos. Como uma dança macabra, o resto do corpo aracnídeo se desdobrou de trás das teias, e um torso feminino nu encheu minha visão, ela era bela, mas estava com marcas de espinhos, e havia algo de errado com os seus olhos, como se não estivessem ali. – Tudo o que você não fez esta aqui, esta escrito, agonizando, caindo e se matando, tudo o que impediu veio de você, e mais uma vez, não vai acontecer.

A voz era suave e calma como uma brisa no outono, e ela estava próxima, podia sentir seu hálito de rosas, e suas mãos enrolando as teias como uma linha. O corpo aracnídeo se dobrou sobre si mesmo e arqueou na minha direção, mas de perto era verde, cheio de espinhos, com sulcos rubros pulsando e brilhando.  Algo roçou minha nuca, era como uma caricia, as mãos dela passavam as teias lentamente em meu redor, tudo estava lento e escuro, só o brilho avermelhado dela e a certeza  de que seus olhos estranhos me fitavam. Algo se moveu acima da mulher, ela olhou para cima bem a tempo de um pesado tomo lilás acertar em cheio sua testa, ela perdeu o equilíbrio e deslizou um pouco para trás, tempo suficiente para eu girar a lamina que estava em minha mão, segurar o cabo com força e pular em cima dela. O grito de pavor e o rosto dela foram o suficiente para eu me lembrar de algumas necessidades humanas, as órbitas dos olhos dela estavam vazias, e marcas de lagrimas vermelhas escorriam por elas, talvez até ela tenha lacerado os próprios olhos, mas tamanha força… Inumana, que tenha um descanso de tudo isso. Estoquei a lâmina entre os seis da mulher, e seu grito cessou e se virou em um gemido de dor. O corpo aracnídeo caiu pesadamente, e uma luz forte preencheu o topo do farol, vinda do corte na mulher. Não houve barulho de queda ou de água, só  as folhas farfalhando rapidamente, e galhos arranhando as prateleiras e o breu das paredes do farol. O barulho das ondas morreu, junto com todos os outros sons, uma mão me puxou para cima, e de pé, olhando o poço do farol notei que agora estavam cobertas de raízes e rosas, das paredes até o poço, algumas feitas de paginas rasgadas. Ela me abraçou e me segurou forte, eu respondi igualmente. Sua camisa estava rasgada e ensopada de sangue. – Usei um livro com o seu nome, notei pela capa. -Que bom que eu teria escrito bastante. Teria? Como assim?-Você sabe de tudo não é? Ao menos até aqui, agora ela me disse o resto, não há como parar. – Parar o que? Ela me olhava incrédula, os olhos arregalados e chorosos, puxei ela pelos últimos lances do farol  e subimos finalmente ao topo do mundo.

O farol estava vários metros acima das ondas, e a claridade vinha de longe, do céu estranho e verde que serpenteava sobre nós. Os prédios em nosso redor estavam tomados, tanto pelo mar como que pelos riscos verdes que os serpenteavam, sempre se torcendo por cima e se virando para o farol.

-Ela disse que era algo que era seu, e havia uma garota também, a árvore…

–        Não existem, não podem, mas isso, o céu, a cidade…

–        Ela disse que fazia parte de você, ela estava em seus pensamentos, no que você fazia.

–        E eu a matei, não me sinto diferente, devia ser algo assim não? Devia ser algo tão óbvio assim. Um sentimento, uma vontade.

O céu se abriu em um ponto logo acima do farol, era noite já, as estrelas piscaram todas para o mar, e novamente silêncio. E então começou, nunca havia presenciado um terremoto, ou qualquer outro desastre, mas este passava de longe o absurdo. Uma cabeça enorme e ogival se ergueu do meio da água, olhos enormes e fundos, e braços longos e poderosos, vários deles. Um estalo como um chicote veio quando a coisa desdobrou suas asas cobrindo a pouca luz que vinha do buraco no céu. O discurso que a coisa fez, estendendo os braços para as estrelas e falando em alguma língua grotesca durou alguns minutos, ele pousou os olhos em mim, e estendeu um braço verde e com garras que o mar refletia nas paredes negras do farol. Ela gritou não e usou algo que ardeu meus olhos, senti que me puxava para a beirada, e me derrubou, caímos agarrados vários metros abaixo do farol, eu acertei a areia primeiro, senti a respiração falhar e o mundo clarear, com restos de prédios partidos e um mar com cheiro asqueroso. Ela se debruçou sobre mim e me beijou, e ficou ali, até as ondas trazerem uma peça de roupa estranha, era como que uma camisa, mas mais longa, e com fivelas nas mangas, e depois desta teve outra, e depois tudo ficou claro novamente.

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Uma hora entre o Sete e o Oito [Oitava parte]

Não estava escuro, não no circulo bem no meio da torre do farol. Ao menos eu devia estar no farol, mas o lugar iluminado fracamente parecia um pequeno jardim com uma grama baixa e algumas rosas, e uma arvore escura e torcida por algum vento ruim bem no meio. Não sabia disso, não vi em lugar algum, as referencias acabaram no carro ensanguentado, me segurei nas paredes, mas só consegui me apoiar no ar, não era real, não estava mais no farol, não estava mais na pequena cidade portuária, não estava mais acordada. Dei a volta na arvore em passos curtos, minha respiração e a grama sendo amassada eram os únicos sons, até um soluço infantil sair de onde eu não enxergava, atrás da arvore. Com cuidado, fiquei a certa distancia da arvore e levei o spray de pimenta à altura dos olhos de algo infantil, não sabia o que ia encontrar, mas segurar aquela lata de alumínio me fazia sentir ainda ter algum contato com a sanidade e a realidade. Deitada nos braços de uma mulher com um vestido de várias cores, uma criança com olhos de cores diferentes, chorava com um lado do rosto e ria com o outro, era um rosto, mas era uma máscara também, a mulher acariciava cada uma das faces com as duas mãos, e com as outras duas embalava a criança com leveza e pesar. A face alegre me olhava, a triste não tirava o olho da mãe, e a mulher olhou para a arvore como alguém que quer ver algo além do horizonte. Então a arvore curvou-se, e seus galhos, como duas garras seguraram a criança, a pequena e alva túnica da garota ficou com manchas vermelhas aonde os galhos seguravam, e a mulher no chão ficou desesperada e começou a chorar, suas lagrimas brilharam na fraca luz, mas ela não se levantou para tentar recuperar a menina, agora que havia notado, seus pés estavam presos por espinhos de rosas, e havia algumas que brotavam assim que as lagrimas as tocavam, e eram negras e brancas, assim como as duas faces da mascara da garota. O tronco negro e retorcido agora estava sendo envolvido por algo esguio e escorregadio que serpenteava entre seus galhos e o seu tronco, logo toda a arvore estava tomada pela viscosa aparição, o barulho de madeira quebrando encheu o lugar, e algo metálico arranhar o lado de fora de tudo isso, seja o que for. Um arrepio percorreu minha nuca, quando vi os galhos agora verdes serpenteavam em redor de todo o pequeno jardim, e se enrolavam nas correntes de espinhos que prendiam a mulher. Abriu-se ao meio, bem no topo de sua copa de folhar retorcidas, e dentro dela havia um fedor mórbido e três línguas saltaram para fora e dançavam ao redor da garota, agora as duas faces de olhos diferentes tinham a mesma expressão de terror, e nada atenuou isso, até que os galhos que segurava ela como garras foram se afastando um do outro, e uma luz forte demais para ser encarada começou a sair do meio da garota. Um clarão veio quando os galhos separaram as duas partes da mascara, e depois jogaram os dramáticos restos da agora calada criatura na boca da arvore. As línguas serpentearam o ar e depois agarraram a mascara da garota, e levaram para dentro da maldita arvore, ou o que quer que tenha sido. Não sei o que aconteceu com a mulher, mas ela não estava mais lá, só uma mancha monstruosa de sangue onde ela havia estado. Os galhos pararam de serpentear e a arvore estacou, ainda com a camada verde de tentáculos viscosos, mas agora sem se mover. O silencio e a escuridão foi aumentando, e a única luz vinha da minha fraca lanterna. Na grama, ouvi passos na minha frente, apontei a lanterna, mas não havia nada, tudo havia sumido, ou estava muito escuro. Assim que me virei e tentei sentir novamente aonde eram para haver paredes, senti algo batendo forte na minha cabeça, cai bem próximo a arvore, podia ouvir um barulho fraco de choro infantil, a lanterna estava ao alcance de esticar o braço, mas agora na grama ouvi passos pesados, em uma corrida furiosa, e era algo que vinha em minha direção, um grito fantasmagórico e algum tipo de imprecação em uma língua morta celta, e dois braços fortes me agarraram pelas costas, foi quando eu senti outros dois braços alisando meus cabelos e uma respiração ofegante, o suor ou o sangue deviam estar ensopando minha camisa, eu tremia e perdi toda a noção da realidade, e ela continuou a alisar meus cabelos, cada vez mais forte, e a me apertar, cada vez mais forte, e os barulhos de dentro da arvore aumentaram, e a arvore voltou a se abrir.

A mulher me virou para me encarar, talvez ela pense que eu sou a sua garota, ela tinha a minha altura ao menos, mas quando olhei, as orbitas de seus olhos estavam vazias, e suas mãos estavam cobertas de sangue, e não havia mais pernas, só um corpo de espinhos, lembrava algo como uma aranha, mas com um perfume forte de rosas, aquelas que você põe em cima do mármore frio para dizer adeus.

Uma hora entre o Sete e o Oito [Sétima parte]

Acelerei o carro enfrentando sem cuidado algum as curvas e a chuva torrencial, na beira da estrada vultos dançavam e apontavam para o horizonte, milhares de sombras, algumas brancas e outras lilases, todas apontavam para o norte, e as ondas rugiam ao meu lado. Tive algumas vezes a impressão de que o mar iria se levantar e engolir o mundo, mas não tirava os olhos da estrada, eram quase seis horas e eu ainda não estava lá. Fiz uma curva fechada para a rua do farol e vi outra vez o vulto branco de antes, agora consegui distinguir o seu rosto. Devia ter uns dezoito anos, vinte no máximo. Sorria debilmente para mim e apontava para o horizonte, dessa vez não resisti e olhei, e tudo foi muito rápido. As nuvens carregadas de raios esfaqueavam o mar, e cada vez mais uma cortina verde serpenteante se aproximava da costa, não dava de ver certamente o que era, mas dava de saber que era maior do que eu poderia esperar. Voltando os olhos para a estrada o imprevisto, a sombra da garota havia pulado no para-brisa, os olhos saltados e amarelos com a pupila como um rasgo vertical, a boca cheia de presas pingando algo verde e fétido. No pescoço estrias estranhas que pareciam sulcos na pele. Um golpe, dois golpes e o vidro estilhaçou-se, ela segurou meu pulso com uma força desumana e girou o volante, fazendo o carro virar demais e o mundo inteiro ficar de cabeça para baixo. Mesmo de ponta cabeça a chuva que dera pequena trégua parecia estranha, notei agora que os ventos que aumentavam formavam um caminho entre a rua e o farol, alguns arranhões e consegui sair do carro virado. O relógio havia parado faltando dois minutos para as seis, mas ainda devia ter algo de sorte para mim nisso tudo, o utilitário caiu em cima da criatura, esmagando-a nos restos do vidro, e não demorou assim que a chuva voltou com força e lavou o vestido branco de sua carne azul e asquerosa. – Não posso demorar, se todas as sombras e vultos resolverem ficar com apetite de herói vou me dar mal. Corri para o farol como se o próprio demônio estivesse atrás de mim, o que era algo que eu começava a suspeitar. Alcançado a rua e me aproximando do farol, a noite caiu como uma mortalha negra e molhada, as luzes se apagaram e só os círculos de luz do estacado farol eram visíveis, meu coração acelerou com o rugido do mar em meu encalço, isso e mais algo, havia outras coisas ali, me observando, contando meus passos e as batidas do meu desesperado coração. Corri, corri para as escadas, corri para a luz, nada me parou, nem as sombras com cheiro fétido ou os barulhos de algo que parecia afiado sendo arrastado nos pavimentos da calçada. Os degraus do farol me fizeram tropeçar duas vezes, mas a segurança da porta de ferro que alcancei me deu novo fôlego. Fechei a porta atrás de mim, mas não havia chave ou ferrolhos, afinal não estava no século doze e não havia uma espada ou uma armadura, só um celular com a bateria pela metade e sem sinal e uma pequena faca que comprei por medo da violência na juventude. Empunhando a curta lâmina no escuro, olhei para cima e via a dança de semicírculos que a coroa do farol fazia iluminando o que restou do mundo, engrenei a subir devagar as escadas para o topo da estrutura, as ondas arrebentando nas paredes, como aríetes oceânicos e incansáveis. O relógio deu um ultimo estalo de e me apontou que eram cinco e cinquenta e nove.

Uma hora entre o Sete e o Oito [Sexta parte]

Oito minutos a mais e eu estaria a tempo no farol, acelerei a moto pelas vielas e ruas estreitas da praia, mesmo na chuva as curvas eram fáceis, pois não havia ninguém na rua. Exceto o utilitário da pessoa que segundo as estranhas aparições em meus sonhos e sinais estava virado quase na entrada da rua que leva ao farol. Um minuto inteiro olhando o para-brisa ensopado de sangue me fez ter algumas incertezas quanto a exatidão das visões, das cartas e dos selos escondidos, dos sinais em todas as línguas mortas e esquecidas. Nada falava sobre ele se machucar, no fim eu era quem mais queria acreditar que não houvesse acontecido algo, mas acho que não o havia, eu talvez tivesse aquela percepção que as pessoas que se gostam muito têm quando algo da errado, ao menos eu contava com isso. Ele deve estar bem, mas porque abandonou o carro, ou o que fez virar? Não sei se quero as respostas, mas seis horas são seis horas, ele esta lá, e a chuva também, e todos esses trovões que rasgam o céu e me arrepiam sempre que olho para o horizonte e penso que o vejo tremulando como uma bandeira de cobras, é a chuva e as nuvens, não sei de mais nada, agora acabaram as pistas e as dicas. Acelerei a moto e sai derrapando até o farol. Chegando à beira da calçada, a moto ficou como parou, larguei o capacete e peguei da bolsa um spray de pimenta, alguns talvez pensem que eu devia estar mais preparada, ou precipitada, mas o que me foi dito, em tudo e por todos, foi para ter cautela, e agir só quando fosse a ultima alternativa, podem me chamar de sorte. Corri pela calçada cheia de areia, as ondas batiam com violência na praia e no molhe de pedras que circundava o farol, altas como um poste, o gosto da água salgada e um cheiro forte de algo podre me acertaram como uma parede quando comecei a subir os degraus de pedra para a entrada do farol, e agora eram seis da tarde.

Uma hora entre o Sete e o Oito [Segunda parte]

Os olhos azuis do homem não paravam de querer se encontrar com os meus, não era a mesma coisa, ele sabe, foi só a juventude, foi só uma brincadeira que ficou muito séria, ele tem de saber. Mas ele não fala nada, e é estranho, volta a falar de amor e de não esquecer, depois de anos. Ninguém é assim hoje, ninguém se importa tanto, ele não pode ser assim. Nervosa, só conseguia mexer nas alças da bolsa e falar coisas sem sentido sobre como era e como está ele tem de saber, não sei por que o nervosismo, ou o porquê dele ter de saber, mas talvez isso, talvez isso ele mereça, nunca o vi motivado para algo grande, ele era um conformista, que sabia que tinha potencial, mas preferia ficar sonhando em voar a realmente fazê-lo. Eu precisava de mais, de segurança, ele sabia que eu queria isso, sabia que precisava ser diferente, mas mesmo assim não fez nada. Mas se fez, eu também não o notei, tinha outro, mais envolvente, mais seguro e certo, só que também não foi o outro, e nem sei se esse o era. Hoje não sei quem pode ser, mas no fim, disto este precisa saber. -Não é disso que temos de conversar, o que aconteceu já aconteceu, só quero que me escute. E por favor, me siga, é melhor um lugar mais tranqüilo, aqui não temos nada de bom a lembrar. Ele assentiu com a cabeça, mas sua tristeza era notável, talvez lamentável, ele mudou, e muito. Antes era um garoto de óculos e roupas certinhas, sem sal e sem sonhos. Agora vejo um homem feito, uma barba rala cobria seu queixo quadrado, seu corpo mostrava que o tempo pode ser bom, usava roupas sóbrias e sérias, uma calça jeans justa, com um sapato preto de couro bem polido com detalhes brancos. A camisa preta só servia para modelar suas formas, justa como a calça, os cabelos revoltosos em cachos, e aqueles olhos azuis atrás do vidro dos óculos, os olhos mais puros que eu já vi, agora com uma centelha viva, e acho que até gostaria de me queimar neles hoje, talvez. Senti meu coração acelerar, mas ele não podia, não era a mesma coisa, não era o mesmo, e assenti com a cabeça também e comecei a andar pelo calçadão na direção da capitania. O movimento de natal deixava a cidade um pouco mais agitada, na verdade nos últimos anos a cidade cresceu de uma maneira espetacular, mas com a escassez de terrenos para construir, o crescimento agora era para cima. Prédios brotavam todos os dias de onde antes eram pequenas casas de material ou madeira, algumas poucas foram poupadas pelo bom senso, pois era patrimônio histórico. As pessoas falavam alto e entravam nas lojas com sacolas e saiam mais abarrotadas,duplas de policiais andavam pra lá e pra cá conversando por entre as pessoas. O dia ia ficando quente a medida que chegavam perto da primeira hora da tarde, hora em que chegaram na capitania. O Mercado Público fazia uma pequena sombra nas paredes do novo prédio da Capitania, e o fazia exatamente onde havia um banco, ela foi até e se sentou me oferecendo o lugar vago, as ondas no costado batiam ruidosamente.

Ela cruzou as pernas e viu aonde foram parar os meus olhos, se virou para o lado com uma cara de incrédula, e voltou com uma cara séria, como se o mundo fosse acabar hoje. -O que você acha que pode fazer por mim em uma hora, que você não fez em anos?Ela disse, em um tom gelado que cortou as batidas do meu coração e as trocou por suor de nervosismo escorrendo pela testa e pelas costas, a ponta de incerteza em toda minha vida era ela, e ela quer a resposta que eu sempre quis agora, depois de tantos anos?-Em uma hora? O que você quer fazer com uma hora?O que você pode escutar sem achar que o tempo foi desperdiçado?Pra que tudo isso?-Porque você só tem uma hora, isso quando forem seis da tarde, vou esperar na frente da praia, perto do farol. -Por que aqui?Disse eu lamentoso. -Por que aqui você pode pensar, não há mais ninguém aqui, nem nada que possa te atrapalhar, e você nunca fez isso, você nunca parou e pensou por você, pois bem, pense e me diga depois. Ela falou isso olhando para o mar que agora estava bem agitado, se levantou abruptamente e ia engrenar um passo rápido, mas parou, abriu a boca como se fosse dizer algo.