Cravejado de gotas

Purpúreo ou róseo, o rubro do fim do dia queimava o horizonte e faiscava por entre as arvores, lanças apontando para o celeste manchado de estrelas. Jaziam a dois dias sentados e imóveis, olhando o espetáculo grotesco de partes expostas de maneira indecente e incoerente, assim como uma vida do avesso e posto a prova pelos dias, os minutos eram os anos dos olhares, mas não saiam dali por um simples motivo, as correntes vieram de trás das paredes, quebrando tijolos antigos e arrancando parte do papel que ilustrava com monogramas copiados e semelhantes os corredores de ponta a ponta, e elas eram enferrujadas e rangiam como uma ferrolho velho. Cansados os olhos vinha o pior, pois nos sonhos o alcance dele era ilimitado, imortal. Sangravam de proposito os olhos para vermos que ele simplesmente sabia, não precisava das orbitas no lugar, se conseguia já ver no fundo das memorias as transgressões de uma vida sem premissa ou omissa, depende se você olha para mim ou para ele, e por hora, e se meus temores se fizerem reais talvez ainda por mais três dias, aqui estamos, de costas para uma porta semiaberta, com um vento frio vindo do chão, e olhando todos os dias o sol se pondo, a lua crescendo e mostrando sua foice, até que não aguentamos mais, e ele vem no sono, e ele vem nos sonhos…

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As costas dos vidros polidos

Estava correndo na esteira, tentando botar as ideias no lugar, o cheiro da grama ainda me vinha forte a memória, quando eu a senti novamente aos meus pés, macia e molhada, e o barulho de guizos seguiu os passos encharcados. Rítmicos e incômodos, a cada passo da corrida dois suaves clings seguiam cada metro que avançava. E a floresta estava clareando, achei uma trilha por entre um par de arvores torcidas que saiam quase do mesmo tronco, e se distanciavam uma da outra. Peguei a garrafa d’água e a toalha, enxuguei o suor da testa e diminui em dois a velocidade da esteira. Na televisão um programa desses que falam besteiras passava uma matéria de como os famosos evitavam ser vistos por fotógrafos indesejados. Andando agora na trilha escura, um calafrio já conhecido percorreu minha espinha, e senti como se mil olhos me observassem, e lá estavam alguns deles, pontos vermelhos e amarelos no meio das arvores, azuis e verdes, uns mais separados dos outros, as vezes mais altos que o anterior. Comecei a correr para o fim da trilha, onde a luz voltava e até aumentava, o aroma de folhas secas já estava enjoativo quando algo agarrou forte meu ombro e me puxou, não vi nada, apensa senti os guizos se enroscarem e os clings pararem, começava a escurecer novamente. Voltei a corrida aumentando em dois pontos a velocidade da esteira, o ator careca e com um sorriso canastrão disse que nem sempre é bom ser visto, não que ele fazia coisas que não deveriam ser vistas, mas que não tinham nada de interessante para o publico faminto que os fotógrafos alimentavam. Corri como algum tipo de fera correria atrás de um almoço depois de três dias sem comer, quatro talvez, e as arvores do lado esquerdo deram espaço a um lago de águas negras e pesadas. Não falo como se eu soubesse o quanto de água cabia ali, mas o clima era horrível, era como saber que você faltou uma aula importante porque dormiu demais. Meu lindo vestido foi rasgado repentinamente logo acima da cintura, e pedaços de tecido rubro agora esvoaçavam como os restos de alguma capa heroica, mas a minha corrida foi ficando mais pesada, o barulho incessante dos clings, e os passos rápidos e grosseiros que começaram a me seguir transformou um doce pensamento em uma alucinada tentativa de diminuir a velocidade da esteira e terminar de tomar minha garrafa d’água. Não havia percebido que sempre que olhava para trás, não havia nada, só o som dos passos, foi quando virei rápido mais uma vez a cabeça para ver meu perseguidor, e parei por uns segundos o olhar na margem do lago. Vários olhos de cores e tamanhos diferentes, separados por tecidos costurados em carne, alguns olhos tinham agulhas espetadas, mas ainda estavam abertos, lacrimejando sangue e alguma outra coisa asquerosa, o cheiro doce do bosque foi coberto pela repugnância de algo morto ou bem perto disso. Podia sentir a baforada pestilenta na minha nuca, foi quando na televisão, o ator careca no fim da entrevista, disse que as vezes ele só precisava andar de cabeça baixa, sem fazer muito barulho, que ninguém o percebia, e ele fazia isso as vezes nas noitadas, e no dia seguinte ninguém teria fotos de onde ele estava se divertindo com a sua mais nova namorada. Celine diminuiu a velocidade da esteira para o nível mais lento, algumas senhoras corriam mais rápido que elas no momento. E ela diminuiu o passo até não ouvir mais nenhum maldito cling, e os olhares morreram, e ela sentiu a coisa farejando forte atrás dela, na beira do lago, nas arvores, em seus calcanhares, mas nunca vendo ela, mesmo com mil olhos, a calma e a leveza de seus passos a levaram até o fim da trilha, mais iluminada por uma luz que vinha de lugar nenhum, mas ficava acima dela, isso era uma certeza. E houve um forte barulho de algo pesado, como se algo que farejava o bosque inteiro tivesse pulado no meio do lago de desespero ou vergonha, e ela desligou a esteira, pegou sua toalha e sua garrafa vazia e foi até o seu armário. E não foi para sua surpresa, que em cima de sua bolsa colorida e grande, ela viu um par de guizos amarrados por um fino fio de prata, que brilhava com as cores de vários olhos.