O Mercador de Segredos [Quinta parte]

A noite estava clara e o céu coberto pelo manto de estrelas, Agni coruscava vermelha e imponente, Procion estava encolhida, uma pequena foice azul no distante norte celeste. O grande barco estava ancorado num recife perto da Boca de Tíndalos, e não havia luz alguma no Titania fora o brilho tênue dos mastros, eram feitos de lazurita e topázio, e você podia sentir o clima mudar quando chegava perto deles, segundo as lendas e a própria tripulação, os mastros eram a força do navio, o que o impedia de afundar, o que o deixava escondido até o ultimo segundo de uma investida contra piratas, e o que dava uma força e um fôlego sobre-humanos aos guerreiros. O capitão original do navio tinha um colar na forma das duas grandes luas, e conforme o navio foi sendo desejado e abordado, mudou de dono varias vezes, até que agora pertencia a casa do antigo herói Glauhir Doulway, seu neto, Lorde de Hrsting, tinha a princesa do reino como prometida pela casa dos Novos Reis. A princesa Lianne estava agora a caminho das ilhas geladas do norte, esperando seu futuro rei e providenciando para que o domínio dos magos fosse anexado a Artenia de acordo com a lei do reino. Os magos de Vaastfall dominaram as ilhas por séculos, até mesmo os piratas não ousavam entrar nas águas ao redor delas, mas esse novo rei Uthar de Arytell, estava decidido de até o fim de sua vida ter todos os reinos unidos em um só. “O barco esta parado, não há sinal de ninguém, é hora de entrarmos”. Disse o capitão do Lança, que parecia um brinquedo perto do enorme Titania. “Maoth, você vai ter a honra de entrar comigo para abordar”. “Não acho que seja necessário capitão, apenas leve esse sino”. Era uma pela curiosa, dois guizos grandes, que poderiam ser confundidos com os de algum bobo, amarrados em três penas, uma vermelha como sangue, outra negra como o abismo estelar, e a ultima azul celeste, como uma aurora impecável. Abordar outro navio nunca me deu um calafrio na espinha, aquela apreensão de estar fazendo algo errado no lugar errado, foi a primeira e ultima vez que senti algo assim, nunca mais farei algo que mecha com feitiços ou famílias mortas, não depois do Titania. A tripulação já estava preparada, o medo que senti se esvaiu logo que entramos no convés do gigante que estava ancorado, mas por pouco tempo, pois o primeiro que teve as honras de entrar no convés escorregou em sangue espeço e lustroso, um tapete que reluzia a palidez da lua a essa altura. Corpos dilacerados em vários pedaços, a maioria trespassada com estacas de madeira, todos sem a cabeça, estavam agora ornando o circulo em redor do mastro principal. O brilho do mastro também morreu assim que entramos sobrando só o alcance curto do faixo de nossas lanternas. O medo nunca foi algo sólido, algo que estava ali nos esperando, mas não era só ele. Um grito vindo do fundo de um compartimento rasgou a noite, era feminino, mas havia algo errado, pareci estar se arrastando para fora de algo, arranhando uma garganta, e não pedindo por ajuda. Foi quando comecei a identificar a voz de alguns dos meus homens afogadas em seus próprios medos e sangue, um a um, todos cessando de dar seus passos curtos e medrosos, e caindo com algum som estranho, inertes. Quando todos os sons morreram, estava só, o imediato que estava com a lanterna deixou-a cair, e o sangue quase a apagou, em um pulo peguei a lanterna e me virei para trás com a espada em punho, o guizo tocou baixo e vi que a coisa estava parada em minha frente. Os olhos eram dois rubis, lapidados em formas estranhas. As mãos eram garras escuras de sangue e com, pedaços de carne ainda pendurados nelas. As pernas arqueadas deixavam a figura um pouco menor do que eu, e eu sabia que eu não era um homem pequeno, Ao ouvir novamente o guizo, a coisa deu outro passo para trás, e como um louco, segurei o guizo em frente aos olhos dela, e berrei como quem quer espantar a morte aos brados, e ela foi se afastando, até chegar a proa do navio, quando cheguei mais perto, ela se contorceu de uma maneira hedionda entre os vãos da amurada, e foi se arrastando como se fizesse parte do navio até o lugar da carranca, e ali o barulho de madeira estalando e se prendendo em algo foi alto, e a carranca agora era novamente um bela donzela que segurava uma rosa com as duas mãos, leves e delicadas, e com um sorriso que espantaria qualquer temor que os mares trouxessem. “Pendure os guizos na amurada, do lado de dentro, e ela vai descansar até saber quem é seu novo mestre”. “Novo mestre? Que loucura foi essa? Os meus homens. todos eles…” “ Sacrifícios pelo Titania, eles não podem voltar mais, mas você tem o seu tesouro agora, pode mudar as marés de Artenia, para bem ou para o mal”. Com um golpe de machado a cabeça do velho rolou pelo convés, suas palavras se perderam quebrando sob as ondas, assim como seu corpo que empurrei para o fundo do mar, desmerecidamente junto com meus homens, agora só resta queimar esta maldição que se move sobre o mar. Quando decidi o que ia fazer, um barulho de madeira torcida e quebrada encheu a noite, corri com o machado para a proa, para dar tempo de ver que o guizo não estava mais pregado junto a carranca, apenas uma pena pendia torta na ponta do prego, e girava lentamente com o vento marítimo.

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O Mercador de Segredos [Primeira parte]

 

O prego caiu das mãos tremulas do velho, que agora não sabia mais se precisava pegar, ou se parava até de martelar e serrar.O forma quase animada dançava crepitando nas sombras, lustrando o teto com as mãos abafadas pelo vento, ela era linda.A mais doce e bela donzela, feita do mais puro carvalho e com uma coroa de freixos, era a nova proa do Titania, ou o mais novo peso para acalmar os maus espíritos e passar a falsa paz com  o olhar perdido e singelo dela. O navio estava sendo reparado desde a ultima virada da lua, dois meses trocando mastros e rebites, passando piche e trocando remos, a galera estava agora pronta para mais uma viagem ao sul, mas agora com outra tripulação, os escravos agora eram livres, poucos permaneceram no navio, os velhos demais e os jovens com ânsia de aventura, perto do cais, as casas de pescadores trocavam de lugar as vezes com tavernas e espeluncas, e outras vezes com o mercado para vender óleos, tecidos e perfumes.Mas o cheiro que saia da Ostra Verde fazia jus ao nome da estalagem, em dias como esse era melhor estar no mar com a tripulação a meses sem saber o que é um banho, do que estar no sol a pino do meio do dia escolhendo entre passar mal com as ostras ou com a cerveja azeda.Os dois, não fazia mais diferença depois de seis anos nesse porto. “Não que eu viva aqui, mas é algo parecido com uma casa”. Sempre acabo perto da velha cama de palha e lendo histórias sobre capitães melhores e mais terríveis que remoíam os mares e os ossos dos inimigos, a melhor era do Krushnak De Vorbp, o cão do inferno como era chamado, as velas estavam levantadas sempre, e parecia que demônios uivavam e sopravam ventos fortes e traiçoeiros entre elas, traiçoeiros demais, pois no fim de sua historia, ele se precipitou no fim do mundo, entre um farol e um fortim, esmagando as paredes desse ultimo como se fossem gravetos, mas perdendo toda a tripulação para o resto da frota do Rei, que chegou logo em seguida para salvar a cidade de Mepporeth, já sabia o fim da história, já vi o capitão morrer incontáveis vezes com a espada entre as costelas, estrangulado o primeiro cavaleiro que tentou lhe arrancar a cabeça, não tendo o mesmo êxito com o segundo, Glauhir o chamam, o Chama, pois lutava com os olhos vermelhos de sangue e mãos nuas, ele esmagou a cabeça do capitão do Titania e levou os restos aos pés do Rei, conseguindo o favor deste e da cidade agradecida, neste dia ele deixou muitos descendentes, é o que o povo diz, eu diria que ele criou um exército de bastardos para empurrar um remo ou limpar merda de latrinas mais importantes.

Era fim da tarde quando a nova escultura da proa foi içada, e um senhor de cabelos finos e claros sorria sem satisfação, vendo o destino de sua obra, ele sussurrou algo no ouvido de madeira da escultura, e foi com passos pesados e lentos para o Ostra.

O Soturno [Segunda parte]

Do facho de luz que o braseiro emitia até o centro do salão, pêlos dourados refletiam pequenas manchas carmesim nas patas da criatura, um vento repentino veio do desdobrar de asas e um grito duro e estridente ao mesmo tempo fez os pelos da minha nuca eriçarem.”Não vou interromper sua janta senhorita”.Mas vou esperar até estar perto o suficiente do corpo para ver se meu prêmio já foi consumido.

Em um movimento lento e preciso, ela levantou o rabo e aninhou as asas nas costas novamente, o rosto era o reflexo da pureza, apenas com algumas manchas de pecado nos lábios, e um pedaço de carne presa nos dentes semicerrados. A língua lambeu o sangue e uma voz suave acariciou meu peito como uma brisa noturna. “E quem precisa mais aparecer, chegar antes ainda dos primeiros viajantes, e tendo um rosto e olhos mesmo assim só com a chuva chorar?”

Criaturas como ela tinham seus caprichos, um era o de carne tenra e crua, o sangue quente escorrendo pelos seus lábios, e a outra era mostrar a sagacidade de suas palavras, o quão enigmático e eloqüente uma mulher com corpo de leão e asas de águia pode ser, uma esfinge no meio do nada.

“Sei que estamos bem informados do mesmo assunto, a proa do navio tem uma escultura,  uma carranca de uma garota com não mais que quinze anos.”

“A refeição foi nobre, mas mais ainda é a intenção, salvar e salivar não rima com coração”.

Não é normal uma coisa dessas sair de um calor confortável para este frio, Harth andava cauteloso em redor do centro do salão, a cada pergunta da esfinge seu braseiro brilhava menos, e se ele não respondesse ela iria exigir o direito sobre sua carne, por ter vencido seu adversário na palavras.As estantes ao redor estavam apinhadas de livros e manuscritos, tinteiros e penas, e varias gaiolas vazias.

“Se não é a minha pequena princesa que foi sua refeição, então pode vir provar da minha lâmina sua vadia alada.”

O rabo da esfinge parou o movimento provocativo e enigmático, as asas se desprenderam novamente e se abriram, e o sorriso agudo da felina foi lavado por uma língua salivante e apressada.

“O que ninguém escuta, mas mesmo assim pede por misericórdia?”. E ela bateu as asas jogando livros e pedaços de mobília e corpos pelo salão. Os livros podem ser valiosos, mas minha vida tem mais graça e daria um melhor que todos.E jogou o braseiro na estante mais cheia de livros, com um clarão amarelo subindo em forma de ampulheta até o topo da estante.

A idade não tirou em nada a destreza dele, quando a criatura veio num vôo mortal com as garras estendidas, um pulo para o lado rolando por sobre alguns ossos e um clarão da adaga tiraram um grito terrível dela, da asa direita um ponto vermelho borrou o tão dourado pelo felino.

Agora no chão, com um andar cauteloso e eriçado, a esfinge contornava o adversário, sempre se afastando do fogo e se aproveitando das sombras e sempre perguntado por “misericórdia?”, parecia uma ave do inferno repetindo varias vezes entre rugidos e grasnados a mesma frase, os olhos verdes e grandes como um punho faiscando com o crepitar dos livros em chamas. Contornando ela, Harth pode ver mais de perto o banquete da criatura de soslaio, deveria ser a filha de alguma criada pelos trapos cinza e marrons que se enroscavam na carne mastigada, mas ao lado dela jaziam dois guardas com um escudo conhecido, um martelo quebrando uma lança em um fundo azul.”Aritell, a casa dos novos reis”.

Agora as chamas tomaram metade da sala, e ameaçavam cremar o corpo do guarda mais alto e robusto. A esfinge subiu até o topo da abóboda e desce batendo as asas violentamente. Dessa vez ela desceu olhando atentamente para a adaga de Harth, e conseguindo esbarrar no homem tirando ele do seu equilíbrio. Ele caiu pesadamente sobre ossos e cinzas, rasgando a velha túnica remendada mostrando sua cota de malha. Agora o fogo se aproximava perigosamente das portas duplas que davam acesso a torre. A esfinge voou pela sala em círculos e pousou bem em frente única saída. “O que acha que pode sair do fogo e cair na fornalha?” E com um giro e um bater de asas derrubou os restos flamejantes da estante na frente a porta.Cansado e meio asfixiado pela fumaça, Harth precisava ser rápido ou seria servido defumado para a criatura. Provocar a esfinge seria loucura, mas antes morrer louco do que queimado.

Dessa vez ele escondeu a adaga e tirou a cota, as cicatrizes nas costas e no peito doíam, mas sem a proteção ele era mais rápido. O sorriso felino estava voando em sua direção agora, os dentes arreganhados e as garras certeiras se lançaram em direção ao adversário.”O que pega fogo depois de voar sem as tripas?”E pulando para frente mais rápido que o bote da esfinge, a adaga escondida no cinto brilhou abaixo da criatura, abrindo um corte profundo do pescoço até a barriga. As asas pararam antes de ela bater nos livros em chamas, e seu grito horrendo ecoou na sala fumegante.

Harth se apressou em acabar com o sofrimento da criatura degolando-a com um corte preciso, e usando agora os trapos da sua túnica para evitar sufocar com a fumaça.As janelas eram bem altas e estava fechadas, mas os anos subindo muros e torres foram bons, e logo ele já havia forçado uma saída para fora da torre pelo dado de fora, estava escuro e frio, e a única luz via das suas costas, do topo do torreão em chamas.