Dor de cores

Não se sabe o nome dos ventos que batem no rosto e levam os momentos do outono para outro sem dono, o que valeu não foi uma flor cheia de espinhos, mas sim o caminho que a daninha tapava, muda muda de favores o que não sabe mais até onde chegam as dores, quem mais leva para longe os passos e os ecos do átrio das memórias, lustroso chão polido com pensar e recordar, fez de alguém um mais além, vinde a mim todos os que estão soltos e estranhos, e seremos juntos um como vários, não outros, nem fora das mentes, mas os que falam e os que criam o coração, não é vida batendo mas batalha sem noção, entre ferro, fogo e sangue é aonde se faz valer a minha tentação, encarnada no lábio dos símplices que em poucos invernos tornam o marejar um inferno, mas uma fenda entre eles separa para o seu bom fim a minha ira em sufocamento carmesim, as cores das dores devem começar assim.

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Debilitado, memórias confusas (I)

Era difícil respirar por trás da mascara, o rosto já estava marcado pelos cortes da cerâmica no pescoço e nas têmporas. Havia anos que ele não havia voltado, mas mesmo assim valia a pena observar tudo novamente, sempre pelo mesmo lado, antes da lua chegar no zênite. Um sino ao longe badalou algumas vezes, e as nuvens se condensaram em uma única massa cinza ferrosa acima de nossas cabeças, era mais tarde do que eu queria, e o cocheiro já havia partido a uma hora. Andei com vagar por entre os mármores frios e as esculturas aladas, não pensava mais nela, ou neles, mas em mim, não sabia se havia feito todo o certo enquanto ainda riamos e chorávamos, mas eu fui o ultimo a ficar de pé, mesmo coberto de sacrifícios e amargura. Botei as luvas que havia tirado para depositar o favor as memórias boas, agora andava mais rápido, relampejava ao longe e o contorno de titãs podia ser visto no horizonte, ele estava mais lépido agora, o torpor da madrugada passou pelo seu corpo como uma nuvem de agua morna. Eu queria continuar, e parou embaixo de uma marquise com letras embaçadas em uma placa torta, e ali sentou e dormiu até os pássaros e uma melodia nova o acordar.

Sem Voz

A vez era minha, ela esfriou os olhares, mas o coração ainda era incerto, eu quase entreguei as intenções, quase me fiz de príncipe, quando na verdade moro em um venenoso casco, vociferando peçonhas e agarrando vontades. Sou lento e prodigioso, mas ela é uma luz, me fez crescer asas e ir como noturno ao encontro da cegante ofegante, quase queimei as idéias e o pulsante. Agora meu dever é o silêncio, é a mudez, viro mármore purpúreo, estatua estacada, mostrando a mesma face tênue e plácida sempre que a vejo, mas por dentro da mascara de pedra, o rosto contorcido em saudade, a vontade de mais uma vez ter os cabelos entre os dedos e o cheiro suave da sua inocência, servir de colo para ela que não sabe, mas tem um reino. Vastas planícies de força, castelos de estrelas e a lua como vestes, e ainda sim é pouco que se faz para aquela que ficou com minha voz, roubou os momentos e quis os entregar ao vento, até de palavras me armei, mas agora me resta a mascara, o tempo é árduo e amargo, ri e se apraz em me vexar, mas ainda estou de pé, e mesmo que ficasse de joelhos, seria para lembrar ela e me levantar, suspirar por dentro e sentir a vontade que é o ácido, o veneno borbulha e a peçonha se distrai, agora só quero no fim uma voz que me diga mais.

O ultimo suspiro

 

As gotas contornavam o rosto branco como mármore, ensopando o vestido preto e fazendo da terra lama, o começo da noite veio com o crepitar de um trovão distante, os garfos iluminavam o céu e a chuva escondia a dor. Melhor assim, que não seja aparente a decisão ou o fracasso, que se faça de forte entre os fracos, e assim seja certa, a única correta.Vocifera palavras rudes, mas brinca como menina, ela não se vê no espelho, mas olha como se não fosse nada, só outra coisa fútil e inútil, ela diz juras e convoca chamados, ela não julga mas afoga os condenados, não se sabe realmente, se corrói a tristeza que tanto brada, ou se esta longe, de mãos que já seguraram e acariciaram cabelos e curvas, de palavras sussurradas numa noite cheia, de olhos sinceros e maliciosos, foi-se.O tempo não olha para trás, ele não tem sentidos, só bem me faz, pois as vezes arranca memórias em tom mordaz, ela ainda mora em algum recanto deste pobre rapaz, agora ao menos. Sem estar realmente em paz, penso ainda em suas setas que como as minhas se escondem por detrás, de belas palavras ou ornadas ofensas, que só vêem aqueles que procuram desavença, só desejei um pouco demais e de conhecer seu rosto, acordar com o ultimo suspiro da noite soprando leve nos cabelos dela, enrolar os braços em sua cintura e levar o seu junto ao meu, pobre e torcida alma que lamenta o que não tem, não espero que me escute, mas se escutar tudo bem. Ela foi tempo de ninguém, uma cicatriz que ao lado de muitas formou um homem de alguém, seja feliz, comigo, sozinha, ou mais além…