Uma hora entre o Sete e o Oito [Quinta parte]

O centro se transformou numa gama de cores rajadas de cinza e borradas pelas gotas da chuva, nenhum ponto do céu antes azul era visível, agora a cidade estava coberta por uma mortalha cinza escura, os raios esfaqueavam o horizonte, e as ruas estavam desertas. Nessa pressa eufórica, eu acho que devia estar dormindo ou ainda assustado com o incidente no mercado. Quanto mais rápido eu me dirigia para a praia, mais escuro o céu ficava, e as janelas do carro pareciam borradas por algo transparente, mas que eu quase conseguia tocar. Cheguei na entrada da encosta dos morros que contornam a praia, teria de tomar outro rumo para voltar, pois o retorno a minha frente estava fechado, com uma enorme cratera que se estendia até quase tocar o mar, mas devia ser só o efeito da maré alta, a água batia na calçada pelo lado arenoso, e as ondas vinham com força e raios, não vi mais nenhum carro até agora, alguns estacionados, mas nenhum na estrada. A chuva caiu com pedaços do céu, não conseguia ver nada a minha frente, as gotas tamborilavam fortemente no capo, um ritmo apressado e frenético. Olhando pelos espelhos acho que vi um vulto passar rapidamente de um lado para o outro da rua, aumentei a velocidade mesmo estando nas curvas do morro que ladeia o mar, não havia mais ninguém na estrada. Na ultima curva para contornar o caminho da praia e chegar no farol, uma sombra branca. Devia ter dezesseis, até dezenove anos talvez, mas estava alva, parecia brilhar e sorrir, estava olhando para o mar e apontando, não desviei o olhar dela e freei, ela se virou para mim e acertei-a, gotas rubras explodiram no pára-brisa, parei o carro com um ruidoso frear perto do acostamento, não havia nada na rua. Onde ela estava uma poça de água vermelha formou uma meia lua sendo lavada rapidamente pela chuva, mas persistia, como se fosse um sinal, não era sangue, não ali, não tinha o cheiro. Estava tremendo, acabou? Quero dizer, o que eu sei, a verdade e a realidade? Será que perdi os dois? Enlouqueci antes de acordar? Voltei para o carro, o que começou agora vai ter que terminar, nem que eu acorde amarrado em uma maca e dopado dos sentidos, mas eu vou até o fim. O horizonte estava coberto por nuvens e raios, e o cinza da linha do mar parecia refletir o reflexo de algo serpenteando por todo o longe e passando a altura das nuvens, os trovões pararam e um único rugido foi ouvido, o clarão iluminou todo o mundo por segundos, e as paredes verdes que serpenteavam o horizonte puderam ser vistas por olhos sem razão e ouvidos sem urgência de reação, o mar perto da costa se esvaziou de peixes e pássaros, o fundo do oceano cheirava a algo podre e decadente, mas que ainda persistia, passando o tempo para trás e esperando a hora certa, e eram sete para as seis.

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Uma hora entre o Sete e o Oito [ Quarta parte]

A moto cortava entre carros e caminhões na rodovia, ela precisava chegar na ponte antes de começar a chover e não poder mais voltar para a cidade portuária.- Isso não pode ser, é só chegar na ponte e anotar os números. Os sonhos diziam a dois anos o que ela devia fazer, com quem ela devia falar, e aonde ela deveria estar, a naturalidade deles espantou ela com o tempo, e ela sempre estava vendo sinais em nuvens, xícaras de café, e até letras de música. É claro que ela pensou que estava louca, afinal trabalhar programando e ajudando gente menos adaptada as tecnologias estressa em níveis inacreditáveis. Mesmo assim no começo ela gostou do jogo, ela teve resultados, viu livros esotéricos com outros olhos, ocultismo e ciência pareciam que sempre foram irmãos, e ela achava estupido como as outras pessoas não enxergavam. Mas ela estava sendo guiada. Ela soube disso quando em um sonho ela acordou, mas a porta do quarto continuou brilhando em purpura e piscando estrelas e sóis, era como olhar a ciranda dos celestes acelerada, e ver tudo começar e acabar varias vezes. – Sempre foi assim. Falou uma voz como o trovão e a tempestade. – O tempo nunca teve que parar, mas agora ele também vai ser obrigado, não sabíamos que isso poderia acontecer, ele era maior antes. Ela encontrava números e fórmulas, runas e cartas espalhadas, escritas ou pichadas, tirava fotos e as colava em um mural bagunçado dentro do armário, depois que o armário ficou pequeno ela decidiu organizar tudo dentro de varias pastas e e-mails com nomes diferentes, ela não podia perder uma pista que fosse, ela estava sendo guiada para o fim, e ele entrou sem querer na fórmula, não pelo acaso, mas sem ela querer, o que ele tinha haver com isso? Mas algo dentro dela sabia que ele não era normal, muito puro, muito parado, ele era o contrario de si mesmo, um paradoxo de óculos e cabelo desarrumado. Ela se viu sabendo latim e outras línguas mortas, e soube que ele também sabia, o sonho falou isso, o sonho falou que ele era tudo, que o tempo dependia dele, mas ele só tinha mais algumas horas aqui, depois de ele ir, todos iriam, querendo ou não, e essa parte ela sabia, só que ele não sabia de nada disso.- É a condição dele, quando for falado tudo vai vir, ele vai se lembrar do que é ser, do que é viver, ele tem a vontade, mas ele foi preparado desde sempre para perder, alguém quer que acabe, alguém achou ele antes, mas parece que sumiu, por breve, mas sumiu. A voz mudava como o fluxo da chuva, como a distância dos raios, mas era séria, era de verdade, ela conseguiu entender isso quando notou que outros também olhavam intrigados para os sinais, será que eles também sabem? Até onde chega esse eco de manipulação? Tanto faz, a moto chegou na ponte, ela anotou os números em um papel, tirou uma foto e mandou para dois e-mails diferentes, garantias eram pouco, quando tudo esta em jogo. Abaixo da ponte o mar rugia inquieto, a chuva começou e ela acelerou em direção a cidade portuária, eram quase cinco horas. Assim que ela passou pela ponte o mar rugiu novamente, e um clarão de trovões iluminou o mar, mostrando as sombras que se mexiam inquietas serpenteando abaixo das ondas.