Uma hora entre o Sete e o Oito [Sétima parte]

Acelerei o carro enfrentando sem cuidado algum as curvas e a chuva torrencial, na beira da estrada vultos dançavam e apontavam para o horizonte, milhares de sombras, algumas brancas e outras lilases, todas apontavam para o norte, e as ondas rugiam ao meu lado. Tive algumas vezes a impressão de que o mar iria se levantar e engolir o mundo, mas não tirava os olhos da estrada, eram quase seis horas e eu ainda não estava lá. Fiz uma curva fechada para a rua do farol e vi outra vez o vulto branco de antes, agora consegui distinguir o seu rosto. Devia ter uns dezoito anos, vinte no máximo. Sorria debilmente para mim e apontava para o horizonte, dessa vez não resisti e olhei, e tudo foi muito rápido. As nuvens carregadas de raios esfaqueavam o mar, e cada vez mais uma cortina verde serpenteante se aproximava da costa, não dava de ver certamente o que era, mas dava de saber que era maior do que eu poderia esperar. Voltando os olhos para a estrada o imprevisto, a sombra da garota havia pulado no para-brisa, os olhos saltados e amarelos com a pupila como um rasgo vertical, a boca cheia de presas pingando algo verde e fétido. No pescoço estrias estranhas que pareciam sulcos na pele. Um golpe, dois golpes e o vidro estilhaçou-se, ela segurou meu pulso com uma força desumana e girou o volante, fazendo o carro virar demais e o mundo inteiro ficar de cabeça para baixo. Mesmo de ponta cabeça a chuva que dera pequena trégua parecia estranha, notei agora que os ventos que aumentavam formavam um caminho entre a rua e o farol, alguns arranhões e consegui sair do carro virado. O relógio havia parado faltando dois minutos para as seis, mas ainda devia ter algo de sorte para mim nisso tudo, o utilitário caiu em cima da criatura, esmagando-a nos restos do vidro, e não demorou assim que a chuva voltou com força e lavou o vestido branco de sua carne azul e asquerosa. – Não posso demorar, se todas as sombras e vultos resolverem ficar com apetite de herói vou me dar mal. Corri para o farol como se o próprio demônio estivesse atrás de mim, o que era algo que eu começava a suspeitar. Alcançado a rua e me aproximando do farol, a noite caiu como uma mortalha negra e molhada, as luzes se apagaram e só os círculos de luz do estacado farol eram visíveis, meu coração acelerou com o rugido do mar em meu encalço, isso e mais algo, havia outras coisas ali, me observando, contando meus passos e as batidas do meu desesperado coração. Corri, corri para as escadas, corri para a luz, nada me parou, nem as sombras com cheiro fétido ou os barulhos de algo que parecia afiado sendo arrastado nos pavimentos da calçada. Os degraus do farol me fizeram tropeçar duas vezes, mas a segurança da porta de ferro que alcancei me deu novo fôlego. Fechei a porta atrás de mim, mas não havia chave ou ferrolhos, afinal não estava no século doze e não havia uma espada ou uma armadura, só um celular com a bateria pela metade e sem sinal e uma pequena faca que comprei por medo da violência na juventude. Empunhando a curta lâmina no escuro, olhei para cima e via a dança de semicírculos que a coroa do farol fazia iluminando o que restou do mundo, engrenei a subir devagar as escadas para o topo da estrutura, as ondas arrebentando nas paredes, como aríetes oceânicos e incansáveis. O relógio deu um ultimo estalo de e me apontou que eram cinco e cinquenta e nove.

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O Soturno [Primeira parte]

Harth  andava rápido em passos pesados até o topo da espiral de mármore, a torre mais alta e velha do fortim abandonado, sempre olhando por sobre o ombro, o braseiro era a solitária guia, vez em quando um pequeno facho de luz sorrateiro iluminava sua tez, dura pelos anos, uma barba hirsuta e negra, os olhos felinos acompanhando o crepitar das sombras, os ombros largos se desviando de pedaços da abóboda quebrada e de morcegos.

A adaga na mão esquerda servia para estocar o escuro e espetar as sombras, arrancando certa vez um guincho de um rato, que irritado, saltou do alto da torre e não fez barulho algum, estava muito alto, e frio agora.

Degraus amplos deram lugar a passagens estreitas entre mobília atulhada como uma barricada, mas agora só restavam pedaços de madeira tortos, queimados e dispersos, como se um pilar de chamas fosse o aríete que arrebentou a frágil proteção.

O vento parou, o ar estagnado tinha um odor de morte e cinzas, segurando a vontade de vomitar, Harth seguiu como pode até o último patamar que era acessível, uma porta com manchas negras e cheiro de sangue estava entreaberta, com cuidado ele afastou-a com a adaga, e iluminou o salão até onde a fraca  luz do braseiro atingia, e bem no centro, uma forma feminina e ao mesmo tempo leonina fazia um barulho de mastigar ossos e roer carne por sob uns trapos que estavam abaixo dela, que lembravam em muito um vestido bem pequeno.