Cravejado de gotas

Purpúreo ou róseo, o rubro do fim do dia queimava o horizonte e faiscava por entre as arvores, lanças apontando para o celeste manchado de estrelas. Jaziam a dois dias sentados e imóveis, olhando o espetáculo grotesco de partes expostas de maneira indecente e incoerente, assim como uma vida do avesso e posto a prova pelos dias, os minutos eram os anos dos olhares, mas não saiam dali por um simples motivo, as correntes vieram de trás das paredes, quebrando tijolos antigos e arrancando parte do papel que ilustrava com monogramas copiados e semelhantes os corredores de ponta a ponta, e elas eram enferrujadas e rangiam como uma ferrolho velho. Cansados os olhos vinha o pior, pois nos sonhos o alcance dele era ilimitado, imortal. Sangravam de proposito os olhos para vermos que ele simplesmente sabia, não precisava das orbitas no lugar, se conseguia já ver no fundo das memorias as transgressões de uma vida sem premissa ou omissa, depende se você olha para mim ou para ele, e por hora, e se meus temores se fizerem reais talvez ainda por mais três dias, aqui estamos, de costas para uma porta semiaberta, com um vento frio vindo do chão, e olhando todos os dias o sol se pondo, a lua crescendo e mostrando sua foice, até que não aguentamos mais, e ele vem no sono, e ele vem nos sonhos…

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Sonho?

O desespero seria pior que o desapego? porque tentar querer tanto?
onde eu posso encontrar um espelho para eu me enforcar?
Quero o fim de todas as coisas, minhas coisas sem o fim
Não quero, só espero, e de tanto querer, firo e perco
Quem diria, que eu sou meu pior inimigo? Eu.
Oras, quanto mais perto, mais fácil de se cortar e retalhar.
Mas o sadismo e a crueldade são requintados, longe de ser
Um verdadeiro artista, mas um capricho e esmero na escolha
Das cores, que matam o coração e turvam a visão.
O melhor do pior, é que eu espremo o sangue e o que
Chamo de sentimento em teclas ou grafites, e creio estar
Botando parte de minha essência no papel ou numa tela.
Mas não, mortos não falam, não caminham, e não sentem.
E meu coração já foi enterrado varias vezes.Mas bem
A vida após a morte é discussão ainda, então quem sabe
Meu coração, de tanto morrer, aprenda algo nessas idas e vindas
Desse mundo onírico e lúcido que é um sono sem sonhos...

Não morro o suficiente

Em versos alheios, espremo a vontade de gritar
Do egoísmo, que enraizado é fonte de estupidez
Mas que faz sentido no meu mundo torto, e morto
Agil como a brisa no verão, querendo ser aquele vão
Onde a brecha de luz passa pela porta, e acolhe os olhos
Numa noite trovejante, onde os galhos arranham o vidro
Não sou alento, sou só distração, longe de criar
Mas perto do vulgar, hipócrita sodomita, não faltam amarras
Ou olhares, que me mesmerizem, e me firam com sonhos
De quem eu nunca vou ser, com quem eu nunca vou estar
Só me resta triste e louco, nesta folha lamentar…