O mercador de segredos [Quarta parte]

O convés estava imundo depois das semanas sem descanso de pesca e caça nas ilhas de Tindalos seguindo longe da costa da grande Espada Celeste, o pilar que ilumina as noites de Artenia que fica no centro de Enmoth, de onde os novos reis governavam o continente e as duas grandes ilhas geladas. “Vender metade dos suprimentos para trocar por barris de óleo não é normal.” Disse Corayola, um homem baixo e atarracado com ombros largos de remar em galés escravistas, e a pele branca sempre queimada do sol. O homem falava com outro mais alto e esguio como uma lança, que esfregava o convés vagarosamente e reclamava em grunhidos da língua mercante de Mepporeth. Olhando para baixo pela cabine, Arphazon olhava o movimento de sua tripulação, bem treinados, todos guerreiros escolhidos em batalha contra o capitão, não reclamavam, ao menos na frente dele, sobre suas funções, e não questionavam suas ordens. A bandeira tremulava alto no mastro principal, Uma concha gigante e negra com uma espada cruzada em um fundo verde escuro, assim como o mar que agora o Lança cortava com rapidez em direção a costa de Taloosi. “Logo chegaremos ao Titania velho, ele estava partindo da capital para as terras áridas do oeste, em mais uma heroica batalha pelo reino”. Dessa vez seria uma vitória garantida, o Titania estava indo quebrar uma pequena incursão das casas que ainda não sustentavam a ideia dos novos reis. Terminada essa luta toda Artenia agora seria realmente posse de Arytell, e os novos reis estariam entrando em sua era de glórias. “E você sendo quem é ainda pretende atrapalhar a ascensão do seu próprio sangue”?”Eu prometi lhe ajudar velho, cumpro a minha palavra, não desprezo o meu sangue, mas não tenho nada a ver com essa ganancia por terras e títulos de nosso querido rei”. “Então Maoth achou a pessoa certa, o deus que se move no nada ouviu as minhas preces, e espero que ainda as tenha escutado desde antes, pois ainda temos um navio para limpar”. Falou o velho em tom mordaz, se ele fez algo ou não, que seja, velha feitiçaria ou mercenários contratados, tanto faz, o que me interessa é o premio no fim das ondas, o navio dos heróis que nunca perdeu uma batalha. Seguindo o resto do dia em sua cabine, Arpharazon sentiu dores nas costas e nas pernas, e uma inquietude que o deixou dois dias em claro. Sua serva prontamente veio com unguentos e remédios estranhos, lavei o gosto acre com vinho e curei as dores com alguns serviços extras da mulher. Acordei novamente ofegando, assustado com o mesmo sonho, ela ainda dormia calmamente, seu peito arfava lentamente e a lua refletia o brilho fosco em seus cabelos negros. Talvez fosse melhor uma vida simples, sem complicações ou ambições, só acordar com uma mulher como esta do meu lado, as ondas batendo de leve na proa do meu barco, e apenas a vida monótona de um mercador, mas não era assim para o irmão do Rei, não era fácil querer ser apenas normal, eu era seu braço direito, no mar ao menos, ninguém estava acima de mim, nunca esteve, quebrei castelos e navios de guerra com meus homens, conquistamos todo o sul apenas pelo mar, eu era forte sobre as vagas, mas ainda assim, terminei as glórias das batalhas trocando escudos e espadas por óleos e sedas. A única glória que me sobrara era o Lança da Aurora, por mais mercante que fosse o navio ele ainda era tão imponente quanto sempre foi antes o terror dos inimigos, agora o prazer das mulheres e dos lordes, dos camponeses e das prostitutas. Não havia certeza nas minhas escolhas, mas no olhar de Maoth, havia a dureza dos anos e a certeza da vitória, não converso muito com ele, mas o mantenho com todas as mordomias que eu poderia oferecer até a um rei. “Olhe agora capitão Arpharazon, irmão do Rei de Artenia, Lorde das Armas do Mar e protetor do Reino, veja o seu tesouro, e a ruína da casa de Glauhir”. E antes da linha do horizonte, um navio branco com os mastros luminescentes entre um rubro sangue e um azul de Procion estacavam paradas, suas velas recolhidas, a proa apontava para Mepporeth, e não havia mais uma carranca, mas sim um vazio lúgubre, os olhos do velho brilharam como flamas cinza, e o Lança da Aurora se preparou para abordar.

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O mercador de segredos [ Terceira parte]

Desci a rua do cais logo que o sol espetou sua ultima lança de luz no horizonte. Fossas abertas e bordéis baratos enchiam a rua como vermes na noite, de rostos pintados e vestes coloridas, o cheiro de excrementos talvez até viesse de algumas das mulheres que deixavam um seio a mostra ou algo mais para os marinheiros e mercadores que passavam. Não era o melhor tipo de gente, mas ainda assim tinham a moeda, e aqui a luxuria era barata, e até comoda, pois era arriscado sair de alguma casa mais opulenta no meio da noite, facas afiadas esperavam uma garganta bêbada a qualquer momento. Mais cedo deixei  Maoth junto com meu sobrinho, Clevor, novo e esperto, assim como todas essas malditas crianças. O velho logo o conquistou com algumas historias de deuses antigos e criaturas marinhas estranhas. Ele me deu um par de pesadas chaves e pediu para eu tomar cuidado com os baús vermelhos em couro que ele preparou para a viagem, o carro de boi estava vazio e andava com vagar até chegar ao fim da rua, o pavimento era escasso mas firme, e a vista para o farol era clara. Uma subida em circulo levava a os portões da casa de Maoth, um castelo atarracado e pequeno, com grades grossas como um punho. A primeira chave abriu o portão, depois de entrar e andar um pouco a segunda chave serviu para a pequena porta redonda que ficava na lateral de uma grande torre conjunta ao castelo. Parecia um nódulo separado do castelo, feito de madeira e pedaços de couro seco pelo sol. A casa estava abafada, e um cheiro forte de ervas e vinho formou uma parede junto a porta, um forno gigantesco tomava metade do lugar, o resto eram mesas vazias e quatro baús que fariam voltar o caminho a pé ao lado da carroça certamente. Com a ajuda de mais dois marinheiros o carro foi carregado antes de a lua estar cansada no céu. Até descer o cais os barulhos da noite nos acompanharam canções ébrias dados, moedas e canecos batendo em mesas. O navio estava ao lado de mais três pequenas barcas mercantes, o resto do porto estava apinhado de navios pesqueiros menores, o mar estava calmo e refletia em fachos as luas amarelas, Agni e Procion, bom pressagio ver as duas tão perto do zênite. Subindo no convés gritei para que a carga fosse levada aos porões e cambaleei sonolento até a minha cabine, uma serva veio me trazer um pouco de vinho temperado para ajudar no sono, achei mais conforto nela do que no vinho, e logo já estava dormindo. Os pesadelos que me vieram foram horríveis, a tripulação envolta em um couro negro asfixiada, e a proa brilhando como o sol e as luas, com um barulho de madeira quebrada, o navio se partiu sob uma imensa bocarra, e eu caiu em um fosso negro coberto de presas. Acordei frio do suor que me escorria as costas, a serva já havia saído, e o dia ainda não havia raiado. Assim que saí da cabine ordens forma berradas e velas içadas rapidamente, resolvi que sair antes do sol raiar era o melhor, já que Maoth tinha grande prestígio por aqui, e sua falta seria notada claramente. O Lança da Aurora cortava as ondas do Mar de Tindalos quando o sol estava no ápice, o dia foi longo até o almoço chegar na minha cabine junto com meu convidado especial.”Sente Maoth, você vai ver que mesmo no mar pode-se comer como um rei sobre as ondas”.Maoth havia trocado os trapos de carpinteiro por uma túnica azul com um longo colar de bronze que lembravam pequenas estrelas em elos de dois em dois.”Maoth nunca comeu assim”.E realmente para o velho aquilo era um banquete, com uma sopa de ostras como entrada, pão com alho e lampreia frita com legumes.Isto e mais uma boa cerveja para acompanhar. “Agora se me permite Maoth, quem você é? O filho do cavaleiro vencedor? Foi abandonado pela família ou perdeu todo o seu tesouro em mulheres?”. Todas as histórias tristes começam assim, mas essa era diferente, o velho tinha um olhar sério, os olhos cinza agora pareciam saber de algo escondido em mim, e isso me assustava, mas ele agora é meu, e não se pode ter medo do que você possui.”Meu pai lutou contra os piratas que eram os reis de Artenia, dos mares do Sul e de Taloosi, e ainda escravagistas e feiticeiros.”Ele era um cavaleiro, um lorde também, tinha um grande castelo e terras perto de Mepporeth, mas tudo lhe foi tomado, pois ele foi traído por seu escudeiro mais novo, Glauhir.”Ele ficou sendo escudeiro muito tempo, o Rei não permitiu que se fizesse cavaleiro enquanto ele não provasse a atitude cavaleira, a honra e a justiça, ao contrario, o tolo só queria sangue e glória, e por isso fez meu pai errar o golpe no Rei pirata, deixando tempo suficiente para ele ter a sua glória.”Então você é filho do Cavaleiro da Lua mesmo, mas como você sabe tanto sobre Glauhir?”Ele mesmo veio reivindicar o castelo e as terras de meu pai, ele tinha um pequeno exercito, e o Rei caiu em suas graças não sabendo de sua trapaça, mesmo com meus apelos, eu era só um jovem que perdera o pai, de maneira heróica dizem, mas os mortos não comemoram.” E agora você quer se vingar da casa de Glauhir?”Maoth não quer vingança, só justiça, sou velho para ter terras ou títulos, mas o sangue paga, sempre paga”. Um calafrio subiu minha espinha e chegou ao teto, esse homem tem um rancor horrível dentro dele, é melhor tomar cuidado. ”E como eu posso lhe ajudar, agora que Maoth é meu, eu lhe devo mostrar que sou um bom capitão.” Você é tio do Rei, e ainda assim, é só um mercador. ”Um mercador com voz, alguém que aprecia a vida pacifica e boa, com mulheres e um convés aos meus pés.”A tarde se estendeu enquanto os dois conversavam sobre o passado e o futuro de Maoth, o velho disse que dentro de um mês eu teria o Titania na minha frota, o navio de guerra mais forte que Artenia já viu. Não havia erro, eu finalmente poderia ter um domínio forte sobre o comércio no mar, afinal navios assim são raros nessa costa toda, ainda mais um com renome em batalhas como o Titania. Maoth mais passava o tempo na sua cabine e no porão com seus baús do que comendo ou dormindo, mas os velhos são assim, a vida vai ficando mais curta, e a vontade de estar de olhos abertos supera as outras, não se sabe se depois do sono você ira voltar a abri-los mesmo. Mas eu ainda tenho força, ainda posso matar facilmente dez homens bem armados, ainda sou a concha que não quebra, e o mar é meu lar, meu deus e minha mulher, mas a noite ainda é cheia de pesadelos, e neles eu sou morto todas as noites.

O mercador de segredos [Segunda parte]

Segui não muito atrás do senhor, não conheço muitas pessoas que falem com carrancas, mas esse ai deve ter uma boa história para contar, e talvez isso me ajude a digerir a comida tépida desta estalagem. Ao meio dia até que o lugar estava movimentado, três pessoas inteiras em uma mesa, jogando dados e comendo algo de um balde com um cheiro horrível, espero que ninguém da cozinha tenha confundido a latrina com as ostras, não era difícil. A luz era escassa na estalagem, mesmo de dia, alguns cantos ficavam tão escuros que pareciam cobertos por uma parede de mantos negros, o ar era mais denso neles. Uma pequena nuvem de fumaça denunciou o velho, no canto mais perto do balcão, ele tragava um cachimbo lentamente e olhava para a pilha de copos sujos, e também talvez para o dono da estalagem que estava brigando com um grande mastim sobre um pedaço de porco assado. “Parece que ninguém mais hoje em dia aprecia uma boa carranca”. “Sou Trevor Sledger, capitão do Lança Aurora”. Ensaiei uma breve reverencia e puxei a cadeira a frente do escultor e me deixei largar pesadamente, sei do meu tamanho, mas intimidar antes de iniciar uma  conversa tende a favorecer as perguntas.”E o que o nobre capitão do rei iria querer como Maoth, um simples carpinteiro?”.A voz dele era rouca e pesada, parecia que haviam farpas na sua garganta, e talvez houvessem.”Temo que esteja muito solitário, conversar com suas esculturas talvez lhe traga algum alivio, mas talvez navegar lhe traga mais ainda”.Os olhos de Maoth brilharam com o reflexo vindo de algum lugar do inicio da tarde, uma chama firme e dedicada que procurou palavras mas não as achou.”Mas, Capitão…um velho como eu”.”Deve saber muito mais do que eu e do que metade da minha tripulação”.Isso com certeza, ninguém sobrevive até essa idade nos reinos sem nenhuma habilidade, e talvez ele até tenha um pouco de moeda, ou saiba ao menos um pouco de feitiçaria, não importa, ele agora vai navegar.”Então, já que estou lhe fazendo uma proposta, preciso de uma oferta e uma garantia, eu lhe darei comida, abrigo e proteção, e mais um quinto de cada saque que eu tomar de qualquer homem, para ter você no Aurora”.”Tanto por um velho?, Maoth não vale nem  um balde de mijo, Maoth não é tolo, eu vou, mas não me engane, o que você quer Capitão?”.”Ouvir a história de Maoth é claro, é difícil de achar alguém que tenha a ver com o Titania ainda vivo, creio que você pode me esclarecer algumas coisas, você mata a minha curiosidade, de preferência só ela, e eu lhe ajudo velho, no que você precisar”.Os brilhos nos olhos dele desapareceram, sua boca virou um risco fino e sério, ele tirou um livro de capa de couro marrom e carcomida de seu manto, e as letras na capa me eram conhecidas, falavam sobre o último rei pirata, e como um herói qualquer conquistou sua frota e construiu um reino de sua presa derrotada.

O Mercador de Segredos [Primeira parte]

 

O prego caiu das mãos tremulas do velho, que agora não sabia mais se precisava pegar, ou se parava até de martelar e serrar.O forma quase animada dançava crepitando nas sombras, lustrando o teto com as mãos abafadas pelo vento, ela era linda.A mais doce e bela donzela, feita do mais puro carvalho e com uma coroa de freixos, era a nova proa do Titania, ou o mais novo peso para acalmar os maus espíritos e passar a falsa paz com  o olhar perdido e singelo dela. O navio estava sendo reparado desde a ultima virada da lua, dois meses trocando mastros e rebites, passando piche e trocando remos, a galera estava agora pronta para mais uma viagem ao sul, mas agora com outra tripulação, os escravos agora eram livres, poucos permaneceram no navio, os velhos demais e os jovens com ânsia de aventura, perto do cais, as casas de pescadores trocavam de lugar as vezes com tavernas e espeluncas, e outras vezes com o mercado para vender óleos, tecidos e perfumes.Mas o cheiro que saia da Ostra Verde fazia jus ao nome da estalagem, em dias como esse era melhor estar no mar com a tripulação a meses sem saber o que é um banho, do que estar no sol a pino do meio do dia escolhendo entre passar mal com as ostras ou com a cerveja azeda.Os dois, não fazia mais diferença depois de seis anos nesse porto. “Não que eu viva aqui, mas é algo parecido com uma casa”. Sempre acabo perto da velha cama de palha e lendo histórias sobre capitães melhores e mais terríveis que remoíam os mares e os ossos dos inimigos, a melhor era do Krushnak De Vorbp, o cão do inferno como era chamado, as velas estavam levantadas sempre, e parecia que demônios uivavam e sopravam ventos fortes e traiçoeiros entre elas, traiçoeiros demais, pois no fim de sua historia, ele se precipitou no fim do mundo, entre um farol e um fortim, esmagando as paredes desse ultimo como se fossem gravetos, mas perdendo toda a tripulação para o resto da frota do Rei, que chegou logo em seguida para salvar a cidade de Mepporeth, já sabia o fim da história, já vi o capitão morrer incontáveis vezes com a espada entre as costelas, estrangulado o primeiro cavaleiro que tentou lhe arrancar a cabeça, não tendo o mesmo êxito com o segundo, Glauhir o chamam, o Chama, pois lutava com os olhos vermelhos de sangue e mãos nuas, ele esmagou a cabeça do capitão do Titania e levou os restos aos pés do Rei, conseguindo o favor deste e da cidade agradecida, neste dia ele deixou muitos descendentes, é o que o povo diz, eu diria que ele criou um exército de bastardos para empurrar um remo ou limpar merda de latrinas mais importantes.

Era fim da tarde quando a nova escultura da proa foi içada, e um senhor de cabelos finos e claros sorria sem satisfação, vendo o destino de sua obra, ele sussurrou algo no ouvido de madeira da escultura, e foi com passos pesados e lentos para o Ostra.