Debilitado, memórias confusas (I)

Era difícil respirar por trás da mascara, o rosto já estava marcado pelos cortes da cerâmica no pescoço e nas têmporas. Havia anos que ele não havia voltado, mas mesmo assim valia a pena observar tudo novamente, sempre pelo mesmo lado, antes da lua chegar no zênite. Um sino ao longe badalou algumas vezes, e as nuvens se condensaram em uma única massa cinza ferrosa acima de nossas cabeças, era mais tarde do que eu queria, e o cocheiro já havia partido a uma hora. Andei com vagar por entre os mármores frios e as esculturas aladas, não pensava mais nela, ou neles, mas em mim, não sabia se havia feito todo o certo enquanto ainda riamos e chorávamos, mas eu fui o ultimo a ficar de pé, mesmo coberto de sacrifícios e amargura. Botei as luvas que havia tirado para depositar o favor as memórias boas, agora andava mais rápido, relampejava ao longe e o contorno de titãs podia ser visto no horizonte, ele estava mais lépido agora, o torpor da madrugada passou pelo seu corpo como uma nuvem de agua morna. Eu queria continuar, e parou embaixo de uma marquise com letras embaçadas em uma placa torta, e ali sentou e dormiu até os pássaros e uma melodia nova o acordar.

Anúncios

Devorado

Encolhido em um canto dos olhos, fumegando entre os dentes da vontade, a verdade é uma faca curta e curva, que corta e esfola a realidade. Asas não batem sem voar em sonhos, antes redigidos com certeza, pertos d perderem a destreza o que se faz de um dragão quando ele já queima até a quem lhe preza? Guardei-o em um porão feito de céu e sedas pintadas a mão, as brasas sempre aquecem meus pensamentos antes perdidos no meio dos elementos. Baixo e curto é o sopro das cordas no vento, o pulsado batendo alado pedindo desculpas a quem foi magoado, não sei de mim, mas longe assim só posso pedir que me entreguem a sua verdade, ou numa noite olhar para a lua e pensar nas faces da sobriedade, será que já a vi estando no torpor da saudade? Quem pode se lembrar dos anjos enterrados na tempestade? Afogados aos prantos de navios em uma tarde, aonde chego com a carruagem para trovejar longe da cidade. Agora quero um amargo gole da pura maldade, pois de bom me fiz de ponte para a felicidade, e passou pelas minhas costas deixando cicatrizes de bondade, a cura foi a agulha com o fio da fome, que sempre aparece com a mascara branca e plácida de cabelos negros e olhos de vaidade. Quero pena e nanquim para escrever as loucuras do morador carmesim. A vaga da realidade perde-se nos teceres do sem sorte, que crispado em flamas agora, fez refeição de si mesmo nos velhos cortes.