Uma hora entre o Sete e o Oito [ Terceira parte]

Não esperei, um passo e uma mão em volta da cintura dela, um olhar que não podia ser desviado. Os corações bateram fortes e se encontraram em seus lábios. O beijo parecia natural depois dos anos, ambos se entregaram aos minutos e as caricias, ela agarrou minha camisa forte, como querendo me empurrar, mas não conseguia, apertou meus braços até cravar as unhas e se aproximou mais. Ela me olhou pasma, quase sem ar, o peito arfando rápido e a boca semi-aberta,com os lábios que me atraiam sempre que os olhava, sabendo que eu queria mais, e ela mesma também, deu um simples beijo e segurou meu rosto e disse. -Mais tarde você sabe onde. Ela se foi, e sobraram o som das ondas batendo no costado da Capitania, e as gaivotas grasnando e voando baixo no rio. Segurei o parapeito com força, queria dobrar as barras de alumínio e jogar elas no fundo do rio, fiz o certo ou fui fraco novamente? Sentei-me na sombra do mercado publico, ouvindo o movimento ruidoso dos turistas e dos vendedores, uma hora depois das seis, o que ela não falou que importa tanto?O que ela quer ouvir?Eu sei que ela não me entende, mas e isso?E se for mesmo assim?Estaria eu doente e só contaram pra ela?Não tenho as respostas que ela pode ter, mas eu tenho que falar para ela que não tenho mágoas, só arrependimentos. De não ter a força que eu tenho agora, a vontade de ser o que nunca poderia ter sido se estivesse com ela. Ela moldou minha vida, foi o sonho que lembrei depois que acordei. O que aprendi com os erros não poderia ter doído mais do que o fez, a saudade de estar junto, de acordar com os beijos dela, de tudo o que pode ser dado a um homem para fazê-lo feliz, e acabou tão de repente como quando começou, eu me lembro que havia uma lua cheia e amarela no céu, mas quando acabou era um noite escura e sem estrelas, ela me devolveu o anel que recebeu no fim da tarde com um sorriso, quando éramos jovens e tolos, quando ambos tínhamos o mesmo caminho. Agora sei  que dizer a ela, que não foi ela a culpada, nem eu, mas o caminho que nos junto e nos separou. Se eu tivesse uma hora, apenas uma hora, seria para estar com ela onde quer que ela queira, e falando em como os sonhos são belos e doces como as palavras, mas ela já havia ouvido tais coisas, e há gestos que valem mais do que os encontros da língua. Ficaríamos juntos onde quer que fosse, na frente da empresa dela, na faculdade onde ela estudava na praia, no carro, qualquer lugar, faríamos o que homens e mulheres fazem de melhor juntos quando estão mais que apaixonados, e sim com um fogo no corpo, um desejo de se afogar nos lábios e nas vontades, e seria a melhor hora Do dia dela, e seria a melhor hora da minha vida.

Olhei para o céu para ver como estaria o tempo e me assustei, colunas de nuvens negras se formavam no canto da cidade, o vento se precipitou e o mar crispou ainda mais as ondas, não havia notado como a água parecia ter um tom mais avermelhado, como se fosse barro. Os trovões estalaram como chicotes no horizonte, e a tarde virou noite em pouco, turistas correndo para se abrigar em lojas e marquises, e a população correndo para casa  preocupada com roupas ou aparelhos na tomada. Dirigi rápido até o centro para comprar algumas coisas para o jantar, mesmo sozinho ainda aprecio uma refeição no fim da noite, um vinho e alguma massa pronta serviriam perfeitamente, talvez o vinho eu compre agora e leve quando eu for vê-la. Olhando pelo retrovisor em uma curva para o mercado o céu trovejante tinha um buraco com um azul tranqüilizante, parecia que ia ser engolido pelas colunas cinzentas e trovejantes, mas parecia borrado, um azul que distorcia as nuvens que chegavam perto, como se fosse visto de um vidro côncavo.

Não parei o carro, pois a chuva aumentara, e também a curva não me permitia ter uma boa visão de qualquer maneira. O mercado estava apinhado de turistas e das próprias pessoas da cidade, ele havia sido reformado a pouco e comportava um grande numero de carros em um pátio coberto com pilares coloridos dos aonde estavam carros populares e importados, fora o grande espaço ainda dentro dos novos muros de concreto pré-moldado. A vaga veio difícil depois de duas voltas no estacionamento, andei lentamente até a rampa de entrada, a praça de alimentação estava apinhada de pessoas e funcionários, bandejas indo de um lado para o outro e garfos tilintando abafados pelas conversas altas, passei rapidamente pela farmácia e logo entrei no mercado para procurar algo rápido e aceitável, e um vinho que fizesse o tempo ficar leve e preguiçoso.  Demorando-me no caixa, olhei alguns turistas com umas tatuagens estranhas nos braços, asiáticos, mas não reconheceria se fossem de um continente ou de uma ilha, voltei meus olhos para a luz piscando o numero do caixa e voltei  para o carro. Chegando perto do utilitário, vi que o vidro parecia meio rachado, ou borrado, cheguei perto e tive a mesma impressão de quando olhei pelo retrovisor. Uma sombra passou rápido pelo canto do meu olho e sumiu no topo da coluna do estacionamento, os canos que ficavam junto das luzes começaram a tremer, e a fazer um barulho como se algo que eles não pudessem segurar estivesse rastejando lentamente neles. Uma cachoeira de água irrompeu de um cano logo a frente do meu carro,acertando  o vidro dianteiro da pobre picape e estilhaçando com a peça de metal caída bem em cima dele,  uma água meio avermelhada descia lentamente pela boca quebrada e torta. Uma poça irregular foi se arrastando em minha direção, e novamente o barulho nos canos, agora mais estridente, como se algo com laminas estivesse se arrastando por eles, dessa vez eu me joguei dentro do utilitário e acelerei.

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Uma hora entre o Sete e o Oito [Segunda parte]

Os olhos azuis do homem não paravam de querer se encontrar com os meus, não era a mesma coisa, ele sabe, foi só a juventude, foi só uma brincadeira que ficou muito séria, ele tem de saber. Mas ele não fala nada, e é estranho, volta a falar de amor e de não esquecer, depois de anos. Ninguém é assim hoje, ninguém se importa tanto, ele não pode ser assim. Nervosa, só conseguia mexer nas alças da bolsa e falar coisas sem sentido sobre como era e como está ele tem de saber, não sei por que o nervosismo, ou o porquê dele ter de saber, mas talvez isso, talvez isso ele mereça, nunca o vi motivado para algo grande, ele era um conformista, que sabia que tinha potencial, mas preferia ficar sonhando em voar a realmente fazê-lo. Eu precisava de mais, de segurança, ele sabia que eu queria isso, sabia que precisava ser diferente, mas mesmo assim não fez nada. Mas se fez, eu também não o notei, tinha outro, mais envolvente, mais seguro e certo, só que também não foi o outro, e nem sei se esse o era. Hoje não sei quem pode ser, mas no fim, disto este precisa saber. -Não é disso que temos de conversar, o que aconteceu já aconteceu, só quero que me escute. E por favor, me siga, é melhor um lugar mais tranqüilo, aqui não temos nada de bom a lembrar. Ele assentiu com a cabeça, mas sua tristeza era notável, talvez lamentável, ele mudou, e muito. Antes era um garoto de óculos e roupas certinhas, sem sal e sem sonhos. Agora vejo um homem feito, uma barba rala cobria seu queixo quadrado, seu corpo mostrava que o tempo pode ser bom, usava roupas sóbrias e sérias, uma calça jeans justa, com um sapato preto de couro bem polido com detalhes brancos. A camisa preta só servia para modelar suas formas, justa como a calça, os cabelos revoltosos em cachos, e aqueles olhos azuis atrás do vidro dos óculos, os olhos mais puros que eu já vi, agora com uma centelha viva, e acho que até gostaria de me queimar neles hoje, talvez. Senti meu coração acelerar, mas ele não podia, não era a mesma coisa, não era o mesmo, e assenti com a cabeça também e comecei a andar pelo calçadão na direção da capitania. O movimento de natal deixava a cidade um pouco mais agitada, na verdade nos últimos anos a cidade cresceu de uma maneira espetacular, mas com a escassez de terrenos para construir, o crescimento agora era para cima. Prédios brotavam todos os dias de onde antes eram pequenas casas de material ou madeira, algumas poucas foram poupadas pelo bom senso, pois era patrimônio histórico. As pessoas falavam alto e entravam nas lojas com sacolas e saiam mais abarrotadas,duplas de policiais andavam pra lá e pra cá conversando por entre as pessoas. O dia ia ficando quente a medida que chegavam perto da primeira hora da tarde, hora em que chegaram na capitania. O Mercado Público fazia uma pequena sombra nas paredes do novo prédio da Capitania, e o fazia exatamente onde havia um banco, ela foi até e se sentou me oferecendo o lugar vago, as ondas no costado batiam ruidosamente.

Ela cruzou as pernas e viu aonde foram parar os meus olhos, se virou para o lado com uma cara de incrédula, e voltou com uma cara séria, como se o mundo fosse acabar hoje. -O que você acha que pode fazer por mim em uma hora, que você não fez em anos?Ela disse, em um tom gelado que cortou as batidas do meu coração e as trocou por suor de nervosismo escorrendo pela testa e pelas costas, a ponta de incerteza em toda minha vida era ela, e ela quer a resposta que eu sempre quis agora, depois de tantos anos?-Em uma hora? O que você quer fazer com uma hora?O que você pode escutar sem achar que o tempo foi desperdiçado?Pra que tudo isso?-Porque você só tem uma hora, isso quando forem seis da tarde, vou esperar na frente da praia, perto do farol. -Por que aqui?Disse eu lamentoso. -Por que aqui você pode pensar, não há mais ninguém aqui, nem nada que possa te atrapalhar, e você nunca fez isso, você nunca parou e pensou por você, pois bem, pense e me diga depois. Ela falou isso olhando para o mar que agora estava bem agitado, se levantou abruptamente e ia engrenar um passo rápido, mas parou, abriu a boca como se fosse dizer algo.