Calígula

Não, errado não, impaciente, não venha me dizer que você consegue ouvir por mais de alguns segundos o que a lascívia fala e o que a mascara carrega.

É fétido, podre, o odor infausto fica impregnado no colarinho e você ainda se pergunta: “Por quê?”.

Pois bem, não se começa dessa maneira, é a mais vulgar, mas combina com a situação e com ela.

Sabe quem é? A língua desalmada que percorre vários lugares e, diga-se de passagem, de trapo não tem nada.

É couro, é veludo que acaricia a primeira vez, mas da segunda vez é áspera, felina, você sente o carinho mas sabe que a sensação não esta certa. Vou dizer por que o fogo não se mistura com o veneno. Não, não fui eu que me inflamei e difamei o que se achava menos favorecido, não fui eu que plastifiquei meu semblante para me tornar a nova constante. Apenas empurrei aquela pequena vontade infeliz para o melhor lugar que encontrei.

Não, não há tapetes ou armários, só a sobriedade.

E daí que minhas armas têm perjuras? Se com o veneno minha coroa é ungida e a cerco de setas?

Quem poderia dizer que o efeito seria não letal, mas lento, uma ampulheta feita de óleo e água, aonde esta o tempo?

Você se pergunta se é a pessoa certa para fazer o papel, se é o seu ato, a sua hora.

Não desvie de ser pisado, ao contrário, mude a cena, diga sua fala e segure as lágrimas, não há mais de quatro que merecem vê-las mesmo.

caligula

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Alguém com alguém

O que tinha saído da lua logo se voltou contra as luzes que refletiam nas cordas finas do pensamento, se rebentam em revoltosas tormentas abaixo do oceânico julgamento, antes de criar ou agourar o momento, quem disse isso para mim foi um ser de prantos e lamentos, chifres torcidos e patas feridas, pregadas em cascos de ônix, o fogo lhe faltara, assim como as asas, sentia saudade dos lugares altos, e agora era só um que se punha a dar saltos, de mente em mente sempre descontente, passando sua vida sempre para frente, atrás vinha alguém, perto do limite da beira do monte, luz se fez de onde antes era Aqueronte, pilares foram apagados e para sempre enterrados, as chamas vinham de cima e de baixo como em torrente, agora mais para cima ficavam as fitas que ornavam as correntes, fortes e firmes se enroscavam nos elos prepotentes, o garoto que via as coisas agora era mais um valente, a pisar forte nesta terra de sol sem gentes, ele abriu caminho entre línguas ferinas com seu ofídio estocar, e do fel de sua boca veneno era o seu paladar, guerreiro das palavras soldado dos versos, se punha em riste ante a lua para subir a escada celeste, e dentre os desconhecidos perder o nome e finalmente ganhar os sentidos, quem é aquele que vem de longe de tantos alaridos, ouvi agora aquele que é ferido em motivos, percebe agora que entre as lentes dos olhos há um que de cuidado, e assim é o nome do homem de cabelos desvairados, condado em carmesim e teia de cravos, o veneno mais forte já me foi injetado, embaralha a visão e atrapalha o julgamento da emoção, me faça o favor de não ser pego inoculado, imaculado é o pensamento daquele que sabe onde esta o errado, e diz-se dele uma só palavra em todo lado, estranho é aquele de cabelos encaracolados.

Asas, Veneno e Sangue [Primeira parte]

E mais um conto e mais uma primeira parte, essa é bem grandinha, não sei exatamente até onde vou levar esse, mas tem algumas boas referências a locais reais, cultura e filmes no conto, espero que gostem. Boa leitura!

Prólogo

A areia corria rápido em redemoinhos com o vento noturno.Era uma brisa fresca que acariciava os cabelos e o rosto de Anne.O dia foi de desencontros e derrota, mas a noite prometia alegria e descanso.Sugou um gole do vinho tinto e esticou as pernas para baixo da mesa.

-Mais um dia e eu vou derreter neste inferno.

-Mais um dia e o Sr. Penny vai arrancar todas essas mordomias e nos deixar com uma colher e uma escova de cabelos para varrer estas dunas.

-O que ele espera?Eu pedi a ele que deixasse Ellene vir, seria muito mais rápido.

-E muito mais fácil para vocês saírem por ai também, e deixar os locais notarem que estrangeiros estão roubando o seu precioso tesouro da terra.

-Ao menos não são grãos de arroz, levaria séculos para contar todos eles.

Anne era bem pálida, e devia ter por volta de seus 18 anos, o contorno dos lábios era vermelho fogo, e um pingente lilás pendia de uma esquia corrente prateada em seu fino pescoço, tinha a forma de uma meia lua, ou meio sorriso para Ellene.

-Você bem sabe que ficar o dia todo cavando e negociando com outros idiotas é bem desgastante.

-Não fui eu quem perdeu uma aposta de sangue, alias, nem isso eu tenho mais para apostar.

Otto deu uma risada seca e profunda, parecia vir de um poço sufocado por varias camadas de cadáveres, pois ele cheirava como um, e andava bem parecido também.Usava um colete lilás, tinha os cabelos brancos como a castidade mas fedendo a pecado, olhos cinzas e cansados que não se desviavam  do pingente e de vez em quando iam para de baixo da mesa.

-Bem, vou estragar a sua diversão e ir descansar, bons sonhos Bravo.

-Intimo demais, Otto esta bom.

Ela terminou a taça de vinho em um gole e saiu da cadeira para a porta do quarto, a noite ainda estava agradável, e ela sentia um perfume diferente na rua, algo que lembrava um começo para Anne.

Pulou pela janela e pousou graciosamente na rua, em pé, girando nos calcanhares e se deleitando com o aroma.

Ela seguiu pelas vielas estreitas, passando por entre turistas, músicos e pedintes e continuou até chegar num arco de pedra talhada, não havia portas, apenas uma pesada cortina de couro batido, quando ela tocou a cortina um vento forte veio da rua e espiralou as nuvens de incenso a frente dela.Girando como um véu na lufada, os contornos saíram das sombras e formaram um jovem de vestes claras e cabelos negros e lisos, que estavam sobriamente presos num rabo de cavalo.

-Ellene não veio?

-Ela esta de mãos atadas no momento, preciso de ajuda para encontrar um ovo.

-Já tentou o mercado da rua abaixo?

-Eles não têm do tipo com seis mil anos e duros como pedra.

-Bem, talvez não, mas de qualquer maneira, preciso ir comprar algumas velas e oferendas.

-vou querer saber para quem?

-Você vai querer saber?

Anne levantou as mãos declinando qualquer conhecimento posterior, e seguiu o caminho de volta pela noite, agora acompanhada do belo rapaz que atraia todos os olhares dos transeuntes.

-Fazia tanto tempo que você não saia?

-Eu sou o deus deles, e eles me veneram com olhares, comida e moradia de graça.

-Pobres almas.Se soubessem do que seu deus é capaz pagariam o triplo para você morar no outro lado do mundo.

-Duvido muito, ainda faço o melhor kebab da região.

O mercado se aproximava agora no auge da noite o movimento era espantoso, as pessoas entediadas não tendo o que fazer,   gastam o que ganham durante o dia em trabalhos não pouco dignos, mas com escassa remuneração.Logo a frente, Elliel parou e fitou uma figura com um capuz negro e cabelos desgrenhados saltando para fora dele que estava sentada numa escadaria, com a mão estendida.Era uma mão cheia de calos, que o tempo tratou de espalhar muito bem junto com outras  pústulas sem ouvir sequer uma imprecação em anos.

-Agora não, depois. E viraram as costas e continuaram o caminho ao centro.

-Pensei que você era caridoso

-Ele não tem nada a ver com você, ou com ninguém.

A música de cordas e batidas trazia todos os aromas da noite, mas ela só conseguia notar ele, o jovem deus sabia que ela precisava dele, e mesmo assim ignorava os olhares dela e de todos.

-Erva de cravos, cândida, amaranto flor de lis e salsa.

-Salsa?

-Tem uma pizza no forno, se eu for rápido você vai jantar uma shawarna deliciosa.

-Se a bebida for boa eu acompanho.

-Garanto que não sairia uma gota minha hoje.Elliel fazia milagres todas as terças, cozinhando para judeus, gregos, islâmicos e sahamitas, e todos diziam o mesmo,a comida do deus da areia era invejável em milhas, e bem conhecida.

-Você sabe que isso também ajudaria a procura a ser mais rápida.

-Olha, não sou eu que tenho dietas estranhas, e alias, você não me convenceu nos últimos duzentos anos.Não é agora que vai conseguir algo, só lhe dou teto pois me foi ordenado assim.

-Sem interferências, ta, sim, claro, deixe a sua pequena cobaia se afogar em areia e tristeza.

-Drama deixa a comida amarga, agora vá pegar um bom vinho que eu lhe espero no balcão.

O mercado era um luxo para a região, havia luz e o chão era de um piso creme que já foi branco, gasto por chinelos e areia.Oito prateleiras e um homem calvo e escuro atrás do balcão, sua expressão de tédio resumia uma vida de entregas de jornais em uma maçã grande e de guiar casais em barcos a um remo em uma futura Atlântida.

-São vinte e seis e trinta e cinco.Disse a voz tediosa e gutural atrás do balcão.

-Desconte a manjerona de ontem, e também o alecrim.

-Não, kebab bom, tempero cortesia.Falou o balcão no melhor estilo Neandertal.

O ventilador do teto parou, e a luz piscou, um trem passando sempre faz essas coisas as melhores instalações elétricas, hoje era um dia para comemorar, ao menos para Elliel.

-Aqui esta, vinte e um e…

-Duas moedas, dez não vinte. O Balcão com voz gutural parecia conhecer as moedas pelo peso, e o sonoro tilintar dos 10 pence não o enganou.

-Certo… Vinte e seis e trinta e cinco predador.

-Pato, cofre grande, agradecemos a preferência, sempre voltar.

A referencia a um personagem muquirana e a imitação pobre do melhor estilo fast food foram a gota d’água, a noite pedia uma pizza e o vinho e da próxima vez um estabelecimento onde as luzes não faltassem.

-Escolheu um bom vinho?

-Sim, mas acho que tem algo errado, a embalagem não era essa…

-O que diz?

-“Sangue de anjo”,em Frances.

-Há claro, finalmente uma interferência, parece que você vai ter sua Ellene, e seu merecido titulo.

-Como assim?

Todas as luzes da cidade apagaram, a viela virou uma mancha negra e surda na noite, não havia sons de turistas, mendigos ou musica, alguém matou a noite.

-E eu acho que sei quem foi.

-Do que você esta falando?

-Ali. O jovem apontou para cima, na direção da borda do aglomerado de casas com três andares, e uma sombra esguia e com um rabo comprido sibilou para eles.

-Todo seu querida, a pizza esta quase pronta, me de quinze minutos para preparar a mesa sim?

-Como assim quinze minutos?Aonde você pensa que vai?

E do lado dela, um vento frio passou com uma rapidez absurda, e passou perto da sombra, que sibilou e mordeu o ar, fazendo um estalo venenoso, mas errando o que quer que fosse.

Anne enxergava bem no escuro, sombras vermelhas azuis e roxas vibravam e aumentavam e diminuíam conforme ela focava, a sombra era toda de um azul claro, que na visão das pessoas comuns pode-se descrever como um verde musgo malhado com preto e com asas de couro longas e pontudas, uma cabeça triangular e garras longas.

-Certo, ou você me diz o que veio fazer, ou você vai ficar sem pizza.Bradou Anne no melhor tom de atuação que sua prepotência e canastrice permitia.

Uma sibilante voz encheu a escuridão da noite com risos que pareciam alguém resfriado de uma maneira terrível, e disse:

-Sssim ssSenhorita, sSseus achadossS sSSão de meu exsSclusivo interesSse, ouvi dizSer que vocSê tem uma Scerta chave.

-sSse voScê parar de sSsibilar eu poSso te dizSer onde eu guardei.

Um bloco da esquina do edifício foi lançado, seguido de um claro sibilar raivoso, e acertou em cheio o espaço onde estava o jovem que foi fazer a pizza, e outro o seguiu indo em direção de Anne.

Rápida como um felino ela apoiou o pé no escombro recém atirado e tomou impulso para subir até o terceiro andar, chegou só até o segundo e correu usando as paredes como apoio.

A criatura bateu as asas jogando um fedor repugnante no ar, e cravou as garras na lateral da parede, correndo em quatro patas escamosas até onde Anne estava apoiada.

-Gosta de armas?Sacou a Colt 9mm do coldre no ombro e disparou três vezes na criatura, errando duas.

-um chiado e uma asa com um buraco foi o som que mais agradou Anne na noite, o próximo na escolha dela seriam alguma palavras de desculpas e um pedido de misericórdia, cedo demais.

-GosSta de venenosS?A criatura saltou do apoio no segundo andar, girou no ar planando e desceu em estocada contra Anne, agarrando a perna dela com garras afiadas e rasgando roupa e carne.

Anne soltou um grito de dor e a arma, e acertou um soco perfeito na mandíbula do sibilante, e infelizmente acertou uma peçonha.

-GAhhhh!A raiva subiu mais ainda a cabeça de Anne, e ela girou e torceu o tornozelo para escapar do agarrar, mas na hora que estava solta sentiu uma fisgada nas costas, o rabo da criatura chicoteou cruelmente a pele branca da garota, deixando um rastro de sangue e hematomas.

Ela se chocou com a parede do primeiro andar, e caiu com um barulho feio em cima de uma tenda com de onde ela havia comprado uma frutas mais cedo, estava vazia agora.

-A chave e vocSsê pode sair inteira sSsenhorita.

Os olhos de Anne estavam brilhando vermelhos na escuridão da noite, duas centelhas de ódio e malícia, logo as mãos viraram garras, e ela começou a rosnar como um lobo faminto.

-AssSim sSeja maldita!

A serpente com asas voou novamente até as alturas da madrugada sem estrelas e desceu em outra estocada mortal, mas os olhos não estavam mais encarando ele, desapareceram.

-AparesSça!

Um rosnado vindo de trás da serpente seguido de um jorro de fluidos verdes venenosos falaram para a noite que ela poderia voltar ao normal, as garras arrancaram a vida do sibilante, e agora a boca se fechava em torno do pescoço sorvendo o resto dos fluidos da criatura, e alguns pensamentos ruins também.

A sombras se desfazem, e o que sobra da viela eh uma massa putrefata e uma jovem descabelada e ensangüentada, com um joelho ralado e olhos vermelhos, e as nevoas escuras sumiram, e a jovem também.

-Pepperoni?

-Antiofídico.

-Não costumo usar temperos tão fortes, você esta pálida não?

-E você deve estar brincando.Disse meio irritada Anne, cambaleando até a cadeira mais próxima e se deixando cair pesadamente no fundo dela.

-Sabe, espero que essas manchas verdes saiam com algum alvejante.

-Faça um milagre.

O jovem tirou a pizza do forno com luvas nas formas da mão de um rato famoso na época, e andou até Anne, passando a mão pelo seu rosto e descendo pelo braço.

-Sabe, faz tempo que não tenho pulso.

-Os meios para se medicar, em qualquer nível são bem parecidos Anne, sejam eles normais ou não.

-É grave doutor? vou sobreviver?Disse Anne, tossindo um sangue espesso e esverdeado no chão.

-Ao menos você errou a cadeira, e sim, é grave, pensei que você lidaria melhor com essas coisas.

-Pensei que teria ajuda.

-Já disse, não posso interferir.

-Então não vai me curar?O semblante de Anne ficou grave e seu olhar atônito.

-É diferente, não deixaria ninguém morrer, não alguém tão útil para esses tempos.

-A, claro, cure o peão para não perder o jogo.Você sabe muito bem o que eu quero, não vou prometer nada a você.

-E nem eu, você deve algumas coisas por culpa do orgulho, eu não devo nada assim.

-Não por orgulho, você quer dizer não?

O olhar do jovem se dirigiu a ferida no tornozelo, e com um toque e algumas palavras em uma língua arcaica, os cortes se fecharam e o veneno foi expelido.

-Nas costas parece mais grave, mas o pior mesmo é a mão, você vai ficar um tempo sem usar ela.

-Eu preciso continuar a procura amanhã, não tenho tempo para ficar inútil.

-Você tem de descansar, e parar de exigir respostas por hoje, não estou te usando de maneira alguma, eu realmente preciso de você Anne, todos precisam agora.